Crônica de uma noite estrelada

A última etapa do XXIV campeonato de Texas Hold’em organizado pelo clube ADT, que congrega grandes jogadores da modalidade, foi concluída na madrugada do dia 15 de novembro de 2017. Acirradíssima, a final contava com cinco jogadores em condições de vencer o campeonato, sendo que a diferença entre os três primeiros colocados estava em míseros 15 pontos (valor que qualquer jogador que participe da etapa já pontua).

Venci a etapa e o campeonato, o primeiro em minha trajetória no clube. Após três campeonatos consecutivos amargurando segundos e terceiros lugares consegui erguer, finalmente, o troféu de campeão. Entretanto, a construção da vitória não foi no dia 15, mas sim uma semana antes, quando se revelaram os jogadores aptos na última etapa a conquistar o campeonato. Como liderava o ranking por uma diferença mínima, tracei minha estratégia durante a semana, simulando posições, número de participantes, mãos com jogabilidade, e de quais jogadores devia me defender.

A vitória foi consequência de estudos, e não pela sorte que alguns atribuem. Embora tenha construído a liderança com um bom pôquer durante as etapas, não me descuidei em lembrar das boas e más jogadas, reler os posts e analisar os áudios de nosso grupo de estudos no WhatsApp, e sobretudo dos debates entre os colegas sobre as análises de mãos. Bem verdade, que como todo jogo de cartas, por definição, o pôquer tem um componente de sorte, caso contrário a vantagem matemática sempre prevaleceria. A imprevisibilidade e a jogabilidade fazem com que este jogo seja, talvez, o jogo que mais valorize a técnica, tática, análise de riscos e sobre o controle psicoemocional.

Talvez, neste contexto psicológico é que se desenhou minha conquista: O estudo minucioso e holístico (matemática, psicologia, economia, algoritmos, entre outros) que propicia ao jogador segurança e estabilidade. Por isto, é fundamental estudar os textos, áudios, vídeos e treinamentos disponíveis em livros ou na internet. Além disso, o coaching, seja entre grupos de jogadores (como no nosso caso) ou profissionais, e a troca de experiências.

O caminho para a vitória foi desenhado durante as 14 etapas preliminares, minha evolução no estudo do esporte e o estudo específico para a batalha na última etapa. Verdade também que liderava o ranking e sabia o que era necessário fazer para obter a vitória: permanecer na mesa até que os concorrentes fossem derrotados. Ligeira vantagem, porém, crucial para aplicação da minha técnica. A noite derradeira iniciou-se no sorteio da minha posição na mesa. Sabia, pelas minhas simulações, que de todas, a sorteada era a que mais me favorecia. Sorte.

Primeira mão: QQ. Soube lidar com esta mão extraindo um bom pote. Talvez o máximo possível.

Segunda mão: KK. Também puxei um bom número de fichas.

Claro que isto não ocorreria até o final da etapa, mas como me esforcei e me preparei tanto, parecia um sinal de que: “Hoje é seu dia”. Um reforço emocional, que me confortou até a última mão.

Escolhi a posição da mesa, o valor relativo das mãos para minhas ações e com quem eu poderia jogá-las para não comprometer a etapa e consequentemente o campeonato. Um algoritmo previamente elaborado e que segui à risca. Após os sete primeiros níveis, meu stack já havia triplicado e na mesa final já tinha quase 50 blinds e era chipleader. Não havia eliminado nenhum jogador até então, não joguei nenhuma mão que me comprometesse, não usei de agressividade excessiva (que é o meu ponto forte, mas também fraco e explorável). Nenhum All In. Nenhuma mão perigosa com jogadores tecnicamente estudados e concorrentes ao título. Meu “Kernel” do algoritmo.

Algumas jogadas foram cruciais:

1. Mão de Hollywood:
Jogador short, na posição UTG+1 da all In de uns 10BBs;
Jogador em UTG+2 da call;
Jogador em MP1 estoura all In de 20BBs;
Jogador em HJ dá call por baixo.

As mãos respectivas, (TQ de ouros), (88), (KK) e (AA). Minha mão (JJ). Penso por uns cinco minutos. Será que está tudo encavalado e meu JJ é bom? Algoritmo novamente: fold.

MP1 com KK leva trincando no bordo. Ganha um jogador fora da disputa do ranking, mas vejo um concorrente direto eliminado. E se eu estivesse na posição UTG+2 e tentasse isolar? Provavelmente teria perdido muitas fichas, mas a sorte me possibilitou jogar ou não aquela situação, estava na BB. Mais um reforço emocional, embora, meu fold fosse correto.

2. Quatro jogadores, com um único oponente brigando pelo título.
Dou call de 2,5BBs com KQ no BB, do raise de um não concorrente. Bordo AK555, que foi check-call até o river. Oponente da all In. Penso uns cinco minutos, e de novo o algoritmo: fold. Oponente dá showdown cortesia com 88. Se eu desse call e ele tivesse o “A”, trocaria minha liderança em fichas com ele e comprometeria a etapa. Um grande bluff. Embora estivesse claro que eu estava ganhando, fiquei muito feliz com meu fold. O algoritmo errou, mas me deu ainda mais segurança.

3. Três jogadores.
Eu chipleader e somente um outro concorrente ao título. Mais do que nunca tinha que eliminá-lo. All In do concorrente e eu no SB com AK de paus: call. Ele mostra TQ de ouros.

Naquele momento, tamanha era minha confiança, que levantei já comemorando o título. Não podia ter bad, era meu momento, era meu destino, era minha vez.

Break antes do heads-up final, fotos, congratulações, um sorriso aberto e aliviado, e uma lágrima escondida, prestes a cair e engolida. Para os jovens é uma conquista de muitas que virão, mas para um quase quinquagenário, uma das últimas de outras que virão.

A última etapa também era especial, disputa-se o chamado Grand Prix, torneio que vale troféu, com buy in mais alto, deepstack e premiação maior. Faria eu o chamado: barba, cabelo e bigode? Sim. Depois de uma longa disputa, um call seguro e de alma de K8 de ouros contra A2 off. Nenhum Ás, e meu 8 no river. Tinha que ser assim. Na última carta de longas 15 etapas.

Chego em casa às 5:00 da manhã. Acordo todos em casa e exibo meus dois troféus, ambos escritos “CAMPEÃO”. Congratulações, fotos e alegria. Agora sim, meus três troféus de 2º e 3º lugares, já expostos no meu cantinho de conquistas, recebem o Rei e a Rainha, completando o sentido no conjunto e demonstrando minha evolução. Juntos demonstram coesão, coerência e finalidade.

Por fim, como disse anteriormente, o ADT é um grande clube de pôquer, com jogadores excepcionais. É fonte de amizades e troca de conhecimento. Arrisco aqui: O ADT é o melhor. Para finalizar, acordo durante o resto dia 15/11/2017 em um devaneio de sonho, do qual eu não me retorno, gritando: “ALL IN!!!!”

 

Imagem: ADT Poker

Quando o poker é algo mais numa terça-feira

O poker é assim. Um amigo te fala que abriu uma conta no PS e puxou uma graninha, você se lembra que há pouco tempo, ao final do não distante século passado, se jogava o tal fechado, e resolve se meter a besta de abrir uma conta pra jogar o hold’em online.

Mas parece que não basta, e faz um home game que atravessa as madrugadas com meia-dúzia de alucinados, que depois de um mês vira uma mesa cheia que mal cabe num cômodo de casa, e então você procura um bar ou restaurante para sediar toda a bagunça. E isso se torna uma tradição de terça-feira, nem tão sisuda e nem tão largada, um projeto não projetado, espontâneo em sua construção, edificado pela congregação.

Se tem algo sagrado, é a terça-feira de poker, um torneio batizado pelo dia, mesmo nunca acabando antes da quarta-feira, até que se saiba quem é o Ás do baralho, quem é o Ás das Terças. É difícil convencer, mas nem é esse o caso, que tá cheio de melhor torneio do mundo, mas o mais maneiro fica na Mooca, ali ao lado. E não é surpreendente que em muitos clubes seja assim.

Sem perceber, você passou todas as terças-feiras dos últimos seis anos encontrando os mesmos caras, conhecendo tantos outros, e reafirmando toda a sorte de privilégios que um simples jogo pode te trazer, onde há aprendizado que somente surge da vontade, que gera uma vida social nova, e entretenimento que do contrário de te alienar, te transforma. E o mais importante, seus inimigos na mesa se tornam amigos de longa data.

Só o tempo diz o que se constrói sem perceber, pela prática do encontro, carregado pela satisfação do jogo. O que era viciado encontrou a medida que o separa do péssimo hábito, e pode agora usar o poker não mais como escape. O deslocado encontra na diferença entre seus pares, compreensão pra não seguir mais calado, e pelo poker é acolhido e estimulado. Aquele que sem medida se entregava aos impulsos, ganha ao menos, um olhar mais apurado.

O que traz o homem ao jogo? O que o motiva a decifra-lo? E por que o jogo decifra o homem?

Não se sabe, se intui, mas quando dessa convivência se ganha algo mais, quando essa convivência nos faz atravessar o mundo em nome do jogo, seja em Vegas ou na velha Mooca, e faz com que cada um de nós prefira comemorar um aniversário ou uma conquista pessoal justamente no feltro surrado das terças, é ali que se tem algo mais, onde tudo faz sentido. É disso que tenho falado, seja no poker mais profissional ou no menos experiente, algo intangível está lá, algo que não se mensura, mas faz valer a pena.

 

Foto: Última terça-feira de poker no Ás das Terças, o torneio mais maneiro do mundo.