Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

O desacordo do acordo no poker

Quando há disposição para um acordo de premiação em torneios, cada jogador recebe duas cartas, uma de naipe vermelho e outra de naipe preto, escolhe uma delas e entrega facedown ao dealer. Carta vermelha é não para o acordo, preta é sim. Prontamente o dealer embaralha as cartas escolhidas e as abre duma vez, e só teremos acordo se todas forem pretas. Este é o procedimento ideal dessa situação, pois não temos assim a exposição dos jogadores. Bem, esse é o cenário idealizado, na prática raramente se dá desta forma. A coisa é decidida no papo, e encontramos recorrentemente o jogador piadista que já pede acordo quando a mesa final se forma, ou não raramente os que optam por garantir uma grana, e a turma do “acordo na cadeia”, dentre muitos outros.

Acordos são uma face comum do poker, principalmente nos clubes que organizam torneios em limites baixos. Se pegarmos as coberturas noticiadas nos sites veremos num relance que muitos deles terminam em acordo, seja no HU, 3-handed ou até envolvendo cinco ou seis jogadores. Fora da curva foi o acontecido há alguns dias num clube paulistano, na reta final do torneio regular com 15 mil reais garantidos, doze dos 66 entrantes decidiram dividir igualmente o prizepool que estava destinado originalmente aos sete primeiros. Esse foi o fato que pautou discussões nas redes.

O acordo dá a oportunidade aos frequentadores dos clubes de poker de minimizarem suas perdas ao longo do mês, o que para jogadores que estão periodicamente batendo cartão nos clubes é a possibilidade de poder continuar jogando. Pegar um prêmio oito vezes maior que o buy-in é igual a jogar cinco ou seis torneios parecidos no mês. Em algum sentido é como sustentar a própria diversão.

Quem tem um olhar mais matemático ou profissional para o poker pode defender o acordo justificando que está fazendo algo lucrativo ao aceitar o deal, ou pelo menos realizando a média de ganho que só vai aparecer lá na frente, no longo prazo. Desde que, claro, seja um acordo vantajoso.

Alguns defensores do não acordo entendem que numa situação como esta, onde doze jogadores repartem o prizepool antes de estourar a bolha, a competição se corrompe, há um dano ao desenvolvimento do esporte. E aqui vale uma ressalva, se por algum motivo é possível considerarmos o poker como esporte, é porque o esporte está inserido no poker e não o inverso. Poker é tão peculiar e multifacetado que quando tentamos encará-lo como esporte, algo escapa, e os acordos são um desses aspectos peculiares que diferenciam o nosso poker. Ademais, há de se observar que o esporte de fato talvez aconteça apenas numa esfera mais profissional, a grande maioria praticaria uma “atividade esportiva”, taí uma diferença importante. A pelada de domingo, mesmo quando muito organizada, está mais para brincadeira ou entretenimento do que o caráter sério empregado nas competições profissionais. O que está em jogo em cada atividade é diferente, pois o objeto é diferente mesmo para aqueles que encaram a diversão de forma mais séria.

É possível fazer um lista sem fim de definições para cada um desses olhares, uma sequência de cagação de regras, mas espero que não seja esse o ponto, pois estaríamos elencando idealidades, ou visões projetadas ideais, correndo o risco de substitui-las pela realidade.

Se fosse possível um acordo de opiniões sobre o assunto, aos moldes do descrito no início desse texto, mesmo se tivéssemos apenas cartas pretas apresentadas, teríamos um desacordo, pois cada carta pode carregar consigo um ideal projetado diferente. Por isso, se o acordo é bom ou não, depende de como projetamos nosso olhar. Com uma certa distância desses ideais e disposição para enxergar além disso, teríamos, concordem ou não, o desacordo.

A condição de desacordo é a que propicia o acordo, e assim sucessivamente. A tensão que há nesse ciclo é deveras mais interessante.

 

Imagem: M. Naccarato