Quando o poker é um palco sem heróis

O palco, sabemos, é um espaço designado para apresentações de performance artística. Nada de novo, no palco é onde o artista faz valer seu desempenho, assim como na oficina o mecânico, no hospital o médico, ou à mesa o jogador de poker. Contudo é no palco que fica evidente a exposição da imagem do ator, afinal, o mecânico não é assistido por um bando de gente quando está simplesmente fazendo seu trabalho, mas no caso do ator, ou de qualquer outra atividade que é vista por muitos, tudo parece ser maior.

Acontece que, nessas situações, as falhas são amplificadas por uma plateia pronta ao julgamento, bem como acertos e superações são alçados à outro patamar, algo mais elevado e sobre-humano, onde a admiração da plateia toma contornos de heroísmo. É essa analogia que está presente nos esportes, no culto às celebridades, nas empresas etc.

Quando substituímos o lado humano do protagonista por um suposto lado sobre-humano, projetamos na figura do heroi nossos anseios, fazendo valer mais a imagem do que a realidade. É nessa linha tênue que surgem os herois, mas quem precisa de herois?

Você pode dizer que precisamos deles, ou que herois são importantes e necessários. Bem, vejamos.

Não é exatamente o palco em si que cria os herois, mas os valores atribuídos aos herois nas diferentes oportunidades que aparecem. O palco evidencia os feitos, mas a carga de valor que vem depois é uma construção social, que passa pela história, pela comunidade e pelos meios de comunicação. Estamos tão acostumados a tudo se tornar palco, que se perde de vista o caminho percorrido, e a imagem acaba valendo mais que o feito, o fim valendo mais que os meios. Nesse sentido, o principal é notar que há uma diferença abissal entre admirar e idolatrar.

Admirar está mais na linha de perceber o que há de excepcional no feito, enquanto idolatrar traz consigo venerar a imagem e atribuir valores. É aí que as obrigações do palco para o protagonista se tornam tão ou mais importantes do que o feito em si. É aqui que surge o heroi, numa construção de valores.

Marcos Cerqueira abordou um tema similar em seu artigo Verde, amarelo, azul e branco, e ai? Ele fala sobre a falta de reconhecimento e suporte que o país tem para com o poker, e nos convida a deixar um pouco de lado a bandeira. Fato é que, quando um campeão brasileiro ergue a bandeira, ele pode fazê-lo por inúmeros motivos, seja como sinal de pertencimento, em amor à pátria ou aos seus iguais, ou até de forma demagógica. Nesse ponto o que fica claro é que o formato e intenção são mais importantes do que o fato em si.

O desafio para quem assiste é conseguir olhar o feito sem venerar a imagem, é admirar o caminho, que é o fluxo constante da vida. É ali que encontramos algo genuíno, sem herois, e onde a potência está presente em todos e no poder do conjunto. Quando os jogadores souberem a força que têm quando unidos, o poker será cada vez mais para os jogadores e menos para os poucos herois e bandeiras.

Se falamos tanto do poker como esporte, podíamos mudar o palco por um pódio, pois no palco é só a atuação que vale, é blefar que vale. E já que estamos falando de palco e herois, deixo uma frase para se pensar, do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht: Infeliz do povo que precisa de herois.

 

Imagem: Shutterstock

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Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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