Por uma cabeça ou por um out no river

Desde muito cedo, e não só por influência familiar, mas também por certo gosto pessoal que somente apostadores e jogadores identificam e compreendem, sempre dou uma passada no Hipódromo Paulistano. O lugar é maneiro, seus grandes espaços e sua arquitetura compõem uma bela vista da cidade. O Jockey Club de São Paulo foi fundado em março de 1875, e seu hipódromo só foi parar na Cidade Jardim no início da década de 40. Porém alguns aspectos dessa época ainda estão presentes em sua atmosfera, e sempre sinto ter voltado no tempo quando encontro os velhotes que lotam a área de apostas abaixo das tribunas ou algumas dondocas de chapéu nos dias de Grande Prêmio.

Diferentemente do que se imagina não se trata de um lugar tão elitizado, pois hoje em dia seu público é bem plural, a entrada é gratuita, e o valor mínimo das apostas é de 1,50 a dois reais apenas. Uma boa diversão entre um chopp e outro. As apostas podem ser feitas de várias formas, você pode apostar apenas no cavalo vencedor, nos dois primeiros (dupla-exata), três primeiros (trifeta), ou mesmo apostar se o seu escolhido será um dos dois melhores a cruzar o disco final (placê), só para citar alguns exemplos.

O interessante do sistema de premiação é o formato. Cada cavalo e/ou combinação de resultados recebe uma cotação, que vai se alterando em função da quantidade de apostas recebidas comparadas ao total, ou seja, os que recebem mais apostas são os favoritos a ganhar, e pagam menos prêmio, e os azarões pagam mais. Logo após a abertura das apostas em cada páreo, um painel mostra as cotações que definem até a hora da largada o quanto você vai ganhar se acertar sua pedida. Digamos que você tenha apostado dois reais no cavalo de número 6 como vencedor, que está pagando 2,5 (o mesmo que 2,5/1), ao final do páreo, se ele ganhar, seu prêmio será de cinco reais (R$ 2,00 x 2,5).

Os turfistas, como bons apostadores, não levam em consideração apenas as cotações quando fazem suas apostas, eles de fato se tornam especialistas em tudo que está em volta disso, pesando itens como tipo de piso, distância, jóqueis, treinador e ascendência dos cavalos, procurando chegar a uma boa escolha, em busca de uma barbada!

Sem entrar no mérito da eficácia desses estudos, já presenciei muita discussão e reclamação quando o resultado, tão estudado e esperado, não dá certo. Digamos que os frequentadores do hipódromo sempre procuram um motivo externo para culpar seus erros nas previsões, assim como muitos jogadores de poker culpam seu azar ou a suposta forma errada que o adversário jogou quando amargam um resultado negativo. Fato natural do ser humano, ninguém gosta de encarar a derrota, mas aprender a perder é parte de aprender a jogar, por isso não dá pra ficar nessa sempre.

Há de se observar, evidentemente, que são duas formas distintas de jogo, onde, no turfe, sua capacidade de alterar o resultado do páreo é zero. Já no poker, ainda que você possa, com certa habilidade e prática, mudar o resultado de uma mão, muitas vezes você vai estar favorito e perder para um out no river. É claro que tanto no turfe quanto no poker, não há o que se fazer em relação à aleatoriedade, mas, sobretudo no poker, você pode controlar o jeito de jogar.

E finalmente, após alguns chopps e inúmeras poules sem prêmio amassadas no meio da mesa, fica fácil entender que estar favorito não significa vitória, e nem mesmo significa que é injusto perder para um out no river. Quem estuda o jogo trabalha sua expectativa de ganho num período de tempo suficiente para ter uma amostragem apurada, e poder analisar seus próprios erros e consertá-los, enquanto a maioria fica presa à aleatoriedade e ao favoritismo.

Talvez, se você tiver colhões o suficiente, que tal ir até o Jockey Club e enfiar 10 mil pratas no cavalo favorito que está pagando 1,5 pra um? Afinal, seu escolhido pode te dar um lucro de cinco mil pratas, mas você faria isso? Então, talvez, e só se você realmente quiser, deixe um pouco de lado essa justiça aparente das probabilidades e comece a trabalhar a cabeça pra aguentar o tranco quando a baralhada vier.

Publicado originalmente em Aprendendo Poker e reeditado para o Metapoker. Foto: M. Naccarato.

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