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Poker gourmet, ou melhor, poker fetiche

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Fala-se de poker de muitas maneiras, na conversa entre amigos, na mídia em geral e na especializada, entre quem vive do jogo e os que não sabem exatamente do que se trata, alguns com certa reserva, alguns assombrados pelos jogos de azar, enfim, cada um fala de um poker, e o entende à sua maneira, por vezes, até repetindo o que ouvem. Tantas são as formas de ver, que pudera, o formato ao final, acaba sendo mais importante do que o conteúdo nos dias de hoje. Não à toa, se temos ultimamente algo tão consagrado no mercado é a gourmetização de qualquer produto, e porque não, de uma ideia ou conceito. O brigadeiro de padaria dobra de tamanho e é vendido por cinco vezes o seu valor no shopping center, o cachorro-quente do final da balada se torna um food truck, e não tão distante, o já naturalizado selfie frente ao espelho da academia não é uma versão melhorada de si mesmo?

Se algo denominado gourmet é melhor, deixo para o seu gosto decidir, afinal a questão talvez não seja o produto em si, pois os novos brigadeiros parecem ser mesmo melhores, mas e o tal formato?

Quem não se lembra dos comerciais do PokerStars, muito bem produzidos e carregados de jogos de imagens repletas de conceitos e com uma trilha sonora matadora, abusando de conhecidos jogadores de poker, que outrora anunciavam we are poker! Dois ou três anos depois, o maior site de poker prefere Nadal e Ronaldo como garotos-propaganda, os jogos de azar virão com força nas plataformas online, e o slogan já carece ser reformulado… We are entertainment. E Ronaldo é melhor que Negreanu pra isso, impossível não perceber quem é mais conhecido, quem vai atrair mais gente pro gamble. Não é pra você, grinder, que eles estão falando, esqueça esse papo de team pro, eles já dispensaram a maioria, na nova gourmetização do poker o foco é atrair praticantes recreativos, que vão oscilar entre um sit and go e uma rodada de blackjack.

O gourmet não me parece um incremento no produto ou serviço, ainda que também o seja, mas exatamente um formato que faça com que você perceba esse produto melhor, ou que lhe chame mais atenção, um apelo de embalagem.

Agora que já temos uma nova, e cíclica, versão melhorada do poker, podemos seguir para o segundo ponto, o fetichismo. Dan Bilzerian, enquanto pateticamente não arremessa outra peladona telhado abaixo, é o fetiche que todo o poker pode produzir: belas garotas nuas, armas, iates, carrões e grana, muita grana, tudo aparentemente conquistado com o joguinho. Grana essa que pode tirá-lo da prisão e colocá-lo num jatinho particular. Uma matéria no site Terra fala da hispano-belga Gaëlle García Díaz, modelo e jogadora de poker, que afirma que joga alguns torneios com roupas sensuais afim de não ser eliminada pelos adversários. Segundo a reportagem, Gaëlle é “linda, ousada, tatuada e rica”. Fetiche puro.

Que baita moralismo chato, não? Não, não é isso ainda, não se trata de uma questão de certo e errado, já vamos chegar lá. Do outro lado temos todo um mercado, afirmando e reafirmando seu novo formato de poker, uma atividade esportiva, um esporte da mente. Um esforço pra tirar a pecha de jogo de azar, pra afastar de vez o tio viciado que perdeu a fazenda, e onde se pode ser um atleta dos feltros, e subir ao pódio segurando a bandeira. Nesse aparente paradoxo, vagas para o BSOP poderão ser conquistadas na roleta do PS? Contudo, o paradoxo é só aparente, tudo parece ser a mesma coisa, nivelada pelo formato.

Nada tão redutor quanto simplificar toda a complexidade do poker à um formato. Nada tão igualmente sedutor. Exatamente o que há de irresistível no formato, nos deixou com poucos recursos para refletir sobre o jogo. É como uma mão perdida antes de seu início, onde você segura par de ases, e sabe que aquilo é bom, mas não sabe o que fazer até o river.

 

Fontes: Terra e Canal do PokerStars no YouTube. Imagem: wavebreakmedia / Shutterstock (editada)

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About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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3 Comments

  1. sam 26/01/2015 at 11:35 -  Responder

    Muito bem escrito adorei

  2. Marcos Cerqueira
    Marcos cerqueira 24/01/2015 at 15:43 -  Responder

    O melhor artigo que eu li sobre pôquer nos últimos tempos. Parabéns!

    • Marco Naccarato 25/01/2015 at 20:31 -  Responder

      Obrigado pelas palavras, Cerqueira.

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