Vassil

O revés da sorte

Diego Yoshio Rebollo Mooquense, Economiário, Empresário e Jogador Amador de Poker.

Assim como em meu primeiro artigo, O Risco do Não Risco, faço uma tentativa de relacionar o poker com outras atividades, entendendo suas semelhanças e diferenças, nesse caso, explorando o tema sorte.

Começando por uma breve pesquisa sobre a palavra, na língua inglesa, usa-se luck para sorte, e o termo bad luck poderia ser traduzido para o português como má sorte, ou falta de sorte. A tradução mais usada para bad luck no Brasil é a palavra azar, que deriva do árabe “sahr” (flor), pois um dos lados do dado árabe possuía o desenho de uma flor. O que no fim das contas nada mais é do que a ausência de sorte. Porém, ao utilizarmos a palavra azar, ou revés, temos a impressão de que algo negativo está acontecendo, não de que apenas faltou sorte na situação, como se a falta de sorte estivesse sendo potencializada.

Entrando no contexto do poker, a sorte se faz condição de jogo. Não existe partida de poker sem a presença da sorte. Os jogadores ao longo do tempo foram desenvolvendo técnicas e estratégias a fim de utilizar as probabilidades a seu favor e diminuir a influência da sorte, porém, é muito comum vermos jogadores sendo eliminados em situações onde têm 70%, 80% ou até mais chances de saírem vitoriosos. Existem tentativas de diminuir a influência da sorte no jogo, como é o caso do Match Poker, modalidade do poker largamente explorada no livro Metapôquer. Mas, não seria a sorte parte do poker ou parte de qualquer jogo?

Vamos as comparações.

Kelly Slater, o maior surfista da história com 11 títulos mundiais, dono de diversos recordes, entre eles o de mais jovem campeão mundial, e o de mais velho campeão mundial, compete em um esporte onde a sorte tem sua dose de influência. No circuito mundial, os 34 surfistas participantes viajam o mundo para competir entre si. As etapas são divididas em baterias, onde cada atleta surfa até 15 ondas. A principal variável é a natureza. Não se pode controlar a natureza, e cada atleta pode ser beneficiado, ou prejudicado, dependendo das condições do mar. Seria o melhor surfista aquele que, independente das adversidades consegue uma regularidade, e dessa forma minimiza o fator sorte (ou azar)?

É uma pergunta bastante interessante, ainda mais considerando que o maior campeão da história, em uma tentativa de minimizar o fator sorte, construiu em seu rancho na Califórnia uma piscina artificial de ondas perfeitas, onde os atletas podem competir em igualdade de condições. Mas não seria esse o charme do surfe?! Ver os surfistas competirem em ondas que não são idênticas umas as outras? Fato é que a World Surf League inseriu a piscina de Slater como etapa do circuito mundial.

Outra modalidade que depende de condições naturais é o de maratonas aquáticas. Algumas provas como a do Canal da Mancha, na Europa; e a prova Leme ao Pontal, no Rio de Janeiro, exigem muito preparo dos participantes. Uma das características dessas provas é que são disputadas individualmente, cada atleta se prepara, algumas vezes durante anos, e então escolhe a melhor época do ano para nadar. Também é tarefa do atleta e sua equipe escolherem a melhor data, com clima e condições mais favoráveis da natureza. Alguns atletas não são felizes na escolha de data, e acabam se prejudicando, enquanto outros conseguem acertar em cheio o dia em que as condições irão favorecê-los. Sorte? Azar? Fato é que diferente do Match Poker, ou da piscina artificial de Kelly Slater, ainda não encontraram uma maneira de igualar as condições de disputa nessas modalidades.

Exemplos de sorte e azar podem ser citados em diversas modalidades, o arqueiro que é beneficiado ou prejudicado pelas condições do vento, o piloto de automobilismo que tem sua corrida prejudicada (ou beneficiada) por questões climáticas, ou até mesmo pelo azar de ter um problema mecânico no veículo. O time de futebol que sabe jogar melhor na chuva, e o maratonista que é prejudicado quando o clima está mais quente que o esperado. Vemos lutadores de MMA perdendo e ganhando peso a todo momento. O motivo? As regras de lutas e artes marciais são assim! O objetivo? Igualar as condições! Mas estaria um lutador de boxe, jiu jitsu e judô em igualdade de condições contra um lutador de taekwondo, muay thai e karatê? E, novamente, não é essa a graça? Ver lutadores enfrentando especialistas em outras modalidades e conseguindo ter sucesso mesmo que sejam inferiores tecnicamente!

Seria justo atribuir as vitórias dos atletas nos esportes citados acima à sorte? E no poker, é possível que alguém tenha bons resultados ao longo do tempo apenas porque tem sorte? Talvez o correto não seja torcermos para que o Match Poker seja a modalidade mais praticada do poker. É utópico pensarmos que as condições de igualdade existam. É assim em nossas vidas, em nossos trabalhos, em nossas relações amorosas e afetivas.

A sorte e a sua falta estão presentes em nossas vidas de forma tão robusta que às vezes nem nos damos conta. Quantas vezes paramos para pensar em quanta sorte tivemos em estar naquele exato lugar, e naquele exato momento, quando algo mágico parece ter acontecido. De todos, o jogador de poker sabe como a sorte pode mudar.

Podemos ter o par ases quebrado, o nuts no flop quebrado, perder vários coin flips consecutivos, atribuir as derrotas à falta de sorte, mas paramos para analisar se fizemos a jogada correta? Ou preferimos colocar a culpa no azar, ou no adversário, que pagou mesmo sabendo que estava perdendo? Dar um call duvidoso, e se estiver perdendo colocar a derrota na conta do cooler, ou culpar o dealer quando ele bate o único out que não poderia bater.

Algumas vezes chegaremos a conclusão que fizemos a melhor jogada que poderia ser feita, e mesmo assim perdemos. É assim em nossas vidas, porque deveria ser diferente no poker?

Não podemos controlar a sorte, as adversidades, as condições. Talvez alguns tenham medo do azar, e vão atribuir seus fracassos às condições, às adversidades. Eu prefiro sempre continuar na minha humilde busca por evolução, na tentativa de fazer a melhor jogada sempre, no poker e na vida sem medo do azar, porque quando a sorte chegar, eu quero estar preparado. Se os árabes antigos esperavam ter falta de sorte uma em cada seis vezes em que o dado era lançado, como eu poderia reclamar de receber mais flores do que o esperado?

Imagem: Dados e fichas em osso, época romana. Museu gallo-romano de Saint-Romain-en-Gal-Vienne. Fotógrafo: Vassil

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