Crônicas

O improvável futuro possível do poker

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No futuro, o poker é uma indústria de escala mundial, não somente nos EUA onde foi seu berço, mas fortemente desenvolvida no resto do globo. Contudo, o principal custo dessa expansão parece ser uma onda conservadora na sociedade, que ainda vê o poker como jogo de azar. Visto este quadro, uma associação mundial, por força de uma pressão de mercado cada vez mais presente, queria provar ao mundo que o jogo de poker consistia essencialmente de habilidade.

Neste futuro, jogadores de poker não são classificados pelos ganhos ao longo da carreira, mas por um sistema de pontuação similar ao xadrez, que os qualifica por um rating. Esse novo modelo atendeu a uma demanda muito solicitada pelos jogadores, pois grandes torneios com fields gigantescos estavam gerando prêmios cada vez maiores aos campeões, que não necessariamente eram os melhores competidores, mas vinham ocupando os primeiros lugares nas listas. Por pelo menos duas décadas este sistema vigorou, e foram selecionados os dez melhores ratings dos últimos anos, que jogariam uma partida que definiria o melhor dentre eles.

Prontamente a mídia verificou que poderia explorar essa oportunidade, e evidentemente, a modalidade torneio foi a escolhida, pois uma mesa de cash game, independentemente da qualidade dos jogadores, não traria o drama e a adrenalina presentes e necessárias para gerar um espetáculo.

Assim que a competição começou, matemáticos e psicólogos foram chamados para comentar, jogadores da velha guarda e teóricos destrinchavam cada mão em busca do jogo perfeito, o apresentador ressaltava a qualidade técnica de cada um, ainda que deixasse clara as suas preferências e julgamentos. Comentários e estratégias que ficavam restritas aos bastidores começaram a ser televisionadas, e a cada transmissão, a quantidade de patrocinadores só aumentava. O jogo e o espetáculo não se diferenciavam mais.

Durante meses, sete torneios foram realizados, um play-off para não deixar dúvidas e, ao final, dois competidores terminaram empatados para o delírio dos espectadores. Foi então realizada uma nova série, agora mano-a-mano, para definir o melhor entre os dois. Acontece que, quando a série chegou ao seu desfecho, o jogador derrotado pediu uma revanche, alegando que o adversário havia recebido um melhor conjunto de cartas durante a disputa. A derrota é sempre amarga, e como o show tem que continuar, o pedido foi atendido. Ao término, o jogador derrotado na primeira série sagrou-se vencedor.

Sem solução para a contenda e com receio de perder público, os organizadores definiram uma nova regra. O heads-up final seria disputado com uma quantidade infinita de fichas e o campeão seria declarado pelo critério de submissão, ou seja, o perdedor teria que anunciar derrota por incapacidade de bater o adversário. Algo difícil de imaginar visto que nenhum jogador admitiria tão facilmente uma derrota neste formato.

Contudo, os dois jogadores toparam, e a nêga durou quase quatro dias seguidos. Com a estafa tomando conta de ambos, o improvável aconteceu e um deles pediu trégua, pois não suportava mais ficar de olhos abertos, não conseguia mais raciocinar e encontrar forças para o embate.

O jogador vencedor foi muito comemorado, finalmente havia o representante de um poker bem jogado, pelo resultado e pelo poder mental e perseverança. Contudo um desafio maior se apresentava, os organizadores levaram o campeão a disputar uma série contra um robô. Um software insistentemente testado numa máquina parruda, que mesmo no futuro, ainda não conseguia gerar o algoritmo que solucionaria o jogo, mas tinha um banco de dados quase incomensurável e uma capacidade de processamento idem.

No desafio contra a máquina, o campeão ganhou três partidas em dez, da metade pra frente da disputa, quando começou a perceber que quanto mais incomuns eram suas jogadas, mais difícil ficava para o computador resolver a partida. Mas neste ponto a mídia não estava mais tão interessada, a bola da vez já era outra, talvez um escândalo, talvez a gostosa da vez, talvez uma guerra televisionada.

O que restou disso tudo foi notar que o espetáculo trouxe mais praticantes para o poker, que máquinas não jogam, apenas fazem cálculos, e que jogadores são simultaneamente falíveis e criativos, e experimentam situações onde o entendimento que cada um tem do outro é um dos inúmeros fatores das vitórias e derrotas. Assim como no passado.

 

Foto: shutterstock (editada)

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About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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2 Comments

  1. Marcos Cerqueira
    Marcos Cerqueira 14/05/2014 at 15:46 -  Responder

    Pausa para reflexão.

    • Marco Naccarato 23/05/2014 at 03:27 -  Responder

      Bom saber que você anda por aqui, Cerqueira! Abraço!

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