O flush e o joão-de-barro

O paraíso da foto acima fica a 300 quilômetros de Fortaleza, mais ou menos umas cinco horas de jipe desde a capital do Ceará, por uma das paisagens mais secas que já pude presenciar, ainda que se encontre muita vegetação pelo caminho. Entre cajueiros e rios sem água marcados apenas pela terra, a pergunta inevitável ao guia foi — Por que está tão seco assim?

Pois bem, a cultura popular diz que andorinha voando baixo é sinal de chuva, e ontem mesmo, pude conferir a profecia se realizando, enquanto os primeiros pingos de chuva acertavam minha careca após algumas andorinhas terem sobrevoado a região.

Algo parecido com a resposta dada pelo guia, pelo menos em essência. Ele nos disse que embora as chuvas não tenham visitado com rigor aquela região do Ceará nos últimos quatro anos, os joões-de-barro já estão avisando que desta vez as chuvas virão com força naquela região. Ele explicou que estes pássaros estão construindo seus ninhos com as entradas mais fechadas que o usual, supostamente uma proteção para as chuvas nos próximos meses.

Andorinhas e joões-de-barro têm lá seus motivos. Os das andorinhas você pode conferir clicando aqui, mas o que parece ser mais interessante é como o homem relaciona esses fatos, pois independente de explicações, todos tiramos conclusões pela observação e frequência dos acontecimentos. O guia que o diga, afinal, para ele, pássaros e chuvas têm uma relação prática, independente dos motivos.

É como a mão que um amigo me contou há alguns dias num torneio. Numa guerra de falinhas com o adversário, ele tentava convencê-lo de não pagar a aposta alta para formar o flush no river. O oponente apenas disse que não iria se perdoar se foldasse, e optou pelo call, que veio premiado para o desprazer do herói.

Para o herói, não é todo flush que bate, e ele conhece bem a explicação matemática para isso, mas para o vilão, a lembrança da frequência com que ele acerta os flushes é mais evidente, e dita sua forma de jogar, desde a escolha inicial das cartas (digamos que seu range é qualquer duas cartas naipadas). O vilão sequer levou em consideração as chances matemáticas de acertar o flush, ficou tomado pela possibilidade de acertá-lo de novo, e fatalmente vai jogar desta forma por um bom tempo, pois o fato pra ele é que o flush bate. Ao herói só resta procurar tirar proveito, nem que for para controlar o pote e perder menos, pois o fato para o herói é que seu adversário não vai largar até ver a última street.

A briga eterna entre jogar com expectativa positiva e jogar apenas para ganhar uma mão pode nunca ter fim, pois há muita chuva por vir, mas o que pode mudar seu jogo é justamente a forma de olhar pra ele e para o adversário.

 

Publicado originalmente em Aprendendo Poker. Editado para Metapoker. Foto: M. Naccarato

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