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No poker, os meios são tão ou mais importantes quanto os fins

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Você recebe par de ases na bolha do torneio, e o parceiro no small blind estoura um caminhão de fichas… Já era a quarta vez que isso acontecia, e você foldou em todas, mas chegou a hora da forra, do troco, de devolver com classe as investidas do empurrão. E no BB você dá call, mostra os bicudos, o vilão fala “puta merda” e abre um vala-sete já temendo a eliminação, afinal ambos têm a mesma quantidade de fichas. O flop catrupiado penaliza os ases e aponta para a porta de saída. Fim de torneio.

Diferentemente da reação mais comum, você se retira da mesa, um pouco desconsolado, obviamente, mas certo de que fez o melhor, não somente nessa mão, mas frente ao torneio como um todo. Se você joga com certa frequência, vai rapidamente se acostumar com a lida, com dezenas de pares quebrados por cartas incomuns, por cartas sem motivo, em bordos impensáveis e contra jogadores que você pensava dominar.

O poker te ensina de uma das formas mais viscerais possíveis, que somente prática, obstinação e uma visão mais ampla é que vão te levar além. Ensina que quanto mais você se aprofunda em cada detalhe, mais esse universo se abre, num caminho cada vez maior e significativo. Nesse sentido o poker é base para reflexão, de quem prefere pensar ao invés de deixar a preguiçosa mania de procurar pelo fácil, pelo pronto, pelo simplório tomar conta.

Quando você joga poker entendendo que o principal está na forma de jogar e não no desfecho de cada mão, você está construindo um caminho mais estruturado de aprendizado, está tirando do poker o melhor que ele pode te dar.

Contudo, se apenas conseguirmos olhar para o resultado, para a premiação e para os fins, o jogo sempre será um fim em si mesmo, pois entra na sua mente de um jeito que te força a desistir, num pensamento presente e recorrente, onde o azar fala mais alto. Quanto menos você estuda e percebe o jogo e suas nuances, mais a sorte parece prevalecer. Exatamente assim ocorre quando falamos de poker para quem não conhece, para o amigo interessado, para o conhecido que duvida que haja outra coisa senão sorte num jogo de cartas. É difícil apresentar o jogo para alguém de um jeito que fique claro e fácil de entender, principalmente para aqueles que carregam a pior das impressões, e às vezes nem mesmo querem discutir o assunto. É como ter seus ases quebrados em todas as tentativas de gerar entendimento.

Uma concepção prévia de que o poker leva as pessoas à ruína como algo viciante e descontrolado, só vai bloquear a compreensão do jogo. Quem pôde conferir, há alguns anos a entrevista do Leo Bello no Jô Soares, percebeu como tratar o assunto era incomodo, e como o entrevistador não deixou espaço aberto para discussão, além de reafirmar quase todos aqueles argumentos que estamos cansados de ouvir…

Notando bem dá pra concluir que, pior que considerar o poker como jogo de azar, é considerá-lo como uma atividade destruidora, que consome o indivíduo negativamente. O ponto é que qualquer atividade pode ter esse viés, pois essa característica não está presente no jogo em si, mas nas pessoas. Particularmente, vejo a proibição dos jogos de azar como irônica, visto o volume de grana que circula nas loterias, sem falar das apostas em cavalos, e o jogo do bicho que permanece velado e impregnado na sociedade. Qual seria o motivo assertivo para uma atividade como o poker, que tem uma grande quantidade de estudos e livros sobre o tema, e por essência, um jogo de habilidade, ser proibido ou rechaçado?

Essa situação parece ser cada vez menos recorrente. Há inúmeros sites sobre o assunto, livros publicados aqui, e um crescente contingente de praticantes. O joguinho já se apresenta na grande mídia, embora suas investidas pareçam estar mais centradas em trazer novos praticantes, cada passo desses é comemorado em cada uma das aparições em programas esportivos na TV aberta e fechada, e ainda conta com iniciativas livres como esta do vlogueiro Cauê Moura, que à seu modo, explanou sua percepção sobre o poker e recebeu apoio da comunidade.

A busca por uma prática livre do poker está definitivamente caminhando para um reconhecimento. O mercado do poker não espera enfiar goela abaixo dos outros suas motivações e necessidades, mas espera com esses esforços, que a visão para essa atividade não fique marcada por um entendimento curto, e que a prática não seja vista como algo marginal.

E o que isso tem a ver com o começo do post? Bem, de certo modo, um pensamento fechado na forma com a qual você joga e se relaciona com o poker é como um pensamento fechado para qualquer outro assunto. Chega de colocar a culpa nas cartas, na sorte, no dealer, ou no jeito errado que o parceiro jogou. Pratique e estude, bons jogadores forçam jogadores em aprendizado a jogarem melhor, fazendo-os perceberem a miríade de possibilidades que o jogo tem, e geram novas ondas de jogadores que serão campeões aqui e pelo mundo, que trarão mais conquistas e abrirão espaço para o poker se consolidar no país. É praticando, gerando discussão, prestigiando os eventos e organizando torneios, que vamos incluindo o poker na sociedade.

Afinal, o longo prazo chega, e vejam só, nos brindou com as palavras do ministro Aldo Rebelo, na abertura do BSOP Millions.

 

Vídeo do YouTube: Leo Bello pelo canal Pokerdicas, vídeo do canal Cauê Moura e Abertura do BSOP pelo TV Mebeliska. Foto: M. Naccarato, 5.a Etapa BSOP, julho 2013

Comentários

About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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3 Comments

  1. Alexandre Antunes 03/12/2013 at 17:42 -  Responder

    Essa entrevista do Léo foi dura, pois na época o Jô teve que atuar como “advogado do Diabo” (Globo) e o fez como manda o figurino “Global”….
    kkkkkkkkkkk

    Mas o tempo passou e estamos ai… até com o ministro abrindo o BSOP, aposto até que qualquer dia o Jô aparece no BSOP!

    Parabéns aos pioneiros (LEO / C.K / Federas …) que deram a cara pra bater.

    • Marco Naccarato 04/12/2013 at 15:22 -  Responder

      É Antunes, essa entrevista no Jô foi horrível… o Jô apenas reproduziu a visão da sociedade na época. Agora ver o gordo no BSOP acho pouquíssimo provável ahahah

    • comojogorpoker.com 08/01/2017 at 20:32 -  Responder

      A pior ideia é achar que o poker é um jogo de Azar. E o Jogo do Bicho? Lotericas? Concordo plenamente com essa colocação no texto. Poker é um esporte, o jogo de cartas mais jogado no mundo, o esporte da mente.

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