Las Vegas, junho de 2014

Os dias em Vegas começam tarde, ou melhor, de tarde. Acordar moído, depois das noites em claro passadas nos “Porões de Vegas”, é o usual. Aliás, o termo é do Vitão Marques, no seu post do dia 14, mas cabe muito bem para as salas de poker dos cassinos, afinal não há janelas, não há dia nem noite, só fichas e baralho, o feltro e a parceirada.

No small stakes joga-se poker, mas é outro jogo. Duas mãos dos últimos dias não saem da cabeça. Na primeira, no salão do velho Bally’s, soco ficha depois do limper, tomo tribet de outro camarada, o limper da call, a ação volta pra mim e mando uma four-bet de respeito, com duas damas na mão. Ambos pensam e pagam, flop catrupe 78T sem draws para flush, mando a pamonha, ambos pensam muito, mas dão call. O primeiro mostra AQoff e o segundo AJoff que acerta a broca do river. Será que o AJ sabia o que estava fazendo? Será que eu sei o que estou fazendo?

A segunda mão é daquelas que ninguém acredita, no PLO do Golden Nugget seis jogadores esperam a ação do tiozão no botão, mas o dealer, inexperiente e meio nervoso com o joguinho, abre o turn antes da hora, um oito de espadas. A mesa toda reclama, chamam o floorman que segue orientando o que fazer, queime uma carta e abra o river, espere a ação dos jogadores, volte o oito de espadas para o monte, embaralhe, corte, abra o turn sem queimar carta. Booomm, oito de espadas de novo.

O poker nunca dorme em Vegas, pode não ter uma alma na roleta ou no craps as quatro da mattina, mas sempre há meia dúzia de alucinados nas mesas do joguinho. No small stakes você aprende a escapar de encrenca, mas com muito custo, pois os torneios turbo acabam com sua sanidade, você abre raise com AK e toma oito calls, e assiste uma saraivada de fichas repicando à mesa antes mesmo de pensar o que fazer num bordo que não conectou nada com seu jogo. E isso vai acontecer incontáveis vezes, os blinds te espremem, as fichas são curtas, a cerveja demora as vezes, a parceirada fala demais, e o espertão do seu lado, aquele que pagou a broca e acertou, prefere peidar ali mesmo. Contudo, você aprende. E dá pra ganhar, pra tirar um pouco do ferro.

A dinâmica é sempre muito parecida, mas o cenário sempre muda. O Bill’s, berço da baralhagem, virou The Cromwell, que cheira à carro novo, mas parece um belo caixão decorado, num funeral que vai do brega ao luxuoso, sem poker room, sem bagunça, só estética. Construíram uma roda gigante monstruosa no final da rua, mas pra isso, construíram uma rua também, cheia de lojas e gente circulando. O Caesars, que tinha uma das melhores poker rooms de Vegas, deixou de fazer sua série de poker e montou uma nova sala, bem menor, bem decorada, mas longe de ser o que já foi um dia.

Os jogos da Copa do Mundo passam em todos os cassinos, felizmente, e colombianos, ingleses, alemães, holandeses e brasileiros desfilam as camisas de suas seleções após os jogos. Qualquer vendedor que descobrir que você é brasileiro vai te perguntar o que você faz aqui com a Copa rolando no seu país, e você responde, é o poker, é o joguinho, que começa depois do meio-dia nos porões que vão de Downtown até as duas pontas da Strip.

Link: Blog do Vitão, Superpoker

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Publicado por

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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