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Filmes e poker, desde O Poderoso Chefão até Runner Runner

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Mafiosos não jogam poker em O Poderoso Chefão, eles compram cassinos. A caixa de 100 fichas de poker personalizadas que vinha junto do box de DVDs da trilogia é uma ligação aparente, talvez apenas pela livre associação do jogo com o crime, talvez apenas herança estética.

Mesmo que Godfather tenha algo a nos dizer sobre o jogo, é melhor começarmos pelos dias atuais. Depois de assistir a superficial trama de Runner Runner, com uma garota sem sal, um mocinho apático e nem tão mocinho, e um vilão sem substância cheirando a bad beat, a impressão é que a tentativa de falar de poker, ou mesmo de desenvolver a narrativa, não passou da superfície. O filme é pífio. Seja pela construção medíocre dos personagens, qualidade dos diálogos e seu final previsível. O filme trata o poker apenas como cenário, usando essencialmente a estética ligada ao jogo, aliás é apenas estética, no sentido mais superficial que o termo possa carregar.

Não há muito o que dizer, resta apenas uma insinuação em mistificar o poker online como algo que pode (e vai) ser fraudado. No início da estória, a citação de Meyer Lansky é direta, ou seja, mesmo um mafioso do seu naipe (que financiou a empreitada criminosa em Las Vegas nos anos 1930), se preocupava em deixar o jogo honesto em seu cassino, sem dados catrupiados ou roleta viciada, sem usar subterfúgios para obter ainda mais vantagem além da própria vantagem que a casa já possui no jogo. Falar de poker atacando o poker online parece contraditório, mas só parece. Sheldon Adelson, dono do cassino Venetian, que curiosamente levantou uma bandeira contra o jogo online que o diga.

É como uma nostalgia pelo “crime romantizado” de um Don Corleone, que explorava prostituição e jogo, mas não sujava as mãos com as drogas, como se obedecesse uma moral há muito esquecida. A mesma situação apresentada na cena final de O Poderoso Chefão se repete. Michael Corleone é confrontado por sua esposa, que pergunta se ele já matou alguém, fato negado veementemente. No fundo ela não quer saber a verdade, mas se contenta com a resposta mentirosa por força da mesma conveniência que retira de suas costas o peso enorme de lidar com a situação de fato, afinal, se você disse, então acredito.

Esta suposta “conveniência” é a escolha de muitos que jogam poker. É similar a busca de Maverick por um golpe de sorte com seu Ás de espadas profético (o herói do filme Maverick, de 1994, é salvo por um out na última carta). É a inocência de quem espera pela sorte, de quem prefere culpar alguém pela derrapada, assim como fazemos quando perdemos um belo pote.

Talvez a falta de uma inocência proposital seja a chave do sucesso entre os jogadores do filme Cartas na Mesa (Rounders, de 1998), que mostra essas relações com a dureza de uma vida de grind, ainda que seja de uma forma idealizada. Mike McDermott faz o que precisa ser feito, e oscila entre jogadas -EV na vida, e +EV no poker. Ele perde a namorada, perde no jogo, perde o amigo, mas lida com a verdade encarando-a de frente.

Estar atento ao jogo é primordial, procurar decifrá-lo e entendê-lo, ainda mais. É sempre mais fácil culpar alguém, culpar a jogada e a sorte, e não lidar com a verdade dos fatos. No caso de Runner Runner, é mais fácil culpar a fraude.

Foto: Shutterstock (editada)

Comentários

About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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2 Comments

  1. alexandre antunes 03/02/2014 at 16:58 -  Responder

    Eu acrescentaria também o filme “Mesa do Diabo” (The Cincinnati Kid – 1965) onde o nosso herói (Steve McQueen) acaba vencido pelo excesso de confiança…

  2. pilo 20/01/2014 at 14:08 -  Responder

    Esqueceu de citar aquela belezura do “Bem Vindo ao jogo”, com o Eric Bana

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