Entre as últimas streets

Era tarde, madrugada longa no pano sob um silêncio confortável entre os jogadores à mesa, onde dava para se ouvir o barulho das cartas a cada flop. No entanto, para ele, o poker já era desconfortável, já não valia a pena. Ele não estava mais pelo jogo, não havia nada que provocasse nele qualquer tipo de sentimento ou pensamento mais elaborado. Todo o lado negativo da rotina era o todo que somente ele percebia.

Ele dividia os jogadores em três tipos, os que não percebem o quanto o poker ficou técnico, e por isso se divertem; os que percebem e por isso mesmo acham fascinante; e os desiludidos, com os quais ele mais se identificava. Tal desilusão o afastava, já há algum tempo, de qualquer propósito maior, fazendo com que uma melancolia interna vencesse sua vontade. Foi aos poucos, e como num conta gotas, encheu.

Era tarde, a vida estava chata, achatada, sem perspectivas, e o jogo havia se tornado obrigação, e em seu sentido estéril havia se tornado sem sentido. A vida é um jogo, dizem, e para ele, o jogo era, apesar de tudo, a vida que lhe restava.

Quando o bordo todo em preto mostrava no turn dois ases e dois oitos assentados no pano rubro, ele enfim percebeu, ele sabia o que estava acontecendo, sabia o porquê. Era a vida que lhe restava, mas era tarde. E no mais profundo silêncio, sem ao menos o barulho do baralho, ele ficou imóvel de repente, sentado, segurando um ás, vermelho sangue, a primeira e última carta do baralho, a derradeira do bordo que não teve fim. Os jogadores demoraram um pouco a perceber, o river levou um tempo maior que o normal, só por isso notaram o dealer, que morreu em silêncio, entre as últimas streets, sem bater a última carta.

Pra ele, um dealer cansado de gastar as mãos no feltro, aquela mão nunca terminou, foi o jogo que o libertou do martírio de estar tão perto do jogo e não jogar.

 

Imagem: Shutterstock (editada)

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