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Competição, show ou ambos?

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José Aldo vai para cerimônia de pesagem do UFC 194, encara o rival falastrão McGregor, imita-o, rela a mão esquerda de leve no irlandês, reproduzindo a pose característica do adversário no momento de ficarem frente à frente. Pesagem, entrevistas, declarações, notícias, polêmicas, pequenas doses, ou chamados teasers, que colaboram intencionalmente para promoção do show.

Akkari vai para mesa final da segunda temporada do show da PokerstarsTV denominado SharkCage. Dentre os adversários estão os tubarões Negreanu, Ivey, Esfandiari e Maria Ho, integrantes do programa de televisão que prende um participante dentro de uma jaula simulada se ele for pego blefando ou se largar a melhor mão no river, amargando a punição de uma órbita. Tudo é cronometrado para aumentar ainda mais a pressão, e grandes nomes como Ronaldo são convidados a participar. Tudo colabora intencionalmente para a promoção do show.

Na luta, Aldo é alvejado por um golpe certeiro de McGregor e em 13 segundos está na lona. Na FT, Akkari faz uma jogada no início do programa contra Esfandiari, fichas no pano e é eliminado aos 10 minutos. A turba urge tacando pedra e procurando na técnica justificativas para o desempenho, afinal o resultado não agradou, ou será que o resultado é o motivador de tanto empenho na crítica? Tecnicamente há uma forma melhor, dizem, mas a discussão surgiu somente pelo resultado e quem pautou qualquer análise, qualquer impulso de discussão, foi o show, aquele que não se vive mais sem.

Tais situações permitem um bom spot para se fazer uma aposta: Se o resultado é a medida do nosso olhar, é porque nos acostumamos demais com o jeito de show que tudo parece ter hoje em dia. Reunir resultado e show parece um imperativo, a disputa culinária na TV, com música de suspense quando o participante engole seco o nervosismo na entrega do prato ao jurado e é eliminado, ou o confinamento de algumas pessoas numa casa a fim de ganhar um prêmio, são bem aceitas simulações da realidade, porque afinal não se pode tolerar um lutador perder a luta ainda que possível, um jogador errar a jogada ainda que possível, a Fórmula-1 sem um ídolo ainda que possível, pois isso é real demais, é demasiado chato. Tempos onde a competição por si só deixou de ser atrativa, é preciso que se transforme em show.

A criação de The Cube, da Global Poker League, noticiada em outubro, é a mais nova esperança de vermos o jogo como esporte, de maneira a transformar o poker em mais um show aos moldes das competições de videogames. Ou como disse Alexander Dreyfus, CEO da GPL, ao Pokernews: “We need to create a poker product that focuses on the fans, not only on the players. We need to create poker fans and keep them engaged” (Algo como: Nós precisamos criar um produto poker focado nos fãs. Precisamos criar fãs de poker e mantê-los engajados). O produto afinal é o próprio show, ávido por consumidores. Dreyfus parece estar certo disso, mas e cada um de nós?

Não há dúvida de que o show tem que continuar para um bando de futuros consumidores, e para aqueles que já entendem a competição como show. Ou não.

 

Imagem: Leszek Glasner/Shutterstock.com (editada).

About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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