A propaganda do milhão de dólares no Spin&Go do Pokerstars e na WSOP

0081aO Spin&Go do Pokerstars entregou três prêmios de 1 milhão de dólares em janeiro deste ano. O Spin&Go é um SNG hyper-turbo de três jogadores, que tem seu prizepool definido logo no início da partida através de uma espécie de sorteio (o tal spin), que paga ao campeão, de duas até 3 mil vezes o valor do buy-in investido. Os jackpots milionários são exceções, e foram lançados no final do ano de 2014 como parte do Pokerstars December Festival, e estendidos para o mês seguinte em função de ninguém ter acertado o milhão de dólares.

Segundo reportagem do Cartas na Mesa, as chances de um prêmio milionário ocorrer são de três a cada 10 milhões de spins, mas três deles aconteceram num curto espaço de tempo, contrariando as estatísticas, o que seria uma aparente bad beat para o site.

O Spin&Go ganhou popularidade apesar das reclamações de alguns jogadores regulares, que defendiam que a nova modalidade retiraria dos fields tradicionais os jogadores recreativos, que supostamente prefeririam disputar torneios rápidos com chances maiores de prêmio como os Spin&Go’s, ao invés dos usuais SNGs, MTTs e cash games. A nova modalidade talvez seja fruto da aquisição pela Amaya, e dos questionários disponibilizados por pelo menos duas vezes aos usuários do Full Tilt e do PS nos últimos anos. Dá pra apostar que, como resultado das pesquisas, o jogador recreativo não é somente a maioria do universo de usuários, mas o mais importante.

Mas, o que aparenta ser uma bad beat para o PS, não é uma falha inesperada senão a melhor propaganda possível para divulgar o jogo, e o apelo do milhão de dólares, e não a facilidade em ganhá-lo, também contaminou o principal torneio do mundo, a World Series of Poker, que em 27 de janeiro anunciou a remodelada distribuição dos payouts do main event deste ano, que inclui uma faixa maior de jogadores premiados (os mil melhores colocados já entram na grana), e um salto substancial de 450 mil dólares de diferença entre o décimo e o nono colocado. Desta forma, qualquer um dos próximos November Niners se tornará milionário assim que a bolha da mesa final estourar. O que é mais propaganda do que realidade, afinal, os impostos são responsáveis por uma fatiada das boas na premiação dos primeiros eliminados da FT.

Pokerstars e WSOP sabem da importância do milhão em suas divulgações, bad beat mesmo seria a casa não ganhar, uma condição improvável. Curioso é perceber que na tentativa de atrair mais praticantes para o poker, um jogo de habilidade, seja preciso lançar mão de um apelo, a possibilidade da sorte grande: “o sonho de mudar de vida através de um prêmio milionário“, como disse Seth Palansky, redator-chefe do site da World Series.

 

Fontes: Spin&Go PokerstarsCartas na Mesa e WSOP.com. Imagem: Shutterstock

Chegamos ao river de 2014

Pouco antes do dealer bater a última carta do bordo de 2014, tivemos o maior BSOP Millions até então, com uma histórica premiação para o poker brasileiro. Tivemos também as palestras organizadas por Gabriel Goffi em seu Congresso Brasileiro de Poker, e as liberadas posteriormente em vídeo do MasterMinds, em sua maioria ótimas, numa iniciativa das boas.

Ao final da rodada de apostas do turn, Foster e seu feito inédito, um de nós no November Nine. Fato comentado por Pedro Marte (Mais um 7 a 1, agora no poker) e Marcos Cerqueira (Bruno Foster já ganhou e Verde, amarelo, azul e branco, e aí?).

Pouco antes do dealer bater o turn, dividíamos nossas atenções para duas Copas do Mundo, a de futebol, e claro, a WSOP, que foi palco da maior polêmica do ano, o jovem Colman disparou contra a indústria, tema largamente discutido por Lízia Trevisan (O saldo da WSOP 2014), Marcos Cerqueira (Os vulcões da demagogia) e Marco Naccarato (Para Daniel Colman, ganhador do torneio milionário One Drop, vencer foi a gota d’água e Considerações sobre a polêmica de Colman no One Drop). E como a cidade vira o centro do poker no mundo nessa época, não é demais dar uma conferida nos Porões de Las Vegas, no blog do Vitão (Las Vegas chamando: Porões de Las Vegas), e aqui no Metapoker (Las Vegas, junho de 2014).

O flop de 2014 foi surpreendente, com Igianne Bertoldi cravando o Main Event da Brazilian Series of Poker, fato comentado por Naccarato em O par de damas que quebrou qualquer estatística. Conquista que veio quebrar alguns paradigmas da presença feminina nos feltros, como comentado por Lízia Trevisan (Credibilidade e competitividade das mulheres no poker e Poker, mulher e preconceito), Mercedes Henriques (Mulher sim. Jogadora de poker sim. Vulgar nunca) e por Naccarato (Por uma perspectiva feminina no poker).

Por fim, bom mesmo é saber que nos sites e fóruns, nas discussões e reflexões, no quintal, na poker room do bairro, no clube famoso ou nos torneios que atraem centenas, o poker continua apesar dos anos. Nova rodada, blinds are up!

 

Fontes citadas: Superpoker, Congresso Brasileiro de Poker, 888 Poker

O que há entre o bracelete e Bruno Foster

Bracelete do ME, confeccionado pela Jason of Beverly Hills
Bracelete do Main Event 2014, que foi confeccionado pela Jason of Beverly Hills

Fostera teve em suas mãos o troféu da disputa, antes de todos, antes da final, conforme reportagem do Super Poker, todos os jogadores tiveram oportunidade de ver de perto o bracelete, mas ele foi o primeiro. Os últimos serão os primeiros? Não sabemos. Ele é o short stack, nono em fichas entre nove finalistas, no mês de novembro, que já foi o nono mês do ano pelo antigo calendário romano. E o que tudo isso quer dizer? Nada, em absoluto.

Se para o resto do mundo do poker ele é o azarão, aqui ele é favorito. Disseram que se ele vencer, será um ótimo “embaixador“ do poker, aqui ele já se tornou automaticamente.

Tem algo que a quantidade de fichas, as estatísticas e os prognósticos não dizem, e nunca vão dizer, é a tal força vital, não a fé e nem a esperança, mas a energia que ele carrega consigo, somada a energia que toda a turma de brasileiros que vão acompanhá-lo na final estão levando.

Quando Foster diz “Sinto que será meu“, após ter o bracelete em mãos, sua fala é emblemática, pois esse é seu trunfo, afinal, sentir é o que fundamenta a sua confiança no November Nine.

#VamoFostera, faça seu melhor, não aquilo que os outros esperam, mas o que você sente.

 

Fonte: Site Super Poker. Imagem: Jason of Beverly Hills – Bracelete do ME da WSOP 2014 

Um espasmo patético

Um dia alguém que passou a vida toda defendendo alguma coisa que lhe foi imposta, mas que ele não sabe, e por isso mesmo defende, vai fazer um vídeo patético na cozinha patética de sua casa, com um terno patético de bom gosto americano, com as palavras mais senso comum possíveis, repetindo afirmações patéticas, de forma patética.

Só haveria algum tipo de salvação se em algum momento fosse possível renegar ao olhar patético em troca de um olhar para o real, que consegue entender um discurso sem levar em consideração os milhões, as posses, as aparências, o status.

O que é de fato patético, ou seja, que pede piedade, é perceber o quanto o poker carece de opinião e reflexão.

Verde, amarelo, azul e branco. E aí?

Bruno Foster (Imagem da página pessoal no facebook)
Bruno Foster (Imagem da pg. pessoal no facebook)

Cearense simpático, fala mansa, politicamente correto em suas declarações e bom jogador de pôquer. Esse é o perfil do primeiro brasileiro que participará da mesa final do maior e mais cobiçado torneio de pôquer do mundo.

Trata-se de uma façanha memorável. Aliado a isso, coexiste a real possibilidade do representante brasileiro vencer o torneio. Fato este que, não só acredito, como torço para que se concretize. Agora, independentemente do desfecho da mesa final que ocorrerá em novembro na cidade de Las Vegas, o garoto bochechudo já entrou para história do pôquer mundial. Parabéns!

Para não fugir da minha característica, vou tocar em um assunto, digamos, um pouco polêmico. Vamos lá! Certamente, se você acompanha as notícias do mundo do pôquer, já sabia de tudo que leu até agora. Mas, se você não faz parte do cotidiano do pôquer, deve estar se perguntando porque ainda não tinha conhecimento dessa enorme façanha alcançada por esse tal de Fostera.

Sabe por quê? Porque a imprensa brasileira caga para o pôquer. Mais do que isso, a imprensa brasileira boicota e menospreza todos aqueles que usam rotineiramente ou eventualmente as mãos para segurar fichas, cartas ou mouses. Saibam os senhores menos informados, que a sociedade brasileira nutre grande preconceito com relação aos praticantes do “joguinho”. Será então que o heroico Bruno Foster deve enrolar em seu corpo a bandeira de um país que não reconhece o seu valor?

Independentemente da decisão a ser tomada, coloque sobre as suas costas uma bandeira invisível com as cores da sua família, dos seus amigos, dos brasileiros que torcem por você incondicionalmente, que reconhecem e exaltam a sua legítima conquista. Não sei se valeria a pena cobrir suas costas com as cores do descaso. Se assim fizesse, estaria representando um país que não reconhece o seu valor.

Represente quem tem orgulho de ser representado por você. Vamooooo!

As camisetas de Busquet e Colman no EPT Barcelona

Em 2011 estive nos salões do Rio Casino para disputar um dos eventos da WSOP. Foi a primeira vez que vi garotos de vinte e poucos anos, com roupas casuais e de chinelos, e que acordavam no final da manhã fazerem do poker seu modo de vida, sua profissão. Foi uma imagem libertadora.

No poker você se depara com tipos diversos de pessoas, que movidas pelo jogo, se esforçam em respeitar as diferenças, ou pelo menos entendem que é preciso fazer isso, pois pegar bronca do cara ao lado só vai estragar seu desempenho. São pessoas diferentes, visões diferentes de mundo, opiniões diferentes. Uma pena que um ambiente como este, que exercita a tolerância e é tão propício para o entendimento e a reflexão, seja somente norteado pelo interesse comercial.

Poker é um mercado que cria herois, e justamente pelo mesmo motivo, anti-herois. Os herois têm bastante certeza de suas opiniões, promovem o jogo, e entendem que a autopromoção é um valor a não ser desperdiçado. Anti-herois, bem, esses você conhece, são os vilões do mundo do certo e do errado, que dessa vez estavam em uma das mesas finais do EPT Barcelona.

Olivier Busquet, campeão do Super High Roller, e seu adversário no heads-up Daniel Colman, vestiam camisetas com os dizeres Save Gaza e Free Palestine (respectivamente), evidentemente tomando suas posições sobre o conflito Israel/Palestina, que há décadas assola a região. Ao menos, até mesmo aos desavisados, as mensagens estampadas poderiam gerar algum tipo de curiosidade, ou chamar a atenção para o assunto, afim de gerar mais compreensão e menos julgamento, mas o fato é que a situação gerou desconforto (confira aqui, na reportagem do PokerDoc).

Após a repercussão negativa do ocorrido, o Pokerstars se arrependeu publicamente de ter permitido os trajes com as mensagens. Perdeu também a oportunidade de reafirmar a tal liberdade de expressão, mas é claro que a maior empresa de poker online do mundo vai querer se distanciar desse tipo de assunto, não? Além do que, o senso comum defende que o Pokerstars tem direito de vetar manifestações “políticas“ em seus torneios.

E tem, mas não é exatamente um direito, é somente uma escolha. Parece que é melhor para o poker jogadores sem muita opinião, então, aproveite enquanto é possível andar de chinelos nos salões dos torneios.

 

Fontes: Pokerfuse e PokerDoc

Poker marginal adjetivado

Filando as cartas, dama e lixo, diferentes naipes, posição ruim, fold forçado, duas da mattina, feltro gasto, baralho marcado, dealer uma dama cansada, ficha empilhada, sono deixado, café ao lado, cigarro acabado, sorte azarada, piada velha, falinha safada, nova rodada.

Olhando as cartas, dois e dez e mais nada, ao menos naipada, posição que nada, raise forçado, duas e dez, feltro arranhado no bet inesperado, bordo catrupiado, ficha espalhada, agora acordado, café derramado, mas falta cigarro, na boa jogada, pote puxado na blefada.

Mão começada, ás e rei de espada, na mente há boa jogada, já é madrugada, feltro marcado pela cinza jogada do cigarro filado, dealer trocado, ficha escapada, falinha arranhada, nem parece piada, mas a carta derrubada, é dama pareada, mata a jogada logo na entrada.

A cada rodada, a rotina do novo e a parceirada.

Todas as vezes, à mesa, o nada faz sentido

Dentro de uma perspectiva de que é preciso ganhar, a mutação é a ordem que rege o jogo, faz-se o que é imaginável para tanto. O ganhar é o sentido do jogo, o que lhe confere significado. O jogo, algo sem função num primeiro momento, é como se fosse o desprendimento da vida real, ainda que se possa questionar o real, mas ele, o jogo, é uma vazão carregada de significado.

Mas tantos são os sentimentos envoltos no ato de jogar, há tanto para se considerar e aproveitar, que o jogo por si, em sua essência, é motivo único e sagrado de engajamento, condição escolhida e vivenciada pelo jogador, quase que como uma espécie de redenção, um porto seguro não seguro.

Só se encontra o jogo enquanto se está nele, a sé dos degenerados, o escape e o motivo do escape, a opção voluntária de quem prefere o lúdico à todo o restante.

No poker, este espaço condizente condiz, afinal, é jogo.