Boitatá, o halloween do poker

Boitatá é a cobra de fogo que assusta o sertanejo, mito que faz parte do folclore brasileiro, junção dos termos indígenas mboi (cobra) e tata (fogo). Há relação direta entre a lenda e o ambiente, e de algum jeito uma explicação fantástica para o fato que era desconhecido dos camponeses: as queimadas espontâneas que ocorriam nas matas em função dos gases vindos da decomposição de material orgânico.

Na lenda do boitatá, quem tenta queimar a mata pode sair queimado pela cobra, que assombra as pessoas para proteger a floresta. Mais ou menos como no poker, fulano dá aquele call duvidoso com bottom pair, acerta o segundo par no turn e te toma boa parte do stack ao final do river. Ficou queimado? Imagine quando, depois de uma troca de raises e reraises pré-flop, o adversário vai de check-call depois que você manda tudo com KK no flop que trouxe um Ás e duas bananas? O vilão ainda pensa um pouquinho, faz cena e mostra A2off, só pra você lembrar como é ficar queimado.

Queimado pelo bordo boitatá, você se anima pra pegar o parceiro, dando aquele call de 93off “pra acertar”. É quando as bruxas aparecem, nessa dinâmica pra ver quem pega quem, bordos constroem situações onde jogadores queimados vão encontrar o limite de suas realidades, até o ponto de esquecê-las, ou melhor, substitui-las. No online dá pra por a culpa no algoritmo do site, mas ao vivo é o dealer mão de pântano que paga o pato. Poker, por vezes, é uma fauna de halloween, boitatás, bruxas e mãos de pântano, cada qual com seu papel fantástico de explicar o jogo, pois não há nada mais confortante do que acreditar que foi azar, que foram as bruxas.

Contudo, podemos substituir essa ilusão fantástica por algo mais moderno como um sistema? Bem, teríamos que acreditar que há uma espécie de forma de controlar o jogo, onde conseguiríamos traduzir sua dinâmica, algo que conseguisse não nos deixar queimados, que resolvesse confronto e interação através de uma fórmula. É, parece que do mesmo modo não há nada mais confortante do que acreditar que não foi azar, que não foram as bruxas.

O que nos resta? Bem-vindo ao pesadelo do real.

 

Imagem: Antracit/Shutterstock.com (editada)

Solverde Poker Season 2015

Neste ano de 2015, depois de fase conturbada, resolvi visitar a Europa pela primeira vez em 41 anos de vida. E aliado à minha vontade de viajar e sair da rotina, tentei montar um calendário com algum torneio de poker para jogar, pela primeira vez, um torneio internacional de alto nível, embora eu já tenha jogado alguns torneios em Vegas, os pequenos e acelerados regulares dos cassinos de lá.

Bom, a princípio, eu iria passar a maior parte da minha viagem em Vilamoura, região do Algarve e durante as minhas pesquisas encontrei o PokerStars Solverde Poker Season. Nessa grade regular de torneios em Portugal haveria um, com um bom valor de buy in e uma estrutura bacana bem próximo de onde eu estaria. Resolvi as minhas datas da viagem para estar livre nos dias da etapa Classic, no Cassino Algarve, na Praia da Rocha (€110 + uma recompra). O PokerStars Solverde Poker Season é o mais antigo circuito de torneios live em Portugal. São 12 etapas com um Main Event de €750, etapas regulares de €250, as novas etapas Classic de buy in €110 (da qual participei de uma), e ainda quatro Special Events de €300.

Consegui as informações básicas no site pokernews.pt – depois, enviei um email para o Bloco da Barra (Bruno), que me respondeu prontamente. Muito atencioso, me passou todos os detalhes de como seria a estrutura, horários, como me inscrever e tal. Fiz um depósito na conta e minha inscrição via site do Solverde. Uma dica, pagar a partir do Brasil foi importante para não perder a inscrição, mas o torneio não atingiu o cap de 220 participantes. Muitas pessoas se inscreveram na hora que o cassino abriu, acredito que se você não tem certeza se vai participar, possa ter tranquilidade para inscrever-se na hora mesmo. Mas é bom consultar o Bruno dependendo da etapa que você quer participar, que pode ser mais concorrida.

Mas vamos ao jogo. Sentei à mesa e comecei a bater papo, saber de onde eram, essas coisas. Começamos com 25 – 50, um stack de 20.000 fichas e blinds de 30 minutos (bem confortável, deep, suficiente para uma boa jogabilidade). Da esquerda para a direita, um rapaz de uns 19 anos, na canhota dele um tiozão falastrão, seguido um português sério, um outro rapaz que parecia o Johnny Bravo. Ao lado dele, um cara alto, que conhecia todos os dealers, parecia bem regular na série, ao lado dele um estereotipado jogador (com camiseta do PS, fone grande, óculos escuros, bonezinho 888.. Todo paramentado), e mais uns que pouco conversei. De cara, já deu pra perceber que o field era formado de pessoas experientes na sua maioria e com tempo no pano. Não parecia em nada com os turistas de Vegas, nem com os conhecidos baralhões dos clubes brasileiros… Era poker sério e justo. Não vi exageros à mesa, mas claro, tinha sua cota justa de jogadores bem ruins.

Fichas do Solverde Poker Season
Fichas do Solverde Poker Season

Já na terceira mão, fiz uma enorme cagada. Eu com A9 off, abri 2,5BBs de MP e levei um call do BB e do regular ao lado dele. Flop, Axx. A mesa chega em gap pra mim, que faço tudo… 10.050!! Shit… dei um missclick ao vivo. As fichas de 100 e 10.000 eram respectivamente, pretas e roxas escuras. Naquela ansiedade inicial, com 400 no pote, minha intenção era apostar os 150 e acabei apostando 201 big blinds… O jogador no BB me alertou, mas não havia mais o que fazer. As fichas estavam na mesa, e torci para que não tivessem acertado o flop maior que o meu. O grandão chorou para largar o Ás dele me contando que também tinha o A, mas com kicker menor.

Bom, depois dessa besteira, passei a prestar mais atenção e fui subindo o stack. Perdi uma mão para o “paramentado” e assisti o tiozão perder um monte de fichas pra todo mundo (incluindo pra mim) quando ele buscava flushes e brocas. Dei bons reraises em horas certas, larguei quando tinha que largar, vi o Johnny “extra tight” Bravo cair com AK e ganhei uma boa mão do cara serião à minha frente. Ele abriu um raise em MP, eu completei do small e o rapaz à minha esquerda, no BB, foldou. Ele teve que fazer um rebuy depois que eu tomei tudo dele com uma trinca de 4 no flop com Ás pareado. Em seguida, depois de uma discussão do “super jogador paramentado” com o tiozão perturbando todo mundo, sacamos ele da mesa (todos nós tomamos as fichas e o rebuy dele ainda) e assim, entramos no intervalo bem na troca de mesas. Fui para a outra mesa, depositei minhas fichas no meu lugar e saí para fumar com um stack bem sadio. Nessa hora, conversei bastante com o cara que perdeu tudo pra mim, ele elogiou a jogada e defendeu a dele (par de Ás).

Assim que me sentei, observei por um tempo os jogadores e as jogadas. Perdi uma órbita fazendo isso, incluindo largar um AJ do small. Havia um português na minha direita que veio short da mesa anterior, ao lado direito dele um beef (Inglês), uma mulher toda desajeitada com o cabelo desgrenhado, mas que falava inglês impecável e também conhecia os dealers, à minha esquerda mais um portuga short da outra mesa, à esquerda dele um outro muito chato. Se achando o Phill Hellmuth, enchia a paciência de todo mundo. Ganhei o respeito dele na primeira mão que me envolvi, do BB, com 47 de espadas. Após um raiser inicial, que recebeu quatro calls, incluindo o beef, eu completei do botão. Meu sonho cresceu quando todos deram check no flop com um 4, e meu 7 bater no turn. O beef veio roubar a parada com uma over e eu só paguei. River blank, check dos dois… Eu abro as cartas e ele dá muck resmungando.

Bom, após essa mão, ele me perseguiu por um tempo, até que eu perdi pra ele umas fichas… Ok, ainda rondando os 25 BBs, me sentindo tranquilo de estar jogando um bom poker, chegamos na última mão antes do intervalo do jantar. Eu e a desgrenhada. Eu no BB e ela no botão. Chega em gap, ela com 17BBs aproximadamente, chumba all in. Com os antes e o small, tinha praticamente, 20BBs na mesa. Eu abro as cartas e vejo – AJoff. Ô decisão difícil… Após pensar por um minuto, só vi uma coisa na cabeça dela… Intervalo, gap, vou chumbar com overs e ver todos foldarem e eu vou pro intervalo melhor que antes. Ok, call… Ela apresenta JQ e eu levo a parada sem surpresa, eliminando a moça que fica tentando justificar a jogada.

Na volta do jantar, o torneio deu umas rasteiras em mim e perdi um flip com par de Ronaldos. Aí, berei os 15BBs por um bom tempo, até mudar de mesa e começar a pensar se realmente eu queria passar para o segundo dia com um stack curto. Abro do cut off com JJ depois da mesa rodar em gap. Isso representava nesse momento uma aposta de 5.000 fichas nos blinds 1.000 – 2.000, e tomo uma volta de 15.000 do botão. A mesa gira em fold e eu penso por muito, muito tempo. Foldo aberto o JJ e o portuga elogia, conversa e mostra o QQ. Coisas do poker.

Pra encerrar a minha participação, abri com J2s pra tentar roubar blinds do botão e o mesmo português dá call, assim como o BB. No flop, fico flush draw e chumbo tudo, tomando instacall do portuga com QK também de espadas e, sem surpresas, ele me derruba com K high. Em muitas mãos aprendi coisas novas, visualizei erros passados, vi acertos e erros dos jogadores, mas sempre com muita atenção à real experiência, e isso tudo, valeu por cada minuto das nove horas que passei no cassino jogando esse torneio. Foi realmente muito bom.

Quem quiser se aventurar num torneio dessa série, recomendo muito. E aproveitem a boa disposição da rapaziada do pokernews.pt que são muito atenciosos. Encontrei o Bruno por lá, fazendo a cobertura do torneio e conseguimos bater um papo. Parabéns cara!

 

Fotos: Thiago Fabrette, Evento Classic do Solverde Poker Open

Simulação

Abre o pote no começo da mesa depois de permanecer órbitas sem participar na brincadeira. É torneio, sabe como é, dá pra esperar, a espera vira falta de ação, e a ação se torna necessária. Até que não dá mais pra esperar, trazer o torneio de volta ou voltar amanhã? Mas as cartas não ajudam, e você decide se ajudar, esquece posição, stack, cálculo M e os caralhos, mete ficha, manda dois BBs e um cabelo, pra mostrar força, pra tirar a zica. É claro, leva 3-bet, 4-bet, e vê o cara no small blind dar flat call. Azedou.

Tira foto da pilha, posta, tira mais uma, afinal a primeira não ficou boa, rearranja a pilha, estica o braço atrapalhando o parceiro pra tirar aquele autorretrato “sou foda no feltro”. Tem que fazer bico ou cara de mal, tem que simular desenvoltura, simular. Agora é entrar nas mídias sociais, mandar um texto de efeito, pedir ajuda remota, colocar um joinha e qualquer frase positiva “poker é”.

Simulação é a base do poker, tudo o que é impulso deve ser contido e convertido em lucro. Deve? Mas o espertalhão abriu mais uma vez depois de cinco seguidas e é hora de dar um basta, a honra arranhada que nos leva a colocar o sujeito em seu devido lugar. Há lugar devido? Pra ajudar, outro patife dá fold, mas decide avisar pra toda mesa que é a porra da sexta vez seguida que o cara abre o pote. Dizemos obrigado pra não dizer cala a boca.

Sobrou algum tipo de prazer, o alívio passageiro que parece infinito na duração, o blefe quando passa. Dizem, é preciso contar uma história daquelas que façam sentido. Que sentido? O sentido perdido entre agir porque é preciso, sendo que sempre é preciso. Entre criar uma imagem ou perceber a dos outros. Entre jogar honra ou fichas. Talvez o sentido seja singular, e passe por tudo isso de modo único em cada jogador.

Não é mais apenas um jogo, perde-se como sempre, a paciência, uma foto, a técnica. Ou é só um jogo alçado ao ultrarrealismo, mas quem sabe um dia haja energia suficiente para imaginar o real.

 

Imagem: rangizzz/Shutterstock.com

Gênesis do poker

Capítulo I: 1. No princípio criou-se o jogo e o baralho. 2. A mesa oval de poker estava vazia, e o silêncio se movia sobre a face do feltro. 3. E decidiram iluminar a mesa, e houve luz. 4. E como a luz era boa, decidiram jogar. 5. E jogadores trocaram o dia pela noite, fim do primeiro dia.

6. E então separaram todos os tipos de jogos, e para cada tipo de poker criaram uma modalidade. 7. E criaram as fichas para substituir o dinheiro, e assim foi. 8. E denominaram as fichas por cor e valor, fim do segundo dia.

9. E foi dito: Ajuntem-se os cash games num lugar, e em separado criem os torneios, e assim foi. 10. E separaram cash de torneio, e todos viram que era bom. 11. E disseram: Para cada período de tempo, blinds maiores, tanto para small blind quanto para big blind, e assim se foi. 12. E nos torneios, muitos jogadores podiam disputar um prêmio bom. 13. E a cada torneio, um campeão, fim do terceiro dia.

14. E foi dito: Haja expansão dos torneios, para haver séries de poker. 15. E para cada série, um campeão. 16. E foram criadas as grandes séries, e as pequenas, e para cada torneio, um satélite. 17. E os satélites davam vagas para o evento principal. 18. E muitos jogadores se classificaram, e viram que os satélites eram bons. 19. E os torneios se consolidaram, fim do quarto dia.

20. E foi dito: Produzam transmissões em vídeo de todos os torneios, e coloquem câmeras voando sobre os feltros. 21. E foi criada a feature table, e todos assistiam e torciam, e a mídia viu que era bom. 22. E todos gostaram, e as séries se multiplicavam sobre a Terra. 23. E os torneios lotaram, fim do quinto dia.

24. E foi dito: Produzam teorias conforme cada estilo de jogo, e assim foi. 25. E cada um jogava conforme seu estilo. 26. E os jogadores entenderam o conceito de imagem. 27. E criaram a classificação dos jogadores conforme sua imagem. 28. E os melhores jogadores dominaram a matemática e a psicologia para ganhar dos fishes e dos pouco experientes. 29. Eis que para cada jogada criou-se um método, e para cada aposta uma estratégia. 30. E todo jogador de poker, seja agressivo, tight ou blefador, pôde estudar o jogo e obter conhecimento, e assim foi. 31. E viram os jogadores o que tinham feito, e eis que era muito bom, fim do sexto dia.

Capítulo II: 1. Assim o poker tomou a forma que tem hoje. 2. E chegando ao sétimo dia, os jogadores estavam cansados e criaram o “one time”, e rezavam para ganhar os flips, e assim criaram o deus do baralho. Fim do poker.

 

Imagem: A criação de Adão, de Michelangelo (editada)

A última rua na última street de um poker imaginado

A noite de jogatina já era um passado recente, e na memória restava a lembrança de algumas apostas mal feitas nas últimas oito ininterruptas horas. No trajeto entre o clube e sua não muito confortável cama, a mente permanecia remoendo cada carta que não virou grana, cada flop desconexo, o par de folds com par na mão que dariam um bom pote. Como consolo, a mente trabalhava num mundo imaginado em que cada aposta dava certo.

A única coisa que o trazia para realidade era a lua, grande e encardida no final da madrugada, que parecia pesada demais e ameaçava tocar a linha do horizonte, insistindo em aparecer bem em frente ao carro a cada virada do volante. Uma surpresa não surpreendente, afinal, ele sabia que ela estaria lá, mas nunca de onde viria. A lua era sua ligação com o real, lembrando-o sobre o mundo ao redor.

Sem a visão da lua, a mente retornava ao poker imaginado, mas na longa via expressa, a velocidade constante e o sono o deixaram em transe, até que em determinado momento, real e imaginado tornaram-se uma coisa só, a lua no horizonte se parecia com um ás, o asfalto era verde como o feltro, as placas de sinalização eram fichas, cada qual com cor e valor diferentes. A aposta não feita era uma brecada, piscar o farol era um tell, uma buzinada informava a mudança de blinds.

Na nova realidade, um tipo de ilusão consciente, cada uma das vielas que sucediam a via expressa se tornavam uma mão jogada, em cada esquina dobrada um novo flop, a cada lua, um ás no turn. Numa dessas esquinas, um homem alto, terno preto e sorriso branco, chapéu e mala, desce a rua sem perceber o carro. A visão impactante e incomum confunde a cabeça, mas se tratava da mão final, era o dealer, que acenou segurando a ponta do chapéu.

Ele foi all in com velocidade, o bet foi maior do que a placa indicava, o feltro já era escuro como asfalto, e o impacto do river transformou o bordo de espadas, em copas, tudo vermelho e cruel. Foi assim, frente a chance de recuperar tudo que havia perdido, a aposta na ilusão foi sua última, o jogo havia acabado pra ele.

 

Imagem: Shutterstock/Pan Xunbin

Não há ficha, não há cadeira

No torneio que termina no início da aurora, que só pode ser notada olhando para o relógio no fundo da sala de poker que insiste em não ter janelas, uma fatiada. Nada que probabilidade e aleatoriedade não demonstrem, de dois outs veio um, a trinca do par menor do adversário deu as caras e levou o pote, pote gordo, quase que todo o stack, com exceção de um ficha roxa.

A ficha roxa quase sempre tem o valor estampado de $500, convenção que lembra a das bolas de sinuca, vermelha é um, amarela é dois, verde é três. No turfe a variação é maior, mas é comum o cavalo número um usar vermelho, o três, azul, e o quatro, amarelo. São os padrões e convenções que nos fazem identificar rapidamente os valores, e por vezes as quantidades.

Nesse torneio, um jogador teve uma sacada das boas, percebeu que uma pilha de vinte fichas, roxas ou não, tem exatamente a altura dos dedos quando seguramos a pilha apoiando a palma da mão em cima. No caso dele, claro, afinal fichas têm padrão, mãos não. Mas, padrões nos diferenciam, a forma como o oponente aposta, o jeito que espalha as fichas, como reage ao flop, o que faz quando vai all in. Assim vamos construindo uma rede de padrões, observando as recorrências, percebendo reações e emoções, jogando o jogador.

Voltemos à fatiada. Ele nem sabia que havia sobrado com uma ficha, e quando foi avisado, já distante de seu assento, lembrou da frase “a chip and a chair“, que virou convenção e ficou conhecida quando o jogador Jack Straus ganhou o Main Event da WSOP em 1982, após ficar com apenas uma ficha de $500. Deu de ombros, foda-se, ele tinha $500, tinha um assento, mas não tinha cabeça.

Esse montante de pensamentos frente à objetos, uma ferragem forrada e estofada, uma peça de argila e plástico. Não há ficha, não há cadeira, somente nosso olhar, emoções e pensamentos.

 

Imagem: Torneio diário no Caesars Palace (Naccarato)

Call

No centro do clube há uma mesa elevada sobre um palco acima dos olhos, contornada por luzes, aparelhada com cadeiras confortáveis, embaralhador automático, hole cams, diretor e floor, e um dealer comandando tudo. Isso faz com que a mesa não seja vista em sua totalidade, mas apenas em partes por uma grande e crescente plateia.

O efeito esperado é conseguido, o destaque para a mesa principal, e a chance de não vê-la, faz com que todos nutram interesse e queiram assistir e participar. Contudo, nessa mesa jogam poucos, a seleção é criteriosa, é preciso ser convidado, legitimado. Jogadores em alternate raramente são chamados, pois os assentos livres estão reservados. Além do que, nessa mesa apenas se joga de um jeito um jogo previamente combinado, conluio tácito, descarado apenas para poucos que somente por estarem longe o suficiente da mesa, conseguem decifrá-lo.

Para esses poucos, cartas não têm naipe, fichas não têm valor, e fica perceptível que e a cada aposta o pote aumenta, mas ninguém puxa. Assim, todos à mesa são não-ganhadores, o que gera o paradoxo do jogo, onde ninguém pode ser derrotado ou eliminado. Mas há uma escolha, você pode comprar sua entrada na mesa cobiçada, basta pagar mais no rake do que no buy in, o que descaracterizaria o jogo, o que não teria graça, e se mesmo assim você decidir entrar, um pensamento prevalecerá: dar um call que de tão pequeno não tem como não ser dado ou foldar frente a derrota evidente. O que escolher se quem está na mesa nunca perde?

Enquanto isso, o dealer distribui as cartas sorrindo, fazendo parecer que o jogo continua normalmente, com regras que se desconhece, com o mesmo flop de sempre e rodadas que nunca chegam ao river, numa mesa onde o jogo ocorre apenas por encenação.

 

Imagem: Bruno Teramoto (editada)

O velho Bill’s e o poker fé

O Bill’s Gamblin’ Hall and Saloon era um dos cassinos mais chulés da Las Vegas Boulevard, que é a principal avenida de Las Vegas, também chamada e notória pelo apelido “The Strip”. É na Strip que estão todos os monumentais e conhecidos cassinos da cidade, como Bellagio, Wynn, Caesars Palace, Mirage e Aria. Bem, esse não era o caso do Bill’s. O pequeno hotel-cassino cheio de beberrões tinha a seu favor uma localização privilegiada, pois ficava entre o Bally’s e o Flamingo, de frente para o Caesars, e na diagonal do Bellagio, e tinha os jogos mais baratos da cidade, além do clima de festa constante. Ou seja, ninguém atravessava suas portas procurando uma atmosfera de seriedade, as pessoas estavam ali pra encher a cara, se divertir e apostar, e talvez isso o tornava um lugar cafona e cult ao mesmo tempo.

Lá você achava facilmente a Blue Moon, a breja de trigo dos baralhões servida com uma rodela de laranja, Coronas à dois dólares, steak com dois ovos por cinco dólares e fichas de um dólar bem legais. Além do mais, o Bill’s tinha herdado do recém fechado O’Shea’s, algumas atrações, como o Beer Pong (ping-pong com copos de cerveja), o anão que era mestre de cerimônia, e seu público cativo.

Antes dos dois anos que precederam seu fechamento em fevereiro de 2013, a área reservada para o poker consistia em apenas três mesas à beira da entrada, mas depois do crescimento dos torneios diários na cidade, o Bill’s resolveu separar uma área maior ao lado do espaço de apostas esportivas, e além dos cinco torneios diários com buy in de 30 pratas, o cassino tinha as mesas de cash mais baratas da Strip, com blefes e flushes em blinds 50¢/$1.

Os jackpots que a poker room oferecia das oito até meio-dia resultavam em pelo menos uma ou duas mesas cheias de velhotes pela manhã. Havia bônus para royal, straight flush, quadra e Aces Cracked. Este último o mais buscado e esperado. É simples, bastava receber o par de bicudos, fazer um slowplay dos bons torcendo para o adversário melhorar a mão e, bingo! Cem dólares a mais na conta se você perdesse o pote, desde que ele tivesse no mínimo 10 dólares. Na primeira semana da minha quarta temporada na cidade, decidi bater cartão no Bill’s pela manhã, mais por conta do field fácil do que pelos jackpots. Nos dois primeiros dias encontrei mesas sem ação, com jogadores entrando com cacifes de apenas 30 dólares e exclusivamente esperando terem seus ases quebrados num festival de limpers que mais parecia um boicote ao jogo. No terceiro dia consegui um feito nada agradável, e me tornei persona non grata nesta poker room, eliminando dois jogadores em doze minutos e fazendo com que os outros mudassem de mesa. Desisti de jogar lá de manhã, e só um fato me fez voltar, mas dessa vez na tarde do dia seguinte.

No quarto dia, após uma queda prematura no torneio das 16 horas do Bally’s, o cassino vizinho, entrei no Bill’s pra fugir do calor desértico das ruas e cortar caminho até o Flamingo, onde estava hospedado. Numa passadela até a poker room, fiquei olhando as mesas de cash, e lá estava ele sentado e espalhado pela mesa, com várias pilhas de fichas desarrumadas de cinco dólares e com um enorme sorriso estampado na fuça para desespero dos adversários. Era um velhote gorducho, vestindo uma camisa de time de futebol americano, que atendia pelo nome de Mister Brown.

Nosso amigo, o Sr. Brown, era um caixa eletrônico, e tinha um método apurado para jogar o cash do Bill’s. Ele entrava com o valor máximo permitido na mesa e nunca abria raise, limpando a maioria dos potes, mesmo quando tinha valor nas mãos, e se algum adversário tratasse de aumentar, ele remediava apenas dando call. Seu range parecia ser mais amplo do que as 169 combinações de duas cartas iniciais possíveis do hold’em, jogando com quaisquer cartas naipadas, qualquer par, qualquer broadway, quaisquer duas cartas que somadas cheguem a 8… Enfim, acho que deu pra entender não?

Outro aspecto da sua tática era dar call em todas as streets, bastava ele estar na mão e pintar um draw no flop que o Sr. Brown iria buscar até o final, sem qualquer cerimônia. Como resultado, ele perdia boas quantias na maioria dos potes, e prontamente recarregava o stack. O único problema era quando ele acertava. Como compensação em perder 4 ou 5 potes seguidos de 40 ou 50 dólares, ele puxava logo umas duzentas pratas pra pilha quando seu flush quebrava trincas e sequências dos adversários, ou quando saia com pares de Ás e Reis em algumas mãos.

De hora em hora, o Sr. Brown sacava da mesa jogadores inconformados, amedrontados e tiltados, para a alegria dos dealers que eram recompensados justamente pelos poucos outs que ele acertava no river. E que poker room não gostaria de um desses na mesa, não? Fichas e mais fichas de rake a cada minuto fizeram o Sr. Brown ganhar uma garçonete quase que exclusiva, pronta para atendê-lo em qualquer pedido. Se eu tivesse que descrever o Sr. Brown pra alguém, eu diria simplesmente que ele é um cara com uma característica peculiar, pois quando está numa mão, buscando seu flush, seu olhos brilham. Ele joga poker fé, ele joga roleta na mesa de poker, e está lá exclusivamente pela descarga química que percorre seu cérebro e vai até a ponta de seus dedos.

O Sr. Brown, nesses extremos, só existe como representação literária. Ele é a junção de todos aqueles gamblers com os quais você se depara nos feltros. Ele é um exemplo de todas as vezes que você tomou baralhada. Ele é aquele cara que muitos dizem ter sorte, e se perguntam entre si — Mas você viu como ele acerta? Que conta mais regulada! Para ganhar do Sr. Brown você tem que vencê-lo em sua mente primeiro, aceitando que ganhar e perder potes faz parte do jogo. O esforço em entendê-lo só faz sentido se você quer aprimorar seu jogo, e entender que ganhar um pote não significa jogar bem, afinal, jogar bem vai além do resultado.

De volta à São Paulo, numa madrugada de terça-feira, os últimos remanescentes no salão do clube que jogo, decidiram fazer uma rodada de poker fé, algo digamos mais saudável do que ocorria nas mesas com o Sr. Brown, onde você casa uma ficha por órbita e o dealer distribui as cartas dos jogadores abertas, e depois bate flop, turn e river pra ver o baralho fazer graça, enquanto todos torcem por seus outs até o river.

 

Reeditado do original em Aprendendo Poker. Foto: M. Naccarato