As mulheres fora do feltro

Muito se fala da presença das mulheres num ambiente de cartas e rodeadas por um número extensivamente maior de homens. Mas, e fora do poker, aonde elas estão?

Eu vejo apenas dois tipos de mulheres: as que nos apoiam e as que repudiam o jogo. Parabéns aos homem que têm em casa a mulher mais compreensiva do mundo, em contrapartida, meus pêsames para aqueles que conseguem sua carta de alforria a muito custo.

Vou me focar naqueles menos sortudos e por vias de fato: eu.

Minha mulher me apoia nas grandes decisões da vida, mas é só envolver a palavra “poker” que o mundo parece desabar, e confesso, isso já foi bem pior cinco anos atrás.

Escutei da boca da sogra e da própria esposa, o desastre que o poker representou na família delas, pois um tio já perdeu até a casa jogando esse joguinho. Mal sabem que essa história de tio falido mais parece uma corrente de spam contra o poker, e curiosamente esse tio cagado é conhecido da grande maioria dos jogadores de poker.

Esses anos todos me fizeram um expert em persuasão, foram necessárias inúmeras horas de negociação para jogar um home game, e graças aos adventos da tecnologia, hoje posso comprovar minha estada na tal home jogando o game. O site de coberturas de torneios de poker, o Mebeliska caiu como uma luva para atestar sua participação em algum torneio, e foram incontáveis as vezes que escutei participantes pedirem para que sua foto fosse tirada e publicada no site. O cara faz o pedido e dá um sorriso de canto da boca, como que estivesse pensando “missão cumprida”.

O meu trabalho na tentativa de convencer minha mulher a me liberar, de certa maneira está sendo facilitado pelos sites temáticos em poker brasileiros, e ouso dizer, mundiais. Eles simplesmente mascaram os resultados ao mostrar o poker como um esporte altamente lucrativo, entretanto, em momento algum lembram de citar que, enquanto existe um lado vencedor, há outro perdedor.

“Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher” assim dizia um ditado popular, e portanto, ao longo dos tempos percebi que não se joga um poker vencedor enquanto não houver harmonia em todos os campos da vida, e a aprovação da minha esposa fora essencial pra que eu jogasse em paz (ainda que não vencedor).

De fato, o poker está sendo mais aceito na sociedade, e a imagem do esporte diante da mentalidade dos mais leigos em relação a salas de jogos esfumaçadas e chaves de carros e apartamentos rodopiados até o meio da mesa numa tentativa de all in, tem ido por água abaixo.

Obrigado sites que só postam resultados positivos, obrigado minha esposa pela carta de alforria, e que tal duas vezes por semana, meu amor?

Foto: Zigzag Mountain Art / Shutterstock

Monty Hall, o indiano maluco e um pouco de Teoria dos Jogos

O filme Quebrando a Banca (título original “21”, de 2008), que tem como cenário Las Vegas e principalmente o cassino Planet Hollywood, conta a história do grupo de estudantes do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu um método de contagem de cartas para tirar vantagem nas mesas de blackjack da cidade. Jogando em equipe, eles conseguem ganhar uma boa grana, mas enfrentam vários problemas no desenrolar da história. Até aí, nada demais, é uma bela sessão da tarde, não fosse por uma cena que chamou minha atenção no início do filme. Nela, você pode conferir o professor, que é o cabeça do grupo, apresentando um problema para o novato da turma, que posteriormente se transforma no seu principal pupilo na empreitada dos estudantes para Las Vegas. O problema apresentado no vídeo é o Paradoxo de Monty Hall, que você pode conferir abaixo (em inglês):

Este problema ficou muito conhecido na década de 70 devido ao programa de televisão que o popularizou (Monty Hall, inclusive, é o nome do apresentador). Muitos Ph.D’s em matemática de várias universidades norte-americanas torceram o nariz para a resposta não convencional do problema. Bom, vejamos o porquê. O problema é simples, você está num concurso televisivo e o apresentador te mostra três portas, dizendo que atrás de uma delas há um carro zero km, e uma cabra em cada uma das outras duas portas. Ele pede então que você escolha uma das portas, e se acertar o carro, o prêmio é seu.

Acontece que após sua primeira escolha, o apresentador abre uma das portas não escolhidas e revela uma cabra. Claro que o apresentador sabe de antemão onde está o carro, e pra conferir um tom dramático ao programa, ele pergunta se você deseja trocar de porta.

Aparentemente, se sobraram duas portas apenas, uma com carro e outra com o ruminante, a chance é de 50% de acertar o prêmio, mas não é bem assim, pois a resposta que te dá mais probabilidade de acerto é contra-intuitiva. A troca das portas eleva sua chance de vitória para 2/3, pois o fato de haver uma porta revelada não modifica sua chance, mas fazer a troca sim. Quando você escolheu a porta, a chance de ter escolhido uma cabra é de 2/3, e quando efetua a troca, a chance de acertar a caranga aumenta para 2/3, como é falado no vídeo. Se você quiser tentar na prática, peça para um amigo separar duas cartas de espadas e uma de ouros, coloque-as facedown, e simule o problema algumas vezes, pelo menos umas dez vezes mantendo sua escolha inicial, e depois mais dez fazendo a troca, e confira os resultados.

Sabemos agora que a melhor escolha é aquela que aumenta a probabilidade de vencer, ou seja, como no poker, a melhor jogada é a que respeita a matemática, e traz uma melhor expectativa de ganho. Esse paralelo torna o paradoxo de Monty Hall bastante interessante por si só, mas levanta questões muito interessantes para o poker.

Muitas vezes, no feltro, somos enganados pela facilidade aparente de uma lógica que nem sempre representa a realidade, e estaremos frente à escolhas que parecem ser racionais e pautadas em verdades absolutas, mas vamos quebrar a cara, pois temos que olhar a situação sobre vários pontos de vista, e em algumas vezes, essencialmente de forma contra-intuitiva.

Pois bem, em 2010 eu estava em Las Vegas, jogando o torneio da noite na poker room do já citado Planet Hollywood Cassino. Nessa mesa havia um misto de bons jogadores e recreativos, mas um deles, um indiano mal encarado, não poupava fichas nas inúmeras mãos que disputava. Uma dessas mãos me chamou muita atenção, pela linha inusitada que o indiano utilizou. Depois de um jogador dar limp em early position, ele abriu um raise de 3xBB em MP, e tomou três calls, incluindo o limper original, SB e BB.

Embora estivesse fora da mão, fiquei observando a ação, e vimos o flop do capeta, 666. Todos mesaram, o indiano meteu meio pote, blinds deram fold e a ação voltou ao jogador em EP, que deu insta-call. No turn, um 3, EP deu check e o indiano check-behind. No river outro 3, formando um full house na mesa, e após o terceiro check do jogador em EP, o indiano estoura all in. Minutos depois, ele resolve dar o call e mostra 99, enquanto o indiano ameaça o muck, mas mostra A6 e puxa o pote.

Na visão do indiano, o limp em early position podia indicar um par de valor baixo, e talvez fosse improvável que ao menos um dos callers não tivesse um par na mão, fato que o fez apostar no flop estando nuts. Já no river, com um bordo desses, não duvido que ele se aproveitou da situação para extrair o máximo de fichas do seu adversário. Você certamente concluiria que o indiano estava jogando com o bordo, ou na melhor das hipóteses, que tivesse um full com um par na mão. Na visão do jogador em EP, seria improvável alguém apostar dessa forma com uma quadra ou um full maior na mão, o que deixou a aposta do indiano mais parecida com um blefe do que com valor.

Esse é um exemplo extremo, e vale dizer que era um torneio turbo, e que o indiano estava muito agressivo à mesa, mas isso mostra que linhas de jogo não convencionais, mudam a dinâmica do jogo (empurrar os blinds do UTG é um bom exemplo de jogada não convencinal que virou comum no poker). Pela cartilha, o indiano deveria cozinhar o adversário até que ele melhorasse sua mão, e só então apostar por valor no river, mas ao criar uma dúvida razoável ele sacou o oponente da mesa. As vezes o adversário parece querer te tirar da mão, o que parece lógico, mas de fato ele está apostando para tomar todas suas fichas. Essa mão me lembra a final hand do Main Event de 1998 da WSOP, não tanto pela linha de apostas, pois afinal Scotty Nguyen apenas deu call até o turn, mas pelo shove ao final da mão com direito a falinha, para confundir o adversário, induzindo-o ao erro.

Outro exemplo é o Jogo do Ultimato, que nada mais é do que uma aplicação prática da famosa Teoria dos Jogos (ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno). No Jogo do Ultimato, uma banca oferece um prêmio para o jogador A, digamos 100 fichas. Esse jogador deve dividir, à seu critério, uma porcentagem das fichas e oferecer ao jogador B. Se o jogador B não aceitar a oferta (ele apenas pode dizer sim ou não, sem qualquer tipo de barganha), a banca não paga nenhum dos dois. A saber, a banca faz isso apenas uma vez, ou seja, os jogadores não terão um novo turno de oferta e aceite, de forma que matematicamente o jogador B deveria aceitar qualquer quantia, pois ganhar uma ficha é melhor do que nenhuma, mas estudos mostraram que na prática, 2/3 das pessoas no papel de jogador A, fizeram divisões de 50/50 ou próximo disso, e, jogadores que ofereceram menos de 20% dos ganhos, perderam o prêmio, pois parece pouco lógico e até injusto, gerando um resultado com um desfecho emocional.

Em todos estes exemplos, seja no paradoxo de Monty Hall, na mão do indiano no Planet Hollywood ou no Jogo do Ultimato, aprendemos que a busca de qualquer jogador que decide se empenhar em aprender poker, seja recreativamente ou profissionalmente, esbarra sempre num método de jogo com expectativa positiva e numa compreensão dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem o jogo, e embora haja sorte e azar envolvidos em todas as mãos, poker é um excelente jogo mental, onde seu nível de jogo só vai melhorar quando você se der conta que a qualidade das suas escolhas na mesa são mais importantes que vencer ou perder a mão.

Para uma explicação mais detalhada do paradoxo de Monty Hall, acesse este link da Wikipedia, e para saber mais sobre a Teoria dos Jogos, acesse este link, também da Wikipedia e pesquise ainda mais, pois afinal, um poker bem jogado é fruto de muita prática, mas também de dedicação e pesquisa.

 

Foto: Jason Patrick Ross / Shutterstock.com. Publicado originalmente em Pokerdicas.

Drawing Dead, lançado neste mês, é o documentário que pretende mostrar os dois lados do jogo


Confira o trailer

Se todos estão ganhando… onde estão os perdedores? Esta é uma das perguntas que o diretor e produtor de Drawing Dead: The Highs & Lows of Online Poker, Mike Weeks, pretende responder em seu documentário sobre o poker online. Weeks diz, no site oficial do documentário, que está cansado de ver apenas um lado do mundo do poker, e isso o incentivou a filmar os extremos do jogo mostrando as histórias de Michael, um violinista de Seattle e Dusty “Leatherass” Schmidt, conhecido e vitorioso grinder online.

O longa-metragem nasceu da repercussão do curta feito por Weeks, que ganhou audiência no YouTube, e gerou discussões em diversos fóruns de poker pelo mundo. No site oficial, www.drawingdeadpokerdoc.com, Você pode conferir o curta que o originou e inclusive comprar o documentário.

Galileu, a probabilidade e uma visão para o poker

Galileu Galilei, sim, ele mesmo, matemático, físico, astrônomo e filósofo, além de todo legado deixado para a humanidade, solucionou em seu “Considerações sobre o Jogo de Dados” um problema simples, mas curioso. No século XVII alguns jogadores questionaram Galilei sobre o desequilíbrio dos resultados 9 e 10 no lançamento de três dados, visto que as combinações possíveis para cada um era de seis opções:

Resultado 9: 126, 135, 144, 225, 234 e 333
Resultado 10: 136, 145, 226, 235, 244 e 334

Por força da prática, os jogadores tinham percebido que a soma 10 ocorria mais vezes que a soma 9, embora as combinações aparentemente fossem as mesmas. Isso parecia um problema sem solução, fazendo com que a prática desafiasse a lógica, pois quanto mais eles jogavam, mais ficava aparente a vantagem da soma 10. Galileu notou que havia mais inversões, ou modos diferentes de se obter cada uma dessas combinações, verificando que o total de combinações para a soma 10 era de 27, enquanto que para soma 9 era de 25 inversões. Por exemplo, para se obter a somatória 10 com as faces 1,3 e 6, havia seis possibilidades (136, 163, 316, 361, 613 e 631), e não apenas uma combinação, como imaginavam os jogadores. Clicando aqui, um link para um apêndice que explica bem o problema.

Situações onde a lógica aparente não reflete a realidade são mais frequentes do que se imagina, e são um dos alicerces do chamado deception game, ferramenta fundamental do poker, que consiste basicamente em induzir o adversário ao erro. Porém o foco deste artigo é outro. Note que mesmo esses jogadores do século XVII tendo prática e conhecimento com o jogo de dados, tinham como certo e lógico o equilíbrio de resultados, o que não estava permitindo que eles chegassem a um raciocínio mais apurado, pois estavam condicionados em seu entendimento. No poker, a curva de aprendizado, talvez como em qualquer atividade humana, é bem acentuada no começo, porém constantemente os jogadores alcançam um ponto onde o conhecimento que têm sobre o jogo e as relações que conseguem estabelecer parecem chegar à um teto razoável de entendimento, e é aí que reside o problema, quando a capacidade de análise no poker fica condicionada.

Invariavelmente isso ocorre quando o jogador compreende a parte matemática do jogo, e acaba supervalorizando ou compreendendo de forma equivocada os dados de probabilidade de vitória numa mão. Você já deve ter visto diversos exemplos disso, quando, mesmo tendo uma chance de vitória bem maior que o adversário, a combinação de cartas no bordo não ajuda, e o oponente que nem mesmo tem conhecimento de teoria do poker ganha a mão.

Bem, você já deve ter ficado muito puto da cara com isso, e até se sentido injustiçado, mas afinal o ponto principal dessa discussão é exatamente esse, pois o fato de estar favorito numa mão não significa que você vai vencê-la. A probabilidade é somente uma representação teórica que demonstra a incidência de determinada ocorrência. Ela não faz “justiça” e nem te faz merecedor de vencer uma mão, simples assim. Fato é que muito jogador, pautado no jogo lógico e matemático não se conforma com as derrotas ocasionadas por situações onde o adversário está underdog e acaba vencendo. Se basear apenas e exclusivamente na matemática dá uma falsa noção de domínio do jogo e acaba por pautar suas conclusões acerca de como se deve jogar, sem levar em consideração os aspectos emocionais e situacionais presentes a todo o momento em cada decisão e mão jogada.

Chega de mimimi, ou você escolhe usar a probabilidade a seu favor e arrisca enfiar ficha no jogador que está buscando o flush até o river, ou você controla o pote para perder menos se ele acertar, pois sabe como é o padrão de jogo dele. O curioso é ver o jogador matemático/lógico reclamar da baralhada num estado febril de descontrole emocional, sendo que supostamente seu ponto forte seria exatamente ter controle emocional. Não faz sentido aplicar uma abordagem matemática à jogadores não teóricos e gamblers, e se você frequentemente compromete grande parte, senão todo, o seu stack numa mão porque tem  um bom par ou similar, é bom observar seu jogo e tentar diversas maneiras diferentes de jogar essa mão, identificando onde estão seus leaks e buscando um método de contra-jogo para esse tipo de adversário.

Sem perceber os próprios erros, muitos jogadores de poker procuram um motivo externo para dar vazão as derrotas, creditando ao azar ou a suposta forma errada que o adversário jogou, o amargo resultado negativo. Mas, não se preocupe, isso é um recurso de defesa natural do ser humano, só não vale ficar nessa sempre, pois ficar puto é normal, mas experimentar o poker carregando esse entendimento, só traz prejuízos a você mesmo, e vai ocasionar uma estagnada no seu método de jogo, deixando-o condicionado. Se você perdeu por azar, mas jogou bem, não há motivo aparente para se preocupar, embora muitas vezes seja uma merda, e determinada oportunidade seja única (digamos que você está na bolha da mesa final do ME da WSOP), elevar e enaltecer a falta de sorte, só significa que sua visão do poker é similar a de um jogo de azar.

Jogadores profissionais e os que estudam o jogo trabalham sua expectativa de ganho num período de tempo suficiente para ter uma amostragem apurada, e poderem analisar suas falhas e consertá-las. Pergunte a qualquer bom jogador de poker se ele fica verificando, ou sabe a frequência de vezes que seu par de bicudos foi quebrado pra justificar seu tremendo azar? Aposto que ele está tentando ver uma melhor forma de jogar AA do que ficar preocupado com isso.

Concluindo, deixe um pouco de lado a justiça aparente das probabilidades, e comece a trabalhar a cabeça para aguentar o tranco quando a baralhada vier, e aprenda a perder, pois isso vai te dar subsídios para não tiltar no meio do caminho.

 

Foto: Michael Avory/Shutterstock. Publicado originalmente em Pokerdicas

Floating in Vegas, um retrato descontraído do small stakes poker da Sin City

Não basta apenas dizer raise para falar um bom inglês nas cardrooms de Las Vegas, é preciso equilibrar emoção e lógica para vencer na cidade mundial do jogo. O autor Marco Naccarato disputou, ao longo de um ano e meio, 52 torneios dos mais variados em suas três viagens, e com uma linguagem despojada, relata a dinâmica do poker na Sin City. Floating in Vegas pode parecer um livro técnico, e de fato contém alguns debates e interpretações sobre o hold’em e as diversas mãos disputadas, além de trazer um tutorial para os iniciantes no jogo, mas seu forte não está exatamente aí. A autenticidade da narrativa e sua estrutura, contribuem para o livro ser diferente da maioria das obras no mercado, e mostra que poker não é apenas flop, turn e river, mas tudo o que está em sua volta.

fivA primeira parte do livro é bastante descritiva, vinculando os acontecimentos à narrativa das mãos jogadas e dos tipos de jogadores que habitam o small stakes da cidade. Já na segunda parte, Naccarato incrementa o texto com algumas análises sobre o jogo e as poker rooms, além de relatar o caminho até conseguir o buy in para jogar um evento da World Series of Poker. O autor encerra o livro narrando a Vegas do entretenimento, uma cidade que não é só do jogo e que está sempre pronta para receber turistas e oferecer uma grande variedade de atrações, e talvez, todo esse conjunto torne o livro uma espécie de guia para os futuros viajantes.

“Floating in Vegas – Um relato sobre os torneios de poker de buy in baixo dos cassinos de Las Vegas”, foi lançado em setembro de 2012, e pode ser comprado na Loja MaisEV pelo preço de R$19,90 ou na versão ebook por R$13,32 na loja online da Amazon. Confira abaixo um dos capítulos na íntegra:

Floating in Vegas – Capítulo 13

A única coisa que consegui fazer bem na noite de sexta-feira foi dormir bastante, acordando às dez e apreciando a paisagem da janela. Desta vez pegamos um quarto na torre sul do Bally’s e nossa vista era animal, no último andar, de frente para a torre Eiffel e a piscina do Paris e com vista para o southbound da Strip. Dava até para ver metade do lago artificial do Bellagio e assistir seu espetáculo de dança das águas*, nada mal. Ao cair da noite, aquilo fica um emaranhado de luzes, é de encher os olhos. O que ainda incomodava – tal qual no ano anterior – era o lacre nas enormes janelas de vidro, estrategicamente fechadas num quarto de fumantes. Impossível não sair defumado lá de dentro. Até tentamos arrancar os parafusos dos batentes, sem sucesso. Eles devem trancar as janelas para que nenhum maluco adicto perdedor se atreva a voar pelas finestra.

Depois de um banho, desci até a Poker Room do hotel e peguei a fila para a inscrição. Muita gente havia chegado, como é de costume nos finais de semana, e o field do regular das onze bateu 35 jogadores. Não havia mudanças no espaço, mas a estrutura estava bem melhor, apesar do aumento do buy in para 75 dólares. O stack inicial aumentou para cinco mil fichas e o primeiro nível de blinds subiu para 50/100. Como as dobras são de vinte minutos, posso dizer que há um bom espaço de manobra em comparação aos torneios do dia anterior e, se você mostrar a que veio nos primeiros dois níveis, a chance de se colocar bem na mesa final é grande. Havia melhores jogadores, mas havia muito pato também, então o jeito foi atacar. Dominei a mesa na primeira hora e consegui dar muitos nocautes, até a mesa ser quebrada. Na nova configuração, adversários mais difíceis, mas eu tinha ficha para contra-atacar e, por sorte, não tomei nenhuma trombada no caminho para FT. Quando a bolha se aproximou, estávamos 5-handed e shovei tudo com AQoff. Encontrei AA no big e levei uma boa fatiada, que me deixou prestes a ser o bubble-boy. Sem outra opção, empurrei dois all ins seguidos, que me fizeram recuperar parte do stack. Na mão seguinte, assisti o quarto e quinto colocados serem eliminados duma só vez e agora eu estava frente a um prêmio razoável. Fui para a batalha contra um americano local e um portuga.

Naquele momento eu estava eufórico. Já tinha garantido 327 dólares de prêmio, o que me deixava com um lucro de praticamente metade do valor do buy in da World Series, mas o objetivo era abocanhar o primeiro prêmio, uma pequena bolada de 800 pratas! Comecei então a reavaliar e classificar os dois adversários; o americano certamente era o mais casca, tinha a manha do jogo e estava bem concentrado. Curiosamente, ele simpatizou comigo e a cada boa jogada que eu fazia, ele elogiava, porém não deixava de betar forte quando entrava numa mão contra mim. Ele era o chipleader e certamente seria o adversário da final. O portuga era do tipo turista agressivo, que também betava forte, mas sem muita técnica, e blefava sem contar a história direito. Logo mirei o Camões e empurrei os blinds dele por algumas mãos sem a intervenção do americano, o que me deu um fôlego até a primeira dobrada. Estourei all in com um par e ele pagou com Ás fraco. Pronto, agora o portuga e eu estávamos praticamente iguais em fichas e foi na mão seguinte que a cagada aconteceu. Com blinds altos, paguei o all in dele segurando AK naipado e ele mostrou KJoff. Dois valetes no flop acabaram com a festa. Levei somente os 327 dólares.

Ainda fiquei um tempo assistindo o portuga levar uma sova do ianque. Ele nem ao menos durou quatro mãos. Tentou passar mais um blefe sem sucesso, levando uma fatiada monstro. Ele jogava o típico jogo do fraco é forte: quando estava com boas cartas limpava, cartas ruins, shovava. Assim ficou previsível demais e acabou sendo eliminado pelo americano, com uma trinca na orelha. Ao final da contenda, fui ao Imperial tentar o torneio das três da tarde. Mais 40 pratas num field relativamente fraco, com 35 caras. Fiquei chipleader na minha mesa, mas tomei duas boas fatiadas e, no quinto nível de blinds (300/600), empurrei os 6k restantes com AKoff e tomei call de um par de putas. Caímos entre os 14.

Ficou bem claro que não havia nos fields jogadores profissionais, mas, regularmente, pintavam dois ou três caras que tinham um pouco mais de experiência no baralho. Aos poucos eu estava conseguindo traçar o perfil dos jogadores médios desses torneios. Basicamente, os jogadores com mais idade jogam assim: um terço quase sempre busca as brocas e os draws de straight e de flush após o flop e, independente do valor apostado no flop e no turn, vão dando call até o river sem pensar muito. Típico do jogador que pensa somente nas próprias cartas, a ponto de ser possível betar com nada na mão e ser pago em todas as streets até o fold deles no river. Esses velhotes também não largam a mão se acertarem top pair, mesmo que o kicker seja um patético 3 e, quando acertam dois pares, apostam furiosamente, ficando muito fácil largar. Eles também vão limpar qualquer par, mesmo ases e reis, então, se um deles mostrar força no flop, também fica fácil foldar. Os dois terços restantes praticamente se inscrevem no torneio para assistir a batalha e ficam pacientemente esperando boas mãos, vendo seu stack sangrar. Jogando assim, eles não recebem muita ação da mesa, ou melhor, só recebem ação de jogadores mal intencionados, como eu. O que se pode fazer é pagar com cartas marginais e espantá-los com uma c-bet em flops que não contenham ases ou reis. Na maioria das vezes isso funciona bem, caso contrário, se você preferir não se arriscar, basta dar fold, porque esses coroas não entendem muito da dinâmica do torneio – principalmente da relação de stack e blinds – e dependem muito de cartas para ir longe, o que acaba deixando-os sem opções quando as dobras sobem demais. Eles são sempre engolidos pela estrutura e se, eventualmente, um deles pegar boas cartas no caminho e conseguir chegar a uma final, é só jogar bem agressivo que eles não aguentam o tranco. No geral, eles já ficam felizes quando alcançam a faixa de premiação. Os coroas de Vegas que jogam bem obtêm seus resultados porque jogam de forma agressiva e não hesitam em botar tudo no pano para espantar os adversários.

A maioria dos jogadores americanos é turista de cidades próximas ou de outros Estados e não estão em Vegas pelo jogo em si. São caras entre 25 e 40 anos que estão lá para se divertir e que encaram o poker da mesma forma que jogam nas mesas de blackjack, craps ou roleta, inscrevendo-se nos torneios pela adrenalina e pela emoção de encontrar a sorte numa mão ou outra. Eles têm uma noção básica do jogo, ficam nervosos à mesa, dão muitos tells e também não largam top pair, mesmo que haja uma sequência óbvia no bordo. Quando estão em algum tipo de draw no flop, pagam rapidamente a sua aposta, mas desitem frente a segunda barreira** no turn. O curioso é que todos conhecem bem as regras – o poker é algo muito familiar para eles, tanto quanto o futebol é muito próximo de nós –, mas é como dizer que eles sabem jogar xadrez, quando na verdade só sabem mexer as peças sem estratégia alguma. Eles são os fishes que pagam a conta. Apenas uma parte dos americanos, os jogadores locais, joga bem, e se você trombar um desses na mesa, terá que gastar alguns neurônios porque eles têm um acervo variado de jogadas e estão lá exclusivamente pela grana.

Principalmente nessa época do ano, os torneios quase sempre têm um viciadão todo paramentado, boné e blusão do WSOP, uma réplica de bracelete no braço e todos os maneirismos de um jogador profissional, o legítimo wannabe. O fato é que a maior parte deles não passa de um reclamão azarado fazendo o papel de sabichão, sem perceber as próprias falhas no jeito de jogar. Eles são comentaristas e vão discutir quase todas as mãos em que estão envolvidos, soltando repetidamente um “eu sabia***” quando perdem suas mãos. Curiosamente, esses caras são fortíssimos pára-raios de baralhada, verdadeiros colecionadores de bad beats, o que deixa tudo muito tragicômico. Desconfie deles, pois não são fortes oponentes. Eles querem mais o poker do que o poker os quer. Há também maníacos em Vegas, mas eles são ligeiramente diferentes dos de São Paulo. Na Sin City, e nesse tipo de torneio de buy in baixo, eles são em menor número e, para pegar um deles, basta dar check/call até o river, ou então esperar um bom spot para tirá-los da mesa – diferente de Sampa, onde funciona muito mais deixá-los desconfortáveis com um reraise. Mulheres, no geral, jogam de forma tight e dão poucos tells, mas o nível de habilidade varia muito.

Quanto à legião estrangeira, jogadores escandinavos são mais frios e calculistas, dão poucos tells, e invariavelmente são jogadores tight e meticulosos, com padrões de apostas e moves muito bem definidos. Basta ficar alerta e entender o modo como eles jogam. Turistas italianos são agressivos e baralhões, como se fossem mais espertos ou malandros que os outros. O restante dos europeus em geral não joga bem, são os típicos turistas de férias em Vegas, exceto os britânicos, que são um pouco acima da média.

Claro que tudo isso é um pouco de estereótipo e existem alguns desvios na análise, mas há muita coisa que procede em se tratando dos turistas médios que se arriscam nos feltros da cidade. O ponto principal que não deve sair de sua atenção é mostrar a que veio na mesa. Ser agressivo faz diferença e vai te dar uma vantagem nos torneios. Outra coisa que funciona muito bem é aguçar a percepção para os tells; os turistas praticamente entregam suas mãos com o olhar e a postura. Para todos os tipos há exceções e se você encontrar um verdadeiro bom jogador, pode esquecer toda essa classificação, porque aí não interessa se ele é local, turista ou coroa. Você vai ter que se virar para ganhar dele.

A noite de sábado foi longa e cheia de birita. Hora de descansar para encarar o domingo em Vegas.

* As fontes do Bellagio ficam bem em frente ao cassino, no cruzamento da Strip com a Flamingo Road, e o balé das águas rola a cada meia hora
** Segunda barreira ou second barrel é a aposta continuada no turn. Às vezes, mesmo uma third barrel funciona no river
*** Se sabia, porque pagou?