A grande jogada de Molly

O assunto de A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017) não é o poker, embora ele seja a metáfora mais adequada para elucidar a trama. O filme é baseado no livro de Molly Bloom, a garota que organizou por uma década um secreto e exclusivo cash game high stakes que contava com celebridades, ricaços e a máfia russa. Bem enredado, o filme retrata a vida de Molly intercalando seus momentos no passado com a trama do tempo presente.

O elo apresentado entre passado e presente nos dá duas possibilidades de analisar o filme. Primeiramente, podemos destacar a fase poker de Molly, que vai desde seu début no mundo da jogatina, até o jogo insano de três milhões de dólares numa única mão em Nova Iorque. Esta fase pode ser dividida em três partes, distintas entre si pelo tratamento visual e pela forma com a qual Molly lida com o jogo. Basicamente, seu envolvimento é refletido visualmente no ambiente, seguindo o esquema de um semáforo. Explico a analogia, quanto maior e mais perigosa é a sua relação com o poker, mais as cenas vão ganhando a predominância de uma cor, que vai do verde no início, ao vermelho no final.

No Cobra Lounge, estreia de Molly no mundo do poker, o ambiente é pintado com luzes verdes, e feltro e fichas são igualmente da mesma cor, ou seja, a passagem está livre para a princesa do poker e tudo o que ela faz é usar de sua inteligência para desenvolver o jogo a ponto de conseguir tomá-lo pra si. Na sequência, quando a protagonista organiza seu próprio jogo, se tornando a banca, o sinal de alerta surge, e em Los Angeles as cores predominantes passam a ser os tons dourados e amarelados, detalhes no feltro e fichas também acompanham a mudança. Quando o jogo de Molly chega em Nova Iorque, o vermelho toma conta, os valores aumentam, o rake começa a ser retirado, o vício em drogas atinge seu ponto alto e os frequentadores não são apenas ricaços em busca de diversão, há criminosos notórios entre eles, e finalmente o feltro indica: perigo!

Já, a parte da trama que trata do tempo presente é substancialmente mais mental, e se utiliza das cenas de infância e adolescência de Molly pra nos entregar o que há de mais determinante no filme.

Molly representa a obstinação recorrente nos atletas de esportes de alto nível, que os leva à privações, cobranças e treinos exaustivos, forças para além de suas vontades ou participantes delas. De certa forma, a rigidez do pai treinador-psiquiatra e o meio esportivo moldam seu caráter competitivo, mas fica claro que não é isso que move a protagonista e os demais personagens no filme. A terapia de três perguntas feita à beira da pista de patinação pelo seu pai, pode carecer de refinamento, mas entrega em poucos minutos que tipo de valores Molly carrega consigo.

É na vida emocional (e não em sua demasiadamente apresentada inteligência) que está o motor da protagonista e dos demais personagens, que colocam no feltro seus desejos, valores e frustrações, afinal, se a vida concreta coloca inúmeras barreiras para lidar com esses temas, o jogo como elemento descolado dessa concretude é o local propício para que esses aspectos surjam, pois ao jogar nos colocamos “em jogo”, uma espécie de descontrole por escolha própria.

A lista de dileções favorecidas ou freadas é longa no filme, vamos para algumas. O Jogador X não gosta tanto de poker quanto de arruinar a vida dos outros, e reproduz seu comportamento habitual ao tirar Molly do jogo. Harlan Eustice, o jogador bancado por X, busca controlar o jogo e a vida, a ponto de organizar toda a festa para esposa minuciosamente, característica de alguém que encontra no controle enorme satisfação, e é exatamente quando as coisas não vão conforme o esperado que o tilt o assalta em mais de um milhão de dólares. O advogado de Molly escolhe defendê-la porque quer para a filha o modelo feminino que ela mesma já carrega do pai.

Contudo, há tempos não parece mais ser possível Hollywood contar qualquer história que escape da batida estrutura narrativa do herói que passa por percalços e se salva ao final. É esse o traço previsível que deixa Molly’s Game no lugar comum, embora tenhamos um filme bem apresentado. GG ao diretor.

 

Imagem: Martijn Smeets/Shutterstock.com (editada)

BSOP ou KSOP?

Se há dois ou três anos alguém se atrevesse a comparar o BSOP com qualquer outro torneio no Brasil certamente seria motivo de chacota. Digo isso porque todos eventos que ousaram competir com o conceituado BSOP sucumbiram… Até que surgiu o KSOP.

O evento ocorrido no ano passado, na linda cidade de Camboriú, em parceria com o WPT, registrou 3.386 entradas e distribuiu mais de R$ 4.000.000,00 em prêmios só no evento principal. Não foi à toa que este episódio de inesperado sucesso provocou grande repercussão no meio. Seria o KSOP um adversário à altura para o BSOP?

A grande resposta para essa pergunta poderá ser revelada no mês de abril. É que nesse período os dois gigantes resolveram se confrontar realizando suas próximas etapas simultaneamente em Brasília e em São Paulo.

Seria esta a melhor estratégia? Este conflito de datas, a meu ver, mostra claramente que faltou diálogo e bom senso. Acredito que ambos sairão perdedores desse confronto de egos. Neste passo, enumerarei as principais características que considero relevantes de cada um para a próxima etapa. Vamos a elas.

BSOP (mais informações)
Credibilidade: o BSOP goza de reputação ilibada;
Organização: o BSOP possui os profissionais mais experientes e capacitados da América Latina;
Prêmio extra: o BSOP oferece nesta etapa quatro pacotes completos no valor de US$ 30 mil para o milionário evento PSPC que será realizado no ano de 2019 em Bahamas;
Custo benefício: o BSOP garante para a próxima etapa o valor de R$ 2.500.000,00 exclusivamente para a premiação do evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 2.600,00;
Imposto: o BSOP retém o imposto na fonte;
Local do evento: Brasília/DF;
Gentileza: o BSOP, ao contrário dos grandes torneios mundiais, não oferece sequer água para os jogadores.

KSOP (mais informações)
Credibilidade: o KSOP ainda necessita de um tempo de maturação para gozar de reputação ilibada;
Organização: o KSOP vem melhorando, mas ainda não se equipara ao rival;
Prêmio extra: o KSOP oferece aos participantes da etapa 10 pacotes de viagem para o Cassino Sun Monticello, no Chile;
Custo benefício: o KSOP garante nessa etapa o valor R$ 2.000.000,00 exclusivamente para o evento principal, tendo valor de inscrição de R$ 1.500,00;
Imposto: o KSOP não retém o imposto na fonte;
Local do evento: São Paulo/SP;
Gentileza: o KSOP distribui gratuitamente lanches no dia 2 do evento.

Bom, expostos os comentários, cabe ao leitor a decisão de qual evento jogar. Agora, se você é um daqueles gorilas que ficam pagando 3-bet com mão marginal o tempo todo, é melhor não jogar nenhum deles.

 

Imagem: Onyx9/Shutterstock.com

Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

Poker viciante e vício no poker

Aparentemente idênticos, o poker viciante, aquela vontade de estar a beira do feltro, é ligeiramente diferente do vício no jogo, a ludopatia. Vários aspectos sobre essa questão do vício forçosamente esbarram em como a sociedade o entende, claro que partimos do indivíduo e de como ele se afeta com o objeto do vício, mas o que me refiro é o padrão social para definirmos o que é vício e quem é o viciado. Em certa medida algumas convenções nos ensinam o que é um viciado.

Se um indivíduo é viciado em trabalho, por mais que haja um contraponto para que ele invista mais tempo com a família e em outras atividades, esse tipo de viciado nunca é inteiramente mal visto socialmente, ser workaholic é por vezes algo bem aceito ou até charmoso (biografias de conhecidos empreendedores e suas obsessões confirmam essa premissa). Outros exemplos deixam mais evidente como essa relação é entendida na sociedade, o tabagista é um viciado cujo incômodo social é até certo ponto tolerável, pois o fumante é mal visto quando “fuma ao meu lado” ou no geral quando se torna um prejuízo à saúde dos outros. Já o alcoólatra, nos casos mais extremos, causa com seu comportamento um dano social maior, derrapando para violência com os familiares, perigo de vida ao volante, brigas, etc., embora o estímulo ao consumo frequentemente se apresente. O jogador viciado nunca é bem visto, digo aqueles que colocam dinheiro na mesa e não a usual fézinha na loteria, pra eles o peso moral é muito maior.

A tentativa aqui não é colocar tudo num mesmo balaio, já vamos chegar ao ponto, mas o que é um atleta de alto nível senão um obstinado, um viciado pela sua atividade? E por conta disso e por força da competição, quantos deles deixam de lado o ideal esportivo por algum estimulante que o coloque em condições de vencer. O velocista Ben Johnson foi uma dessas exceções que ainda recorrem nos dias de hoje, daí a burocracia do antidoping, uma tentativa de controle. Há de se mencionar igualmente a questão do equilíbrio na vida, inúmeros atletas passam anos de privação, desde o convívio com a família até dietas. Por vezes o esporte também se torna campo de privações e impacta a vida social do atleta, e também do workaholic, de maneira similar.

Mas, temos uma grande diferença entre tudo isso, os vícios em substâncias químicas seriam passivos, quero dizer, o viciado tem uma relação de espectador com o objeto do vício e a anestesia que ele oferece. De certa forma o workaholic ou o esportista de alto nível ao menos atuam por meio dos seus vícios, o que é uma diferença notável. Mas, o que quero dizer com tudo isso é que tanto o esporte quanto o trabalho higienizam nosso olhar para o vício. Não estou exatamente falando do dano que determinado viciado causa socialmente, mas de como, como indivíduos sociais entendemos o fenômeno do vício, e é essa forma de entender que nos é pautada.

O ponto, ao final, é que o problema em si do vício passa consideravelmente pela sociedade, mas afeta o indivíduo o despossuindo de si mesmo, no sentido de retirar sua autonomia e torná-lo refém somente dos próprios impulsos. Nesse caso, a condição para o viciado ser feliz é o objeto, para o viciado em jogos é a química gerada pelo jogo, não o jogo como tal. Quando essa disposição do indivíduo chega na intensidade de tirá-lo de si, temos o mesmo quadro passivo do viciado em substâncias químicas. Digamos que o poker viciante se torna uma patologia quando coisas que têm mais valor para o indivíduo foram corrompidas pela experiência do jogo, quando ele se tornou objeto, como se o jogo ficasse menos atrativo do que a descarga emocional que ele provoca.

A diferença apareceria quando a possibilidade sensível do jogo (fascinante e por isso viciante) perde espaço para a anestesia que ele causa (o vício). Considerar este critério, que é muito pessoal, parece ser mais potente do que os alertas, mesmo sendo um caminho difícil. As mensagens fortes da propaganda negativa do tabagismo no verso dos maços de cigarro não provocam nos jovens identificação, pois o fumante não se vê naquela situação precisamente. O garoto que começa com drogas também, dizem tanto que faz mal, mas ele vai lá, experimenta e acha bom. Temos então um problemão!

Ainda que toda mensagem possa ter um efeito, pois entendemos e damos sentido ao mundo por narrativas, o impacto dos alertas podem ser pequenos quando seu teor não sensibiliza mais. Numa sociedade fissurada perdemos a capacidade de sensibilização, por isso nosso vício só pode ser a anestesia.

 

 

Imagem: Placa fixada no cashier do cassino Caesars Palace, em Las Vegas (Naccarato)

Relato de um jogador de pôquer

Conheci o jogo de pôquer como a maioria dos jogadores iniciantes da minha época. Comecei jogando torneios com valores pequenos, perto de casa e sem nenhuma pretensão. Tempos depois, fui aumentando a minha presença nos chamados “clubes de pôquer”. Começava aí o início radical de uma mudança perigosa de hábitos.

Sem perceber, passei a respirar pôquer 24 horas por dia: só queria conversar com quem falava de pôquer, substitui os programas de televisão por vídeos sobre pôquer, troquei os livros de temas diversos por livros de pôquer, troquei a minha confortável e cheirosa cama king size pelas imundas cadeiras das casas de pôquer, troquei a convivência com a minha família e com meus amigos pela convivência com as pessoas que jogavam pôquer, troquei o meu saudável sono noturno pelas horas diurnas mal dormidas. Como se não bastasse, quando não estava nas casas de pôquer, jogava no computador de casa.

Todos os meus exames rotineiros de saúde, sem exceção, passaram a mostrar acentuado declínio. A minha excelente forma física pouco a pouco foi regredindo, a minha alimentação deixou de ser regrada, mas o meu foco continuava sendo o pôquer, a adrenalina que o jogo me proporcionava junto com a ínfima possibilidade de ficar rico da noite para o dia. Isso tudo continuava falando mais alto.

Pois bem. Fui aumentando gradativamente os valores que jogava e troquei os clubes fedorentos pelos luxuosos cassinos. Nossa! Me hospedei em hotéis estrelares, frequentei alguns dos melhores restaurantes do mundo, degustei vinhos espetaculares, assisti shows fantásticos. Vivi uma vida surreal. Mesmo sem ter estudado o jogo (o que foi um grande erro), passei a jogar os grandes torneios do mundo: joguei com muitos que até então só tinha visto nas telas do computador.

Com o passar do tempo, com as longas ausências e sem alcançar os resultados realmente importantes, ou seja, ganhar dinheiro de verdade, os conflitos com a minha esposa foram se intensificando e de nada adiantavam os conselhos que recebia. O meu poder de persuasão era tão grande que, em determinado momento, a minha esposa deixou de me criticar para me apoiar. Hoje consigo enxergar que na realidade ela estava, de forma estratégica, quase que desesperadora, fazendo de tudo para não me perder definitivamente para o pôquer.

Até que um dia a conta chegou. E bem salgada, por sinal. Hoje, vigilante e consciente dos erros cometidos, tento juntar os cacos que restaram de uma escolha de vida equivocada. Voltei a valorizar a minha família, meus amigos, busco retornar às minhas atividades laborais, retornei com a minha atividade física, voltei a comer bem, dormir bem, retornei para o meu mundo, mundo este que nunca deveria ter saído.

Este relato não tem a intenção de julgar ou criticar aqueles que praticam o pôquer, até porque existem pessoas que fizeram fortunas jogando ou explorando o jogo. Simplesmente, comigo, por inexperiência, por falta de estudar o jogo, por falta de sorte ou simplesmente por falta de capacidade, não deu certo. Talvez, como forma de me desculpar com a minha família e meus amigos, tenha resolvido compartilhar a minha experiência mal sucedida. Sinto que seria covardia e egoísmo demais guardar comigo tanto conhecimento e experiência que adquiri por um preço altíssimo.

Portanto, falo principalmente para os mais jovens, para os mais sonhadores, para os mais suscetíveis a promessas de dinheiro fácil e de forma rápida. Não se iludam: a realidade não é bem essa que vocês veem nos canais de comunicação especializados em pôquer. Lá, de um modo geral, só se mostra um lado da moeda. NÃO TROQUEM OS SEUS ESTUDOS OU OS SEUS PROJETOS DE VIDA, nem que seja por um determinado tempo, pela árdua missão de tentar viver como um jogador profissional de pôquer no Brasil. A excelente atriz Lilia Cabral, que interpretou com maestria o papel de uma jogadora viciada em jogos, inclusive o pôquer, disse: “se eu conseguir ajudar ao menos uma pessoa com a mensagem que tentei passar, já me sentiria realizada”. É bem por aí.

 

Imagem: rudall30/shutterstock.com (editada)

O risco do não risco

Não sou o primeiro e também não serei o último a comparar e encontrar semelhanças entre o poker e a vida. Desenvolver habilidades como ler pessoas, identificar padrões comportamentais, perceber que determinadas situações se repetem. No poker e na vida é possível pensar muito além das cartas que possuímos e das cartas expostas na mesa. As cartas na mão são as oportunidades que nos são dadas a cada dia, a cada momento. As cartas na mesa são as incontáveis circunstâncias as quais estamos expostos, seja na vida profissional, afetiva e familiar.

Hoje, quero compartilhar minha visão sobre o risco em nossas vidas, e daquele que talvez seja o risco mais perigoso de todos, o de não querer correr riscos.

Como em um campeonato de poker, quão bom seria esperarmos várias mãos sem jogar até que possamos receber cartas boas? Os mais conservadores diriam que essa é uma forma lucrativa de jogar. E quando receber o tão aguardado par de Ás? Bom, com essa mão, você deveria fazer a jogada correta, conseguir reduzir seus adversários a apenas um, induzi-lo ao erro, e fazer com que a mão termine em all in, em uma situação onde suas chances são de 85% de vitória. Esse seria o retrato da forma mais conservadora de jogar poker.

Sob o ponto de vista do risco, eu diria que evitar o risco, adotando uma postura conservadora, resulta em assumir automaticamente novos riscos, e que é improvável que você consiga eliminá-los de qualquer situação. Então, que riscos você corre em jogar o poker de forma passiva? Corre o risco de ficar muitas rodadas sem jogar, dessa forma perder para os blinds, risco de se tornar previsível, e quando você jogar saberão que tem cartas boas, risco de não conseguir ação nas suas jogadas, risco de ser explorado pelos seus adversários, e principalmente, o risco de não evoluir. Ao jogar passivamente, você deixa as circunstâncias decidirem por você, e sobreviver será pura questão de sorte.

A foto acima representa o meu pensamento. Foi uma situação vivida por mim na WSOP Circuit Brazil 2016, evento Brazilian Storm, que pagou em premiação mais de 1,5 milhão de reais. Estava na bolha do evento, para quem não sabe, é o momento em que resta cair um jogador para que comecem a distribuir a premiação, ou seja, perder nesse momento significa ir embora pra casa sem nada, é uma das piores situações para o jogador de poker. O meu adversário estava na seguinte situação, esperando uma mão boa para dobrar e entrar na faixa de premiação. Entrei na mão para jogar com ele, e como mostra a foto, me envolvi em um cooler, vendo minha quadra de 9 bater o full house do adversário de K com 9. O meu adversário, com a segunda melhor mão do poker, caiu na bolha da premiação, foi embora pra casa sem nada, ou como dizem, foi o primeiro dos últimos, e eu avancei mais 269 posições na faixa de premiação. O que quero dizer com isso? Não adiantou esperar a grande oportunidade de dobrar, que no caso, era o par de KK na mão do adversário, ele acabou perdendo para as circunstâncias.

Não tenho a intenção de defender nenhum perfil de personalidade, mesmo porque acredito que o que nos torna ricos como seres humanos é a diversidade, em todos os sentidos. Vamos ao que interessa.

Somos incentivados desde criança a sermos conservadores. Estudamos nas melhores escolas que nossos pais tenham condições de pagar, ou nas melhores escolas públicas que nossos pais consigam vagas, para que isso nos possibilite passar nos melhores vestibulares, e então ter condições de trabalhar nas melhores empresas, para que isso nos dê uma vida próspera. Em outras palavras, aprendemos desde cedo a viver do depois, o que preciso fazer hoje para que eu possa ter grandes oportunidades no futuro!? E se o futuro não for tão próspero quanto planejávamos? E se no meio do caminho acontecer algo que não podíamos prever? Vivemos a vida nos preparando para as grandes oportunidades, só nos esquecemos de uma coisa, a vida pode não nos dar tantos pares de Áses quanto esperamos, e mesmo que nos dê, sempre há os 15% das vezes em que perderemos, que desperdiçaremos as oportunidades.

É preciso agir, aproveitar cada pequena oportunidade que recebemos todos os dias. Esperar grandes oportunidades não vai garantir o nosso sucesso. Não importa quais são as cartas na mesa, ou no caso, as circunstâncias, isso não podemos controlar ou prever, mas podemos aproveitar as oportunidades que nos são dadas, usar as circunstâncias a nosso favor e garantir uma pequena vitória a cada dia. Toda mão jogada fora é uma oportunidade que deixamos passar.

E então, quais são os riscos de escolhermos viver uma vida “sem riscos”, ou o que eu chamo de viver de forma passiva? Os mesmos de jogarmos poker de forma passiva. Na vida como no poker, ao escolher não correr riscos, você assume automaticamente correr outros riscos. Como o de ficar ultrapassado, não aprender, não evoluir, não chegar tão longe quanto poderia, pensar que nunca terá revés na vida, afinal escolheu não correr riscos, fechar as portas para novas possibilidades, pois acha que as possibilidades atuais são suficientes, e o mais importante, você será sempre refém das circunstâncias, e mais uma vez, ter sucesso no longo prazo será pura questão de sorte.

Você pode me dizer que tem uma família que te dá um suporte, um emprego estável, que é um empresário de grande sucesso, e que se tudo continuar dando certo, conseguirá viver tranquilamente pelo resto da vida. Também vai me dizer que não arriscaria mudar de vida, pois pode colocar tudo a perder. E eu vou então te perguntar, o que vai fazer se perder seu emprego estável? Se as regras da previdência mudarem e você achar que isso te prejudicou? Se a sua empresa não vender mais como vendia por causa da concorrência da China? Quando você ver que não se atualizou mais, que não aprendeu, não evoluiu, e que não sabe fazer outra coisa a não ser o que você faz hoje?

É como perder para os blinds, você vive passivamente, não aproveita as oportunidades que a vida te dá, não aprende, não evolui, e quando não tiver mais o sucesso que tem hoje, vai colocar a culpa nas circunstâncias, na má sorte. Não dependa das circunstâncias, aproveite as oportunidades que a vida te dá, e mesmo que as coisas não saiam como planejado, sempre haverá uma próxima mão, uma próxima oportunidade.

E você, como quer viver, esperando uma grande oportunidade para vencer ou vencer a cada pequena oportunidade? A hora é agora! Vamos jogar?

 

Imagem: WSOP Circuit Brazil 2016, evento Brazilian Storm (D. Rebollo)

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

A imagem no poker e na novela

Qualquer obra de ficção é fruto do imaginário ou é um reflexo dos nossos tempos? Trata-se de ambos? Será que estamos presos a imaginar somente o que está ao alcance de nossas visões de mundo fincadas no agora? Parecem boas questões, mas o fato é que um tema abordado na trama de uma novela se amplia não exatamente em qualidade como nessas perguntas apresentadas, senão precisamente em quantidade.

O termo quantidade diz muito sobre os objetivos de uma novela quando a consideramos como um produto, afinal, embora seja um tipo de atividade artística (que em potencial poderia provocar experiências estéticas interessantes), as novelas se orientam à audiência, e para tanto precisam estar de acordo com uma visão de mundo já aceita pela sociedade, com o que já está naturalizado. Ou seja, a precaução ao apresentar os temas e as mudanças que acontecem na trama em função dessa aceitação são baseadas no apelo que a experiência artística provoca e igualmente na manutenção deste público, que precisa se ver refletido nesse espelho que chamamos de televisão.

Nesse sentido, as novelas são reflexo da própria sociedade que legitima algumas narrativas com as quais se identifica, e num processo cíclico alimenta a trama ao mesmo tempo que é alimentada por ela, quer dizer, vemos nossos ideais na novela da mesma forma que ela nos municia de ideais. O possível problema com isso é que na falta de outras opções, esse tipo de entretenimento massificado passa a pautar os assuntos da sociedade, em parte porque tem uma penetração grande na vida social, mas fundamentalmente porque consagra o que esta mesma população já tem como “normal”.

Grosso modo, duas reações básicas acontecem, quem fica horrorizado ao ver um beijo gay na novela está projetando seu ideal conservador. Aqueles que entendem que é um avanço em relação à aceitação das diferenças comemora igualmente sua visão ideal. De forma alguma estou minimizando o ganho social que a tensão entre conservar e avançar provoca, mas podemos dizer que ambas visões não podem perder de vista que o beijo gay existe e vai se repetir enquanto a humanidade existir. O “susto” ao presenciar essa imagem vem da negação da realidade, como quando um viciado em jogo aparece na tela. Ou seja, o inconformismo provocado pela aparição da jogadora viciada na novela é o indicador de que mexeram num ideal, neste ideal do novo poker esportivo. O medo de que a imagem estigmatizada do poker se confirme pela imagem da novela revela o quanto este susto é concreto, é daí que partem os ataques.

Aparentemente aconteceu uma inversão, a verdade (use o termo com quantas aspas quiser) está na imagem simulada, enquanto que a realidade deixou de ter graça, no sentido que não mais favorece uma experiência estética considerada interessante. Vemos deflagrado algo do nosso tempo, a imagem por vezes toma o lugar da realidade, e é assim com a novela e seu potencial para pautar a sociedade.

A personagem é parte do nosso imaginário sobre o jogador viciado, o estereótipo consagrado. Vale lembrar que é daí também que saíram vários filmes sobre poker que atraíram muitos praticantes para o jogo. O herói de Rounders vive a mesma experiência devastadora do jogo, perde suas economias, a oportunidade de carreira na faculdade e também a namorada, só pra citar um dos filmes mais cultuados pelos jogadores. Se ao final da novela a jogadora viciada conseguir largar o vício, o que é bastante provável visto o arco dramático dessa personagem, o poker estará redimido?

É possível defender a novela levantando a bandeira da liberdade artística, de forma que qualquer intervenção ou imposição do que deve ou não aparecer na trama beira um tipo de censura, mas vejam, não é a própria busca pela audiência que censura a novela? Quer dizer, o que vai aparecer depende do que vai ser mais aceito. Além disso, atacar a novela porque ela mostra o lado ruim do jogo e querer que ela mostre o lado bom é de algum jeito ingênuo. Alguns ataques afirmam que o folhetim televisivo deveria ter o compromisso em também mostrar o lado positivo da atividade, o que é uma justificativa pobre, afinal novelas são consagradas porque a preocupação em tratar qualquer assunto com profundidade e complexidade não é parte principal de seus objetivos. No fundo, esperar que a novela, o programa de auditório, o reality show ou qualquer coisa do gênero apresente uma visão mais elaborada e profunda sobre um assunto é igual a comprometer todas as suas fichas pagando uma aposta pra acertar a broca no river, quer dizer, às vezes bate, mas trata-se de uma exceção.

Ademais, a face positiva do poker não é o assunto da novela, que pelo seu título nos demanda algumas interpretações. “A Força do Querer” nos diz sobre o impulso por vezes incontrolável (a força) do desejo (o querer), o que exprime com certa exatidão o vício. Ao mesmo tempo, a vontade de querer mudar de situação, ou seja, a força de querer largar o vício, fecharia o arco dramático da personagem, como acontece recorrentemente nas tramas. A jogadora perderia tudo no jogo e ao final se recuperaria, curiosamente uma estrutura narrativa idêntica ao aclamado Cartas na Mesa (Rounders, 1998).

Se você gosta de novelas, espero, não é pelo que ela pode produzir de reflexão, mas pelo que resta de expressão artística em sua dinâmica. Se você gosta de poker, espero, não seja pelo apelo de imagem que ele possui, pois com um curto período praticando já dá pra notar que esse apelo se desmancha como a fumaça de um cachimbo. Magritte diria (ou melhor, pintaria) em sua “Traição das imagens” que a imagem do cachimbo não é um cachimbo, para questionar o quão estamos presos à imagem.

A saída presente no imbróglio poker e novela é a oportunidade de perceber as estruturas por trás da superfície onde está a imagem, como fizemos quando deixamos de considerar o poker como jogo de azar. Na medida em que relacionamos mais conhecimentos abraçamos menos definições prontas e podemos tentar mais perguntas no lugar de aceitar a pauta.

 

Imagem: “La trahison des images” (1929) de René Magritte