Call

No centro do clube há uma mesa elevada sobre um palco acima dos olhos, contornada por luzes, aparelhada com cadeiras confortáveis, embaralhador automático, hole cams, diretor e floor, e um dealer comandando tudo. Isso faz com que a mesa não seja vista em sua totalidade, mas apenas em partes por uma grande e crescente plateia.

O efeito esperado é conseguido, o destaque para a mesa principal, e a chance de não vê-la, faz com que todos nutram interesse e queiram assistir e participar. Contudo, nessa mesa jogam poucos, a seleção é criteriosa, é preciso ser convidado, legitimado. Jogadores em alternate raramente são chamados, pois os assentos livres estão reservados. Além do que, nessa mesa apenas se joga de um jeito um jogo previamente combinado, conluio tácito, descarado apenas para poucos que somente por estarem longe o suficiente da mesa, conseguem decifrá-lo.

Para esses poucos, cartas não têm naipe, fichas não têm valor, e fica perceptível que e a cada aposta o pote aumenta, mas ninguém puxa. Assim, todos à mesa são não-ganhadores, o que gera o paradoxo do jogo, onde ninguém pode ser derrotado ou eliminado. Mas há uma escolha, você pode comprar sua entrada na mesa cobiçada, basta pagar mais no rake do que no buy in, o que descaracterizaria o jogo, o que não teria graça, e se mesmo assim você decidir entrar, um pensamento prevalecerá: dar um call que de tão pequeno não tem como não ser dado ou foldar frente a derrota evidente. O que escolher se quem está na mesa nunca perde?

Enquanto isso, o dealer distribui as cartas sorrindo, fazendo parecer que o jogo continua normalmente, com regras que se desconhece, com o mesmo flop de sempre e rodadas que nunca chegam ao river, numa mesa onde o jogo ocorre apenas por encenação.

 

Imagem: Bruno Teramoto (editada)

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