Crônicas

Boitatá, o halloween do poker

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Boitatá é a cobra de fogo que assusta o sertanejo, mito que faz parte do folclore brasileiro, junção dos termos indígenas mboi (cobra) e tata (fogo). Há relação direta entre a lenda e o ambiente, e de algum jeito uma explicação fantástica para o fato que era desconhecido dos camponeses: as queimadas espontâneas que ocorriam nas matas em função dos gases vindos da decomposição de material orgânico.

Na lenda do boitatá, quem tenta queimar a mata pode sair queimado pela cobra, que assombra as pessoas para proteger a floresta. Mais ou menos como no poker, fulano dá aquele call duvidoso com bottom pair, acerta o segundo par no turn e te toma boa parte do stack ao final do river. Ficou queimado? Imagine quando, depois de uma troca de raises e reraises pré-flop, o adversário vai de check-call depois que você manda tudo com KK no flop que trouxe um Ás e duas bananas? O vilão ainda pensa um pouquinho, faz cena e mostra A2off, só pra você lembrar como é ficar queimado.

Queimado pelo bordo boitatá, você se anima pra pegar o parceiro, dando aquele call de 93off “pra acertar”. É quando as bruxas aparecem, nessa dinâmica pra ver quem pega quem, bordos constroem situações onde jogadores queimados vão encontrar o limite de suas realidades, até o ponto de esquecê-las, ou melhor, substitui-las. No online dá pra por a culpa no algoritmo do site, mas ao vivo é o dealer mão de pântano que paga o pato. Poker, por vezes, é uma fauna de halloween, boitatás, bruxas e mãos de pântano, cada qual com seu papel fantástico de explicar o jogo, pois não há nada mais confortante do que acreditar que foi azar, que foram as bruxas.

Contudo, podemos substituir essa ilusão fantástica por algo mais moderno como um sistema? Bem, teríamos que acreditar que há uma espécie de forma de controlar o jogo, onde conseguiríamos traduzir sua dinâmica, algo que conseguisse não nos deixar queimados, que resolvesse confronto e interação através de uma fórmula. É, parece que do mesmo modo não há nada mais confortante do que acreditar que não foi azar, que não foram as bruxas.

O que nos resta? Bem-vindo ao pesadelo do real.

 

Imagem: Antracit/Shutterstock.com (editada)

About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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