Os tipos de jogadores que as mulheres encontram nas mesas

É sabido que há diversas nomenclaturas para classificar os jogadores de poker no que tange ao estilo de jogo. Mas a que proponho aqui é para ilustrar o comportamento dos homens quando há mulheres nas mesas. Algumas meninas podem sentir-se intimidadas em participar de eventos live justamente pelo número reduzido de mulheres. Quero tentar transmitir um pouco da minha experiência.

O pro: serve também para os regulares. Esses pintam um alvo na tua testa no quesito roubo de blinds. Temos a fama de “ultra tight”, então prepare-se para muita ação, principalmente quando estiver no BB. A ideia é que não enfrentarão muita resistência aumentando pré flop, somente quando a oponente estiver no topo do range. Se perceber que um malandro está fazendo isso, 3bet na cachola dele, use da imagem de mulher. Comigo já não dá certo faz tempo, acho que tenho cara de mentirosa ou dou muito tell – o que seria bom se viesse valor para mim com mais frequência do que o Cometa Halley.

O pavão: são uns fofos. Sempre gentis e educados, puxam conversa e tendem a não se envolver em mãos contigo. O fato de serem atenciosos não quer dizer que estão te cantando; alguns homens são por natureza “pavão”, sentem necessidade de se sobressair sobre os demais “machos”, exibindo-se para as mulheres afim de monopolizar a sua atenção. Como eles querem mantê-la na mesa, cuidado redobrado quando estiverem disputando uma mão. Se estão envolvidos, tem caroço nesse angu! Há uma variação desse tipo que tenta fazer charminho ao mesmo tempo em que arma AQUELA trap.

O flopeiro: com esses tu pode tiltar. Pagam os teus aumentos na maldade com quaisquer duas cartas, geralmente baixas, para te quebrar. Com a imagem “ultra tight” da mulher o plano é acertar um board baixo, que não conecte com o range da agressora. Mesmo se não acertarem, acreditam que podem puxar o pote blefando. Já ouvi falinha como “vejamos se eu consigo quebrar o teu par”. Pior é que conseguiu, call com J2s, flush runner runner. Eu tinha QQ. Maldita memória de elefante!

O tiozão: não se engane, não tem idade. São indiferentes a nós. Muito limp/call, de AA a 54. É um tipo de flopeiro, só que passivo pré flop. Quando betam ou donk betam, pode crer que acertaram. Cuidado quando tomarem 3bet. Perdi um pote grande com AQo por causa de kicker (o indivíduo limpou AK). Todo castigo para quem “limpa” AK é pouco, mas não foi dessa vez…

O neanderthal: ao contrário do que afirma a comunidade científica, eles não estão extintos, creia. É uma espécie que acredita que o último lugar do mundo em que uma mulher deve estar é numa mesa de poker. São grosseiros, mal educados e podem chegar a ser desrespeitosos. Infelizmente, já tive algumas experiências. Ouvi coisas como “gosto de jogar contra quem sabe, não com quem só enfeita a mesa”. O fato é que para eles é inaceitável perder para uma mulher. Eu acredito que a melhor resposta seja na mesa, jogando e tirando as fichas da criatura. Mas se as indiretas virarem diretas e ultrapassarem o teu limite de tolerável, peça para que o dealer chame o floor/diretor de torneio e explique a situação. O poker é antes de tudo um evento social, deve ser divertido e prazeroso. Não é justo que tirem isso de você ou de qualquer jogador. A boa notícia é que são burros e farão de tudo para te tirar da mesa, uma ótima oportunidade para fazer fichas. Aconselho que apostem por valor contra esses oponentes porque, minha amiga, eles vão te pagar, ahhh vão!

O marido: para os casais, parceiros no poker, ocasionalmente cairão na mesma mesa. Aqui és tu quem manda. Pensa nisso como uma extensão da tua casa. Se ele for do tipo rebelde, nada que uma noite no sofá não resolva. “Meu marido. Meu amor. Encare isso como licença poética”.

O restante: quer suas fichas, como os anteriores.

O live para mim é diversão, meu momento de descontração depois de uma semana de trabalho, de rever os amigos, de dar e levar bads e rir em ambas as situações. Convenhamos, a variância no live é absurda e fazer volume é difícil. Então, divirta-se!

 

Imagem: Francesco Abrignani (editada) / Shutterstock

O saldo da WSOP 2014

Chega ao fim (ou quase) a WSOP 2014. Como espectadora pude perceber a invasão de brasileiros na Sin City, o que é muito bacana pois nos dá uma ideia da proporção que o Poker está tomando no Brasil. Porém há dois fatos, ou melhor, personalidades que se destacaram: Daniel Colman e Bruno Politano, o Foster.

Daniel Colman protagonizou uma polêmica no Big One for One Drop, evento com buy-in de um milhão de dólares, após vencer Daniel Negreanu no HU e sagrar-se campeão. Sua recusa em dar entrevistas somada a declaração justificando a mesma (que pode ser conferida neste link, matéria do Pokerdoc), foram mais emblemáticas que sua vitória.

Fato que me levou à uma reflexão, pois sou uma apaixonada pelo Poker. Isso nunca me impediu de ter uma visão crítica, tampouco de tomar atitudes afim de ao menos tentar contribuir para uma mudança positiva no que acredito ser necessário. Que o Poker é um universo ainda majoritariamente masculino, é sabido. Falando muito honestamente, me incomoda a pouca representatividade feminina e passei a questionar sobre os motivos para tal. Tentar buscar respostas se mostrou mais que improdutivo, assim nasceu o Queens of Poker. Ele ainda é um “bebê”, criado há poucos meses, mas tive gratas surpresas quanto ao Grupo: pessoas que acreditaram no nosso projeto e a união das gurias, sempre super receptivas para conosco e principalmente, torcendo umas pelas outras. Isso muito me comove, se tratando de uma atividade individual e altamente competitiva.

O Grupo demanda trabalho e tempo, que é muito restrito para mim, além dos parcos recursos que disponho. Sempre tive em mente a inserção e crescimento das mulheres no Poker, com o cuidado de não virarmos uma “distribuidora de brindes”. Queríamos algo que agregasse e criasse oportunidades. Com isso em mente, batemos de “porta em porta”, onde encontramos o “sim”, o “não” e as vezes nem a resposta. É bem triste esta última, pois tentamos fazer algo diferente, visando o crescimento do esporte em um público mais que promissor. Uma resposta é mais que gentileza, é consideração, humildade e respeito.

Sou muito grata a minha amiga Mercedes Henriques que mais que contribui, sem ela este não seria possível, ao Betmotion, nas pessoas do Leonardo Baptista e Fabrício Murakami que acreditam em nosso projeto e o tornaram possível. Khatlen Guse e Marco Naccarato são dois presentes que o Poker me trouxe, obrigada amigos! Tio Max, agradeço pelo espaço que nos cedeu e por proporcionar a mim, uma jogadora amadora, disputar eventos que minha bankroll não permite. A vocês amigos e parceiros do Poker que nos ajudam na divulgação do Queens of Poker, muito obrigada.

Dito isto, gostaria muito que Daniel Colman tomasse uma atitude afim de mudar o que acredita estar errado no Poker. Se eu posso fazer algo, ele com mais recursos e sob todos os holofotes do Poker, pode fazer muito mais. Acredito que atitudes falam mais que palavras e não gostaria que uma discussão tão pertinente quanto a levantada por ele findasse com uma imagem, a imagem de um homem sobre uma montanha de dinheiro com a mensagem “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”.

Deixando o “lado sombrio”, Bruno Foster: que belo presente nos deu. Empunhando nossa bandeira com orgulho de ser brasileiro, dividindo conosco esta grande conquista, o primeiro brasileiro na FT do Main Event da WSOP. Deste show de poker e patriotismo, obrigada! Obrigada principalmente por mostrar o “lado bom” do Poker.

Publicado originalmente em Queens of Poker. Foto: Naccarato

Credibilidade e competitividade das mulheres no poker

Fui desafiada a escrever sobre a competição feminina versus a participação da mulher no poker. Originalmente não é propriamente um desafio. É pura e simplesmente uma reflexão, mas para escrever sobre isso buscando de fato a verdade, é necessária uma análise sobre a tal “competitividade feminina”.

Na minha opinião esta é sinônimo de um monstrinho que habita nosso subconsciente, chamado machismo. Explico: somos tão auto críticas, baseadas em padrões estéticos inalcançáveis e machistas, que a comparação com as demais mulheres passa a ser uma busca de alto afirmação.

Sejamos honestos, vivemos em um mundo competitivo e o poker é sinônimo deste. Então por que a competitividade feminina não contribui ou não é responsável pelo aumento do field feminino?

Sinto muito, mas não tenho esta resposta.

O que posso falar é que me confronto com dois extremos, principalmente jogando live.

Encontro mulheres que torcem umas pelas outras nos torneios, mesmo sendo completas desconhecidas. Há outras que parecem ter como objetivo eliminar todas as demais do evento à revelia do montante muito maior de fichas disponíveis dos homens, sempre maioria esmagadora do field.

Acho isso muito triste por dois motivos. Primeiro, as do segundo time jogam mal, já que miram somente nas poucas jogadoras dos torneios e pagam com mãos e posições ruins afim de entrar em embate com as referidas. Segundo: somos tão poucas que não se justifica tal atitude. Não quero criar nenhum clube da Luluzinha, o Queens of Poker tem como objetivo apoiar as jogadoras e não compactuar com um acordo silencioso de collusion. Acredito que o bom resultado de mulheres beneficia a todas, criando respeito pelas jogadoras e estimulando mais mulheres a prática do esporte.

A verdade é que a mulher eleva o nível do ambiente. Com as mesmas presentes os homens são mais comedidos nos palavrões, nas falinhas ofensivas e tantas outras atitudes gratuitas e desnecessárias a prática sadia e prazerosa do esporte.

Não me sinto confortável em jogar live sem a companhia do meu esposo, justamente pelo número reduzido de jogadoras. Sou agraciada por tê-lo como parceiro, mas e as que não possuem um ou os respectivos não são praticantes do esporte?

Há homens que são desrespeitosos, ainda mais quando perdem para mulheres e isso piora quando estão desacompanhadas, já fui testemunha disso e ouvi vários relatos. Torneios podem adentrar madrugada e a mulher fica mais exposta a violência física e verbal em um ambiente tão masculino.

Os jogadores de poker convivem com o preconceito. As jogadoras convivem com preconceito duplo, por jogar poker e por ser mulher, jogadora de poker.

Não é à toa toda a campanha para aumento do field feminino. A mulher dá mais credibilidade ao poker. Mas empresários do ramo, por favor, não usem imagens de mulheres seminuas ou em poses sensuais em seus anúncios. Se querem de fato o aumento deste público, esta é a pior linha de marketing a se seguir.

Quem sabe utilizando imagens de mulheres jogando atraia mais jogadoras (independente se pela credibilidade ou competitividade feminina) e, por tabela, mais homens. 😉

Foto: Shutterstock (editada).

Poker, mulher e preconceito

Uma das mais fantásticas características do Poker é a inclusão. Qualquer pessoa, de variadas idades, de ambos os sexos, independente do grau de instrução, com ou sem deficiência física, pode praticar o esporte. Dá para mensurar o quão democrático isto é?! Apesar do grande apelo desta, vemos uma maioria esmagadora de homens, nos eventos live e online.

Acredito que o número de mulheres aumenta a cada dia, mas ainda assim a disparidade é absurda. Vamos aos números:

  • De acordo com o site IG: “O sexo feminino representa 5% dos jogadores.”
  • No ranking geral do Main Event do BSOP 2013, a mulher melhor colocada foi Simone Zanetti na 57ª colocação. A próxima jogadora melhor colocada no ranking foi Patricia Kim Yamashita, na 91ª colocação.
  • Ainda no ano de 2013, não tivemos nenhuma mulher em FTs do Main Event.
  • Até hoje, tivemos uma mulher campeã de um Main Event do BSOP. Gabriela Belizário venceu a etapa de Belo Horizonte em 2008.

Notório que a pouca representatividade das mulheres decorre do pequeno número de jogadoras. Fica a pergunta: Por que há tão poucas mulheres praticantes de poker? Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens. Por exemplo, na relação de pessoas que conhecem que gostam de vídeo game, a maioria não é de homens? Nos churrascos, as esposas/namoradas não torcem o nariz quando o truco começa?

Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina. Qual a opinião de vocês?

Em contrapartida, as mulheres que gostam de jogos e querem jogar poker tem dificuldade em encontrar pessoas para conversar/aprender. O preconceito com as jogadoras também é grande. Vejam o depoimento de jogadoras:

“Nunca passei por situações constrangedoras ou explícitas de machismo. Mas já tomei ‘falinhas’ desnecessárias e com segundas intenções. Algo insinuando eu ser fraca de poker apenas por ser mulher… falinha _ uhmm hoje está fácil… só mulheres na canhota ‘vo’ forrar…” Jessica Camargo

“O mais absurdo que ouvi foi um: “lugar de mulher é na cozinha, não é em mesa de poker não”. Aqui, eu sofro muito machismo no live sim. E sou muito caçada nas mesas… Mas isso acaba sendo mais motivador ainda. “ Luany de Macêdo

“Infelizmente ainda existe um pouco de machismo no poker – as mulheres, no live, ou são “caçadas” ou são “respeitadas” além do normal. Mas confesso que não acho ruim esse machismo no poker (no live uso a imagem de mulher para ser lucrativa).” Adriana Maia

Posso parecer controversa, mas sou contra torneios exclusivos para mulheres ou mesmo grupos como o nosso, onde homens não são aceitos. Acredito que essa separação de gênero vai contra o espírito do poker, como esporte democrático. Mas analisando como mulher, é deveras intimidador chegar num salão, onde no máximo 5% das pessoas são mulheres, sentar, jogar, calcular as fichas no pote, ouvir falinhas por ser mulher, ser subestimada (ok, esta parte acho vantajoso rsrs) encarar os outros jogadores (HOMENS) e ser encarada pelos mesmos.

Se é difícil para quem joga, é ainda mais para as jogadoras iniciantes.

No atual quadro é mais do que válido, são necessários torneios, teams, grupos, promoções e o que mais for ajudar a aumentar em quantidade e qualidade o field feminino. O grupo Queens of Poker visa ser um local democrático para que todas as jogadoras, em diferentes níveis de aprendizado, tenham um espaço só delas, mas sonho com o dia em que estes não terão mais razão de haver e que queens e kings dividirão o mesmo espaço, com igualdade e respeito.

Publicado originalmente em Queens of Poker.