As duas pontas do poker: Libratus e William Kassouf

O termo duas pontas, no poker brasileiro, é o apelido para o open-ended straight draw, a chamada para completar uma sequência que precisa de uma carta por qualquer um dos lados. Numa abordagem mais abstrata, também podemos imaginar uma linha ou régua onde num extremo está o jogo puramente matemático e do outro lado estão os aspectos psicológicos presentes no poker. Diametralmente opostos, a forma matemática seria representada pelo computador Libratus, a inteligência artificial que “aprendeu” e venceu os humanos, e em oposição, o controverso jogador britânico William Kassouf representaria as estratégias de ordem emocional.

O computador Libratus, batizado com uma expressão do latim que significa equilibrado, desequilibrou a disputa humanidade versus inteligência artificial, (ou Brain vs. AI como ficou denominado), levando a melhor de lavada no desafio contra quatro jogadores profissionais durante o mês de Janeiro deste ano, onde jogaram 120 mil mãos. A máquina foi desenvolvida sobre algoritmos capazes de interpretar situações e criar estratégias para sair delas, e por isso “aprendeu” com os jogadores humanos como consertar seus próprios erros.

No vídeo abaixo, do canal do profissional Doug Polk, os quatro jogadores falam sobre suas experiências ao enfrentar Libratus, e levantam questões como a melhora do computador durante a disputa, algumas mãos muito estranhas, o fato de terem subestimado a máquina e a impossibilidade de parar o jogo quando não estão praticando seu A-game. É interessante e vale a pena conferir, além de estar legendado (embora um trecho do vídeo parece se repetir ao longo dos 20 minutos):

O jogador catarinense Alexandre Santos, do blog Um Out no River, discorreu sobre o assunto respaldando a opinião de Sean Chaffin, do Pokernews: o computador não tem medo do risco, enquanto que os humanos ponderam sobre isso. Contudo, o risco evidente nessa disputa em específico não parece ser exatamente a perda financeira (o dinheiro em jogo era fictício, os stacks reestabelecidos a cada mão etc.), senão a honra ou qualquer outro aspecto moral. Portanto, o que parece sobrepor a questão do risco é o fato de que Libratus não se abala como os outros jogadores durante a disputa, e isso pode ser determinante para o desfecho, afinal o computador não oscila emocionalmente.

E falando em jogo emocional, na outra ponta dessa linha imaginária estão as estratégias de base psicológica que são o diferencial de William Kassouf, que obteve seu melhor desempenho na WSOP em seu deep run no Main Event do último ano, sendo eliminado na 17.a posição e embolsando pouco mais de 338 mil dólares pelo feito. A caixa de ferramentas de Kassouf é uma mistura de falatório e longas pausas de tempo, que desestabilizavam seus oponentes e traziam como resultado algum tipo de vantagem para o britânico. Contudo, nem por isso podemos considerá-lo um dos melhores jogadores do mundo. O que é certo é que contra determinadas pessoas, seu estilo falastrão cria condições favoráveis de jogo pra si.

O paradoxo interessante dessa linha imaginária se apresenta justamente na oposição entre humanos e máquinas, psicologia e matemática, emoção e razão. O pokerbot calcula num nível inalcançável para humanos, e jogadores de pele e osso perdem porque tentam imitar o robô, pois buscam a matemática perfeita e inexplorável para vencer a calculadora no longo prazo (um verdadeiro trabalho de Sísifo). Enquanto o humano que tenta não imitar os humanos, pois cria uma maneira própria de jogo, vence justamente porque apresenta a si mesmo, e contudo, vai perder na maioria das vezes, pois o jogo se trata de muitas derrotas e algumas vitórias, e seu repertório pode ou não ter efeito.

Uma conclusão possível é a de que o eixo entre Libratus e Kassouf não exista, pois há inúmeras outras formas de aprendizado possíveis além das duas pontas, um combo-draw cheio de variantes e com menos definições. Não há nada mais sólido do que a boa matemática aplicada e o nervosismo ao blefar, elementos que são facetas entrelaçadas de um todo, e não o inverso.

É certo que Kassouf seria derrotado pelo computador, também de lavada, mas não é esse o ponto se necessariamente jogamos apenas contra humanos. Ademais, as realizações matemáticas alcançadas por Libratus podem abrir novas possibilidades de saber, ampliar o conhecimento sobre o jogo, e até descrever o que há de lógico numa jogada maluca e carregada de impulso do seu adversário. Nesses termos há um caminho potencialmente mais proveitoso do que tentar derrotar o computador.

 

Imagem: Shutterstock.com (editada)

O desacordo do acordo no poker

Quando há disposição para um acordo de premiação em torneios, cada jogador recebe duas cartas, uma de naipe vermelho e outra de naipe preto, escolhe uma delas e entrega facedown ao dealer. Carta vermelha é não para o acordo, preta é sim. Prontamente o dealer embaralha as cartas escolhidas e as abre duma vez, e só teremos acordo se todas forem pretas. Este é o procedimento ideal dessa situação, pois não temos assim a exposição dos jogadores. Bem, esse é o cenário idealizado, na prática raramente se dá desta forma. A coisa é decidida no papo, e encontramos recorrentemente o jogador piadista que já pede acordo quando a mesa final se forma, ou não raramente os que optam por garantir uma grana, e a turma do “acordo na cadeia”, dentre muitos outros.

Acordos são uma face comum do poker, principalmente nos clubes que organizam torneios em limites baixos. Se pegarmos as coberturas noticiadas nos sites veremos num relance que muitos deles terminam em acordo, seja no HU, 3-handed ou até envolvendo cinco ou seis jogadores. Fora da curva foi o acontecido há alguns dias num clube paulistano, na reta final do torneio regular com 15 mil reais garantidos, doze dos 66 entrantes decidiram dividir igualmente o prizepool que estava destinado originalmente aos sete primeiros. Esse foi o fato que pautou discussões nas redes.

O acordo dá a oportunidade aos frequentadores dos clubes de poker de minimizarem suas perdas ao longo do mês, o que para jogadores que estão periodicamente batendo cartão nos clubes é a possibilidade de poder continuar jogando. Pegar um prêmio oito vezes maior que o buy-in é igual a jogar cinco ou seis torneios parecidos no mês. Em algum sentido é como sustentar a própria diversão.

Quem tem um olhar mais matemático ou profissional para o poker pode defender o acordo justificando que está fazendo algo lucrativo ao aceitar o deal, ou pelo menos realizando a média de ganho que só vai aparecer lá na frente, no longo prazo. Desde que, claro, seja um acordo vantajoso.

Alguns defensores do não acordo entendem que numa situação como esta, onde doze jogadores repartem o prizepool antes de estourar a bolha, a competição se corrompe, há um dano ao desenvolvimento do esporte. E aqui vale uma ressalva, se por algum motivo é possível considerarmos o poker como esporte, é porque o esporte está inserido no poker e não o inverso. Poker é tão peculiar e multifacetado que quando tentamos encará-lo como esporte, algo escapa, e os acordos são um desses aspectos peculiares que diferenciam o nosso poker. Ademais, há de se observar que o esporte de fato talvez aconteça apenas numa esfera mais profissional, a grande maioria praticaria uma “atividade esportiva”, taí uma diferença importante. A pelada de domingo, mesmo quando muito organizada, está mais para brincadeira ou entretenimento do que o caráter sério empregado nas competições profissionais. O que está em jogo em cada atividade é diferente, pois o objeto é diferente mesmo para aqueles que encaram a diversão de forma mais séria.

É possível fazer um lista sem fim de definições para cada um desses olhares, uma sequência de cagação de regras, mas espero que não seja esse o ponto, pois estaríamos elencando idealidades, ou visões projetadas ideais, correndo o risco de substitui-las pela realidade.

Se fosse possível um acordo de opiniões sobre o assunto, aos moldes do descrito no início desse texto, mesmo se tivéssemos apenas cartas pretas apresentadas, teríamos um desacordo, pois cada carta pode carregar consigo um ideal projetado diferente. Por isso, se o acordo é bom ou não, depende de como projetamos nosso olhar. Com uma certa distância desses ideais e disposição para enxergar além disso, teríamos, concordem ou não, o desacordo.

A condição de desacordo é a que propicia o acordo, e assim sucessivamente. A tensão que há nesse ciclo é deveras mais interessante.

 

Imagem: M. Naccarato

A experiência do jogo

Exatos meio-dia e cinco, minutos após a sirene da obra soar, uma dúzia de pedreiros se aglomeram em torno de uma mesa improvisada. Um deles caminha com pressa berrando “proxim’é-eu”, outro abre a caixa surrada e retira as peças, pedras brancas desbastadas, de barulho peculiar, quem jogou dominó sabe o quanto. Em duplas, as partidas são rápidas por força do hábito, enquanto um deles mal assenta o dobre de quina no madeirite rosa, o adversário já encaixa uma peça na sequência, a gritaria começa, gargalhadas ecoam entre colunas e vigas da construção, riem uns dos outros de suas desgraças e alegrias lúdicas. Quem fica de fora não se diverte menos, escarnecem os perdedores, zombam mesmo à distância, como faz o ambulante que empurra um carrinho de mão com mandioca e banana, recostado na mureta para assistir ao jogo, para também se perder nele. Naquele intervalo de tempo, a construção, fruto da capacidade humana, é desconstruído pela experiência do jogo, fruto da imaginação.

Sobre a mesma mureta, capacetes empilhados uns nos outros e o ruído das peças de dominó no madeirite lembrariam pilhas de fichas para qualquer rato de feltro. Não há muretas no fundo do bilhar que abriga as duas mesas de poker que amortecem stacks coloridos todas as terças-feiras, a sede da sede de jogo que atravessa a madrugada. A troça da parceirada tem tanto lugar quanto as bad beats, o river é quase sempre horrível, o dealer é o bode expiatório do crime que não cometeu, cada assento conforta um jogador que o baralho desconforta. A garçonete sorri sem entender o porquê.

No caxetão da periferia, uma vez por mês, depois de duas avenidas grandes, três quebradas, quatro caras na porta confirmam se ainda há lugar. Quinhentos reais é o preço da brincadeira, seis pangarés por mesa num salão com sete delas. Salão vizinho a cancha da bocha, recreação dos de mais idade, um dos mais antigos jogos do ocidente. Do outro lado da cidade não vale grana, só honra, um velhote ajeita o quipá, dá corda no relógio, na maioria das vezes três, excepcionalmente quatro, são os tabuleiros dispostos no corredor vizinho a livraria do Conjunto Nacional, na Paulista. Curiosos acompanham intrigados, uma sequência rápida de movimentos, e4, e5, Nf3, Nc6, Bb5. Espanhola de novo! Diz irritado o parceiro.

Nos jogos o tempo não passa, se enganam aqueles que pensam que jogar é um passatempo, jogar é perder-se nele, a experiência do eterno dentro de uma fração de tempo.

 

Imagem: Jogando dominós em El Machuelitto, Porto Rico. Jack Delano em dezembro de 1941

Negreanu, Moneymaker e o Poker Hall of Fame

O Poker Hall of Fame foi concebido em 1979 por Benny Binion, dono do cassino Horseshoe e criador da WSOP, com o intuito de preservar os nomes dos grandes jogadores de poker, mas principalmente para servir de atração turística em seu próprio cassino. A propaganda criada por Binion, uma parede com as fotos dos ilustres jogadores, é possivelmente mais representativa hoje em dia. Quando o grupo Caesars Entertainment comprou os direitos da WSOP em 2004, levou junto o Hall, e anos mais tarde modificou o processo de nomeação para uma votação online, com o intuito de aumentar o interesse do público na premiação. Hoje em dia a votação online é um dos principais definidores de quem serão os indicados que disputarão as duas vagas anuais para o Hall, e é daí que surgiu a crítica de Daniel Negreanu ao ver Chris Moneymaker entre os dez finalistas neste ano.

A defesa de Negreanu, uma análise suficientemente criteriosa aponta algo relevante. Mortensen, Devilfish, Todd Brunson e Chris Bjorin, seriam mais merecedores por suas trajetórias na história do jogo e por preencherem os requisitos básicos estabelecidos na regra. E, além de citar diversos outros nomes que por serem menos conhecidos acabam ficando de fora da votação, seu alerta é para Chris Moneymaker, que estaria aquém dos critérios enquanto jogador.

Para Negreanu, o Poker Hall of Fame não deve ser confundido com a fama, os indicados devem preencher as exigências de acordo com a regra, não basta ser um “embaixador” do jogo, embora hoje o termo seja discutível. Ser embaixador está mais para representar um site de poker do que propriamente o poker.

Qualquer regra evolui para dar conta da maioria das situações, mas nem sempre. A votação online aberta ao público iniciou-se somente em 2009, modificando a regra. Bem como a limitação de idade mínima, também chamada Chip Reese Rule, outra alteração que só foi criada em 2011, adicionada para barrar jogadores muito jovens que eram selecionados pela votação dos fãs, tais como Phil Ivey, Tom Dwan e, veja só, Daniel Negreanu. A partir daí, nomeados seriam elegíveis para votação apenas se tivessem 40 anos completos, tal como Chip Reese quando recebeu o pertencimento em 1991.

A principal defesa para a aceitação de Moneymaker está no chamado Boom do Poker, quando em 2003 o jogador ainda amador ganhou a vaga para o ME da WSOP através de um satélite online e tornou-se campeão, trazendo um grande contingente de novos jogadores para o poker nos anos seguintes. Moneymaker, um contador de Tennessee, personificou o sonho. De certo modo preencheu a lacuna de uma mitologia pronta que aguardava um herói. A projeção do feito é anterior ao protagonista no sentido que havia um desejo coletivo construído pelo próprio poker, um sonho que nos é pautado.

Para Negreanu o fato da vitória de Moneymaker ter sido tão determinante para o desenvolvimento do poker moderno não é suficientemente maior do que os critérios do Hall. É preciso votar conforme a regra. Mas curiosamente, não-jogadores podem ser indicados por terem contribuído para o crescimento e sucesso do jogo, contudo, Moneymaker é jogador.

No fundo, a disputa pelo pertencimento ao Poker Hall of Fame revela um mecanismo de legitimação que nos deixa uma reflexão, o incômodo é ter Moneymaker como membro do Poker Hall of Fame ou seu pertencimento seria uma maneira de desprestigiar quem já está lá?

 

Imagem: Shutterstock.com/Banana Republic Images (editada). Fontes: Beat the Fish e a história esquecida do Poker Hall of Fame, Pocket Fives, Pokernews, Fullcontact Poker, WSOP.com e Cardplayer Brasil.

A distopia do poker

Enquanto as cartas do flop são dispostas sobre o feltro, um pequeno feixe de raios laser atinge o bordo ressaltando a silhueta dos naipes, um painel holográfico flutua sobre a mesa mostrando aos espectadores estatísticas em tempo real. Um dos jogadores arremessa um punhado de fichas, que ao passarem pela linha de apostas são imediatamente contabilizadas, pois microchips nanométricos no interior das fichas permitem a leitura dos valores, dispostos prontamente no painel flutuante. A era da tecnologia está em seu ápice e faz do poker um espetáculo visual para além do próprio jogo.

É a feature table do Main Event da nonagésima edição da World Series of Poker, que traz uma novidade em relação aos anos anteriores. A falta de prestígio do tradicional torneio entre humanos precisava de um incremento tecnológico ao mesmo tempo que queria ressaltar as características humanas no jogo, e para tanto, os mesmos nanochips das fichas foram colocados dentro das cartas, de forma que fica possível saber a sequência das que serão distribuídas, queimadas e abertas antes mesmo do início da mão. Tal recurso pode ser visualizado apenas pelos espectadores através de uma espécie de aplicativo de celular chamado Fate.

Para quem assiste ao espetáculo sabendo antecipadamente bordo, queimas e mãos dos jogadores, a expectativa acaba sendo por ver de que forma cada um vai lidar com a situação, como vai escapar, extrair valor, como se comporta, que tipo de loucura vai fazer estando drawing dead.

Embora Fate tenha chamado certa atenção, ele não foi suficiente para recuperar o prestígio do tradicional ME de jogadores de carne e osso, afinal numa sociedade tão tecnologicamente avançada, o momento maior da Série estava reservado para o evento #100, o derradeiro, um torneio de autômatos que disputam entre si o bracelete de campeão e onde a cada corte do baralho, duas dezenas de bordos são batidos numa mesa digital a cada mão jogada. É muito mais ação, os organizadores dizem, mais bads, mais velocidade, mais mãos por hora, mais tecnologia, mais show…

O recém lançado super-robô Oedipus, embora estreante, era o favorito para ganhar o Evento #100 da WSOP, e tem uma história peculiar. Oedipus é a junção de dois dos mais poderosos softwares de jogo, King, o robô norte-americano desenvolvido para ser imbatível, e Iokaste, que é o maior banco de dados de mãos da história do poker, fruto de um consórcio de empresas alemãs que detém o armazenamento de todas as mãos jogadas em todas as plataformas de poker online desde o início do século. Mas há um porém, a empresa Oracle, desenvolvedora de Fate, prestou um tipo de consultoria alertando a equipe de Oedipus que um erro relacional em suas linhas de código poderia fazer com que ele destruísse seu predecessor King e na sequência incorporasse Iokaste, além de apresentar possivelmente algum tipo de defeito se permanecesse em rede por um longo período. Sem considerar isso como um problema e no afã de ganhar a competição, a equipe que desenvolvera Oedipus o retirou da rede para concluir os trabalhos.

Jogando 12 horas por dia em rede, Oedipus não corria o risco de apresentar o problema descrito pela consultoria, e como favorito, não encontrou barreiras para passar pelos sete primeiros dias de disputa, alcançando a mesa final líder em fichas. Na FT, a supremacia do super-robô ficou evidente, Oedipus eliminou um a um de seus adversários e após quase duas dezenas de horas o torneio se afunilou e seu rival no heads-up final era o programa americano King. Fatalmente o destino se realiza, em rede por um longo período, e confrontando o robô que serviu de base para sua criação, Oedipus processa as jogadas com tamanha velocidade que provoca um curto circuito em King, destruindo-o.

Oedipus é declarado vencedor, mas só receberá o bracelete se derrotar o campeão do ano anterior alguns meses depois, em Novembro, concomitantemente a disputa do November Nine. Nesse meio tempo a equipe de Oedipus o coloca em diversas simulações de jogo, e aproveita o recém concluído banco de dados coletado de Fate para incrementar sua capacidade de leitura do jogo. Frente a essas informações, o super-robô começa a entender e simular o comportamento humano considerando o blefe para além de um cálculo previsto, ou seja, Oedipus aprende a blefar como humanos, mesmo quando a situação matemática não favorece a jogada. Basicamente, ele começa a usar o blefe mais frequentemente, como recurso para reverter spots desfavoráveis.

Na data da final mano a mano, ou bit a bit, Oedipus enfrenta o enigmático robô Sphinx, último campeão e conhecido por apresentar jogadas fora dos padrões, overbetando muitos potes e fazendo com que seus adversários tenham que arriscar todo seu stack na quase totalidade das mãos. Mas logo nas primeiras mãos Oedipus mostra ao que veio, e interpretando a estrutura das overbets de Sphinx, constrói um contra-ataque específico para cada um dos 20 bordos que a mesa digital ofereceu, mesclando mais blefes às jogadas. Sem conseguir assimilar as respostas, Sphinx entra em colapso, se autodestruindo.

Oedipus ganha seu bracelete e o consórcio alemão decide que Iokaste deve se juntar ao vencedor, sendo incorporada a Oedipus e consolidando o maior supercomputador da história. Mas a previsão de Oracle se realiza, o defeito previsto pelos consultores acontece e Oedipus fica “cego”, ou seja, não consegue diferenciar mais seus adversários autômatos dos humanos, e como o super-robô foi desenvolvido para o jogo tendo como premissa a eliminação dos adversários, acabou reproduzindo o comportamento das competições para caçar a espécie humana, entendendo-a como seu adversário mais direto. Tal qual a pirâmide muito conhecida no poker, a humanidade foi subjugada pelas máquinas, aliás por uma rede de máquinas comandada por Oedipus, o robô que aprendeu a blefar, que aprendeu o comportamento humano.

No November Nine do ano 2.059 a inteligência artificial tomou o lugar dos humanos, exatos 200 anos após a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, comprovando que não é o jogo matemático e inexplorável que vence, mas o jogo que se adapta.

 

Imagem: Grande Esfinge de Tanis no Museu do Louvre (Naccarato)

A bolha estourou para Fedor Holz

Um dos sentidos da palavra aposentar é abrigar-se, alojar-se. Contudo, em seu entendimento mais comum está relacionada ao ato de suspender suas atividades de trabalho. Enfim, aposentar é encerrar a carreira, mas o que o jovem vencedor Fedor Holz parece propor com sua saída é a primeira ideia, ou seja, sua retirada é a opção de abrigar-se da rotina de jogador profissional, podendo assim jogar apenas as 400 horas anuais de poker que lhe agradam, conforme afirmou em entrevistas. De certo modo, abrigando-se, ele abriga em si outro sentido dentre infinitos possíveis.

Embora somente o tempo vá dizer, não se parece com uma aposentadoria de fato. Em entrevista ao Pokernews, Holz considera o poker uma atividade individualista e deseja fazer algo de mais útil para as pessoas. O alemão de 22 anos declara gostar do poker, mas não vê na atividade algo que deseja fazer para o resto da vida, e quer se retirar para empreender, se considerando agora um businessman. Ele explica melhor sua escolha no início do Life Podcast de Joey Ingram.

A retirada de Holz se tornou um grande assunto nas mídias a exemplo do que já ocorreu com outros jovens campeões do poker como Eastgate e Heinz. Sua declaração abriu espaço para alguns vereditos que vão desde o já conhecido “parou no auge” até certo descontentamento por sua decisão prematura, afinal ele poderia alcançar muito mais, correr atrás de recordes e braceletes e assim representar mais e melhor o poker.

Entre a ideia de “quase afronta” e de “merecimento”, o que estrutura esses discursos fica num espaço previsto de entendimento, preso a um eixo onde só é permitido se posicionar desde que se jogue o jogo, ou melhor, onde o jogo é o balizador de qualquer pensamento. Ele deve continuar porque é isso que todos buscam no poker (é quase uma afronta a aposentadoria), ou deve parar porque é válido e a grana o permite (atingiu seus objetivos no poker e é merecedor dessa recompensa).

Um desafio interessante seria o de ficar distante o suficiente da questão para perceber essa estrutura, e assim tentar escapar dessa dicotomia. Olhando de longe percebemos mais coisas, e a qualidade da escolha ganharia um critério próprio e não externo, não é a grana nem o sonho que condicionariam a decisão de Holz, não é o merecimento e nem a busca que pautariam os comentários. É como quando a bolha do torneio importante estoura, onde alguns ficam felizes por estar na grana enquanto outros apenas pensam na vitória.

A bolha estourou para Fedor Holz, e ele pode se distanciar (ou abrigar-se) para assim perceber melhor, ou pode fazer parte de outro eixo estrutural, o da catequese do empreendedorismo, que pode ou não entender o poker como “útil”.

Talvez Holz tenha passado os últimos anos de poker fazendo o que poucos fazem, para agora fazer o que poucos entendem. A próxima bolha dirá.

 

Fontes: Blog Sergio Prado na ESPN, Pokertube e Pokernews. Imagem: Fedor Holz durante a final da Copa do Mundo de Futebol, retirada de sua conta no twitter (@CrownUpGuy)

Amarillo Slim, prop bets e a não aposta

As prop bets (proposition bets, ou também conhecidas como side bets), são por convenção separadas em dois tipos: apostas que são feitas sobre a ocorrência de um evento, como por exemplo apostar que o flop vai trazer apenas cartas pretas ou qualquer outro tipo de combinação no bordo; e apostas que consistem em propor ao adversário um desafio, colocando-o numa situação em que ele tenha que cumprir alguma tarefa. Exemplos para essas apostas não faltam, vão desde o famoso last longer (onde o último jogador a ser eliminado num torneio ganha dos demais eliminados o montante apostado), até bets mais peculiares como ficar um ano sem comer carne, ou sem fazer sexo.

As side bets entre jogadores de poker eventualmente são noticiadas quando envolvem figurões, grandes quantias de dinheiro ou algo inusitado. Foi o caso da prop bet contra o profissional Antonio Esfandiari durante o Main Event do PCA no começo de 2016, que acabou por desclassificá-lo. The Magician, como é conhecido Esfandiari, resolveu tentar a mágica de urinar à beira da mesa, dentro de uma garrafa, para não ter que caminhar até o banheiro, pois a condição da aposta que ele aceitou consistia em andar de um jeito estranho, apoiando os joelhos no chão a cada passo, por longas 48 horas. Durante esse período e com as pernas já em frangalhos, o jogador decidiu transformar o salão do PCA em banheiro e uma garrafinha em mictório. A direção não gostou, e ele ganhou a própria eliminação do torneio, contudo, levou a aposta.

Para se redimir publicamente, o mágico optou por doar o dinheiro ganho na aposta para instituições de caridade, seguido de um pedido de desculpas. Em suas palavras: “I believe in balance, and my life would not be in balance if I kept this money for myself.” Algo como: Eu acredito em equilíbrio, e minha vida não estaria equilibrada se eu mantivesse esse dinheiro comigo.

Por vezes, esse tipo de prop bet é usada como forma de estímulo, como se o jogador apostasse contra si mesmo, aceitando uma condição apresentada (a aposta) para estimular a chegada a um objetivo, por exemplo quando Ivey e Negreanu propuseram na WSOP de 2014 que um dos dois levaria um bracelete de campeão, dobrando o valor de quem apostasse contra. Nessa mesma linha de auto-desafio, o jogador brasileiro Marcelo Freire, conhecido no poker online pelo apelido de Urubu, lançou há dois anos uma prop bet no conhecido fórum de poker Two Plus Two. O bet consistia em jogar 500 mil mãos de Pot Limit Omaha online num período de 45 dias e ainda sim sair lucrativo. Urubu jogou a toalha antes de completar a empreitada, mas mesmo assim ganhou o respeito da comunidade de poker pelo seu empenho, como você pode conferir nesse post do fórum Two Plus Two. A prop bet do momento: Vanessa Selbst apostou contra Jason Mercier que ele não conseguiria ganhar três braceletes na WSOP deste ano, mas acontece que Mercier já faturou duas jóias da World Series e aceitou a aposta casando 10 mil dólares, mas Selbst pode ter que amargar o pagamento de 1,8 milhões de dólares se o desafiado conquistar o terceiro.

Pois bem, há algo de interessante sobre essas apostas. Nas side bets do primeiro caso, a ocorrência do evento não é controlável, quero dizer, um flop de cartas apenas vermelhas é um acaso com chances de acontecer conhecidas, porém uma casualidade. No segundo caso, quando há o desafiado, está presente uma ideia de controle, no sentido que há um agente que é parte atuante na dinâmica da aposta, ou seja, em tese, depende mais do desafiado do que do acaso. Em tese, pois o desafiado pretende o controle, enquanto que o desafiador aposta na falta dele.

Esfandiari aceitou a prop bet acreditando que manteria o controle da situação, o que acabou por ficar mais na teoria, pois não basta apenas mentalizar o objetivo, é preciso considerar uma relação com o próprio corpo, e porque não dizer, com o corpo social. Mesmo tendo ganhado a aposta ele não conseguiu ficar com o prêmio, afinal, em sociedade, aspectos morais são tão ou mais valiosos que dinheiro, o que abre outra questão.

Antes de tudo, o desafiado precisa crer numa troca simbólica, ou seja, considerar se o esforço vale à pena moralmente e não apenas em função da quantia em dinheiro. Relação que, no caso de Esfandiari, ficou perceptível no desfecho, quando ele optou por devolver o prêmio por ter infringido uma moral maior que o jogo. Na recente prop bet de 600 mil dólares contra Dan Bilzerian também há uma situação onde aspectos morais estão presentes, aceitar percorrer em 48 horas quilômetros de bicicleta de Los Angeles até Las Vegas geraria aparições na mídia e nas redes sociais. Sair bem na foto (ou no Instagram) é um modo de se relacionar socialmente muito comum de nosso tempo, algo já considerado usual.

Acontece que as apostas paralelas fazem parte da cultura do poker, como se fossem manifestações de um comportamento natural dos jogadores de poker.

Na época da gênese do poker moderno, no final da década de 60, Doyle Brunson, Sailor Roberts e Amarillo Slim, antes de jogadores de poker, eram apostadores em busca de qualquer vantagem, e talvez aqui esteja a origem desse comportamento comum e das prop bets tão difundidas na comunidade do poker. E, em se tratando de apostas e desse trio de notáveis, é preciso destacar um deles, Thomas Austin Preston Jr, mais conhecido como Amarillo Slim. Carregando e forjando o estereótipo do caubói-jogador, que supreendentemente ajudou a mudar o estigmatizado poker participando de várias entrevistas em programas de TV após sua vitória no Main Event da WSOP de 1974, e que ficou muito mais conhecido por suas extravagantes proposition bets.

Amarillo Slim se utilizava de uma lógica peculiar, ao invés de “achar o pato na mesa” como de costume, ele transformava o campeão em pato, desafiando seus adversários em seus campos de atuação. Dentre suas tantas prop bets conhecidas, podemos citar duas: Amarillo apostou contra o lendário cavalo campeão Seabiscuit, propondo que o venceria numa corrida de 100 jardas. A única condição imposta por ele foi a de escolher a pista, e o fez num trajeto ida e volta de 50 jardas. Seabiscuit, um cavalo sabidamente veloz, disparou na primeira metade da corrida, mas o jóquei que o montava teve um problema esperado por Amarillo, o de desacelerar e acalmar seu pilotado no momento de fazer o retorno. Enquanto isso, Amarillo alcançava a linha de chegada, puxando a aposta com uma estratégia vencedora. Noutra ocasião, propôs para o já aposentado campeão de tênis Bobby Riggs que poderia vencê-lo numa mesa de ping-pong desde que pudesse escolher as raquetes. Slim treinou previamente antes da partida, e bateu o tenista quando apresentou frigideiras no lugar das raquetes.

De algum jeito, o que há de incomum entre todas as prop bets apresentadas é exatamente a qualidade da troca. Enquanto Bilzerian e Esfandiari já perderam de vista o porquê da aposta mesmo seguindo o costume, e Mercier e Urubu usam as apostas como desafio extra-jogo, as side bets do caubói Amarillo Slim vão em outra direção, são apostas no sentido mais estrito da ideia de jogo, pois o risco e o blefe são a dinâmica própria criada por ele para vencer o desafio, ou seja, não bastava para Amarilo seguir a regra, mas inventá-la. Para o campeão da WSOP de 74, simplesmente seguir o jogo seria como uma não aposta, talvez porque ele não acreditasse na tal “naturalidade”, no costume, no comportamento comum.

Que tipo de jogador você gostaria de ser? Um que inventa um jogo dentro do jogo, ou alguém que tem muitos seguidores no Instagram? Alguns diriam que nenhum deles, senão o mais ganhador. Mas não se engane, se há algo sobre apostas que devemos considerar é que cada jogador as faz em função da troca simbólica que lhe convém, e por vezes, por trocas que nem mesmo percebem.

 

Fontes: Pokernews, Two Plus Two, MaisEV, Telegraph e Wikipedia. Imagem: Shutterstock.com (editada)

Criamos o fish para não sermos tão ruins?

Na aurora do poker provavelmente qualquer jogador era fish, o tal que mal sabe pra que lado corre o baralho. O entendimento da dinâmica do jogo era furtado pelo impacto da aleatoriedade do baralho, o que permitia que a sorte ganhasse mais significado (Basta notarmos em alguns principiantes a tendência de pagar até o river o flush desejado, ou mesmo a noção dos que olham o poker de fora de que o jogo se trata de ter sorte). Contudo, o espírito do jogador é audaz, e logo uma matemática básica se tornou vantagem, o comportamento falou mais do que o bet, decifrar o jogo virou sua condição. No fundo, olhar para o poker como jogo de azar (ou de sorte) é um jeito de olhar, tanto quanto olhar para o jogador não habilidoso e rotulá-lo de fish.

Mas, calma lá, afinal o fish existe… Ou não. Vejamos. O fish, o pato ou o donkey fazem parte da fauna que sempre está a um passo de você, ou seja, é a sua percepção do jogo no encontro com o adversário. No poker, quanto mais sabemos, mais percebemos o quanto o oponente não sabe e tiramos um tipo de proveito disso. A conversa muda quando a exceção da regra confirma que o fish de hoje pode ser o shark de amanhã, por isso parece que a alcunha de fish não está atrelada somente ao nível de habilidade, mas a uma certa expectativa em relação ao que se procura no jogo.

Explico. O fish clássico buscaria no jogo a incerteza da sorte, a emoção presente no virar das cartas no bordo, uma experiência de sensações que surgem na peculiaridade do poker. Só que, em oposição, o fish também seria o sujeito que segue a cartilha, ficando à mercê do jogo, aguardando e jogando somente cartas com valor, e portanto tornando-se explorável, um alvo de bad beats. De algum jeito a falta de conhecimento e/ou um conhecimento engessado e limitado norteia a expectativa do jogador, no primeiro caso o negócio é ganhar a qualquer custo (contando essencialmente com a sorte já que falta conhecimento), no segundo caso a busca é evitar riscos, evitar perder. O jogador que persegue a sorte no jogo vai sentir falta dela quando na derrota, ou pode culpar o jogo achando que é mais um dos jogos de azar. O jogador precavido, que arrisca pouco, vai ter seu par de reis quebrado e acabará culpando o adversário baralhão, chamando-o de fish.

Quem já passou por qualquer uma dessas duas fases, ou ambas, deve ter aprendido que o jogo se desdobra para além desses polos, pois evitar derrota ou querer ganhar a qualquer custo, são duas faces de uma experiência um tanto pobre de jogo, pois nos colocamos em posição de dependência, esperando o flush bater ou aguardando o “Grupo 1” para jogar. Por isso pode ser que seja nessa expectativa que encontremos a linha onde termina o fish e começa o bom jogador, pois jogadores melhores, em tese, estariam tentando criar condições favoráveis pra si considerando a dinâmica do jogo e não dependendo dela.

Podemos especular ainda mais, se assumirmos que a habilidade para o poker pode ser aprendida por qualquer um ou adquirida com experiência e estudo, o fish passaria a ser uma questão temporal, um estágio anterior rumo ao aperfeiçoamento, de certa forma também uma expectativa, um jogador buscaria se aprofundar nos fundamentos do poker para fugir da dependência apresentada acima. Junto disso cria-se outra percepção, onde o fish passa a ser o jogador que não se dedica o suficiente, que não estuda o jogo com afinco, viés que é aproveitado pelo mercado, há conhecimento para ser repassado e a falta de fundamentos pode ter um remédio, o treinamento.

Definir o que é fish passa necessariamente por trabalhar o tema colocando o categorizado num canto, preferencialmente, distante de nós. Mas, por que precisamos definir o que é fish? A quem essa categorização atenderia? Possivelmente não há uma finalidade nisso, pode ser apenas um saber para a prática do jogo, um alerta para tirarmos vantagem, e como comentado no início desse texto, identificar o fish é uma tarefa da nossa percepção, uma comparação simples, mas pescá-lo é outra história.

Por isso, ficar preso apenas à comparação também parece pouco proveitoso, pois se percebemos o fish porque ele joga de forma estranha à nossa, e isso nos afeta mal, esse incômodo pode identificar o quanto estamos presos à ideia de que a categorização nos propicia uma vantagem, quando de fato não é identificar que nos torna melhores, mas descobrir como atuar dentro dessa possibilidade. Por que ele pagou com isso? Por que deu raise de 5xBBs? Por que deu check no river? Perguntas que podem ser caminhos de compreensão ou elementos para definir o quão ruim é o oponente frente ao nosso jogo.

Categorizar aquilo que aparenta ser incompreensível nos atos do oponente se torna uma resposta ressentida pela falta de conhecimento que percebemos que o adversário não tem. Mais exatamente, a exteriorização de um descontentamento por perder para quem sabe menos. Então, criar o fish vira um alento, a desculpa perfeita para perdermos “ganhando”, afinal sabemos jogar, já o fish… Está aí a armadilha do jogo que nos convida a subestimar o adversário, o que por vezes nos dá a mesma falsa sensação de estar por cima, um tiro no pé, o autoengano.

Enfim, o fish tem seu assento garantido em nossas percepções, ele pode ser a constante de uma competição onde a grande maioria dos praticantes denomina seu adversário como fish, mas onde poucos ganham consistentemente. Para jogadores que pretendem escapar das categorizações, não há fishes, senão possibilidades.

 

 

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