Metapôquer apresenta o pôquer como elemento de reflexão

Livro pretende ampliar o entendimento do jogo com uma abordagem filosófica e conferir ao pôquer uma nova forma de interpretação

Pôquer é esporte? Matemática? É jogo de sorte ou de habilidade? Há intuição no pôquer? Muitas dessas perguntas estão aprofundadas no livro Metapôquer, que amplia o horizonte de entendimento do jogo com uma abordagem filosófica e, assim, confere ao pôquer uma nova forma de interpretação.

O pôquer, atualmente uma grande indústria, não poderia ser abordado adequadamente sem partir do conjunto mercado, sociedade e imaginário, temas explorados no início do texto em tom crítico, mas que têm o intuito de afirmar a atividade por seu aspecto de Jogo, ideia fundamental para os desdobramentos que o conteúdo propõe.

Tal investigação pretende operar um resgate de conceitos para aproximar o jogo de seu papel social fundamental de formador de cultura, e com isso promover o pensamento numa atividade tão prática quanto é o jogo. É nesse sentido que o título se justifica, um pôquer além do pôquer.

Na sequência, o livro explora o conhecimento matemático e técnico aplicado ao jogo, estabelecendo limites, problematizações e possibilidades que a técnica apresenta aos praticantes, sem perder de vista sua importância e seu caráter adequado de conhecimento.

Assim, Metapôquer caminha para parte final ressaltando a importância da emoção, da interação e da percepção como aspectos estruturantes da dinâmica do pôquer, mostrando essas relações sob a ótica da afetividade, que não só desmonta a oposição entre mente e corpo tão presente no pensamento de hoje em dia, mas abre espaço para a intuição como critério para a prática do jogo.

“Quem já jogou pôquer sabe bem o quanto essa experiência nos coloca sob um turbilhão de emoções e pensamentos. Jogar e vencer, portanto, passa a ser um exercício de controle emocional e de decifração do jogo, onde abordagens técnicas e matemáticas sempre propiciaram um porto seguro. Partindo desse ponto, o Metapôquer busca provocar uma inversão entre racionalidade e emoção, apresentando a porção emocional como parte estrutural do jogo, e não a técnica. Para isso, o livro apresenta conceitos da Filosofia, Sociologia e Teoria dos Jogos a fim de estabelecer a importância da interação, percepção e intuição na prática do pôquer”, explica o autor do livro Marco Naccarato.

Metapôquer [setembro de 2018] de Marco Naccarato, Vox Editora, 112 páginas.
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A grande jogada de Molly

O assunto de A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017) não é o poker, embora ele seja a metáfora mais adequada para elucidar a trama. O filme é baseado no livro de Molly Bloom, a garota que organizou por uma década um secreto e exclusivo cash game high stakes que contava com celebridades, ricaços e a máfia russa. Bem enredado, o filme retrata a vida de Molly intercalando seus momentos no passado com a trama do tempo presente.

O elo apresentado entre passado e presente nos dá duas possibilidades de analisar o filme. Primeiramente, podemos destacar a fase poker de Molly, que vai desde seu début no mundo da jogatina, até o jogo insano de três milhões de dólares numa única mão em Nova Iorque. Esta fase pode ser dividida em três partes, distintas entre si pelo tratamento visual e pela forma com a qual Molly lida com o jogo. Basicamente, seu envolvimento é refletido visualmente no ambiente, seguindo o esquema de um semáforo. Explico a analogia, quanto maior e mais perigosa é a sua relação com o poker, mais as cenas vão ganhando a predominância de uma cor, que vai do verde no início, ao vermelho no final.

No Cobra Lounge, estreia de Molly no mundo do poker, o ambiente é pintado com luzes verdes, e feltro e fichas são igualmente da mesma cor, ou seja, a passagem está livre para a princesa do poker e tudo o que ela faz é usar de sua inteligência para desenvolver o jogo a ponto de conseguir tomá-lo pra si. Na sequência, quando a protagonista organiza seu próprio jogo, se tornando a banca, o sinal de alerta surge, e em Los Angeles as cores predominantes passam a ser os tons dourados e amarelados, detalhes no feltro e fichas também acompanham a mudança. Quando o jogo de Molly chega em Nova Iorque, o vermelho toma conta, os valores aumentam, o rake começa a ser retirado, o vício em drogas atinge seu ponto alto e os frequentadores não são apenas ricaços em busca de diversão, há criminosos notórios entre eles, e finalmente o feltro indica: perigo!

Já, a parte da trama que trata do tempo presente é substancialmente mais mental, e se utiliza das cenas de infância e adolescência de Molly pra nos entregar o que há de mais determinante no filme.

Molly representa a obstinação recorrente nos atletas de esportes de alto nível, que os leva à privações, cobranças e treinos exaustivos, forças para além de suas vontades ou participantes delas. De certa forma, a rigidez do pai treinador-psiquiatra e o meio esportivo moldam seu caráter competitivo, mas fica claro que não é isso que move a protagonista e os demais personagens no filme. A terapia de três perguntas feita à beira da pista de patinação pelo seu pai, pode carecer de refinamento, mas entrega em poucos minutos que tipo de valores Molly carrega consigo.

É na vida emocional (e não em sua demasiadamente apresentada inteligência) que está o motor da protagonista e dos demais personagens, que colocam no feltro seus desejos, valores e frustrações, afinal, se a vida concreta coloca inúmeras barreiras para lidar com esses temas, o jogo como elemento descolado dessa concretude é o local propício para que esses aspectos surjam, pois ao jogar nos colocamos “em jogo”, uma espécie de descontrole por escolha própria.

A lista de dileções favorecidas ou freadas é longa no filme, vamos para algumas. O Jogador X não gosta tanto de poker quanto de arruinar a vida dos outros, e reproduz seu comportamento habitual ao tirar Molly do jogo. Harlan Eustice, o jogador bancado por X, busca controlar o jogo e a vida, a ponto de organizar toda a festa para esposa minuciosamente, característica de alguém que encontra no controle enorme satisfação, e é exatamente quando as coisas não vão conforme o esperado que o tilt o assalta em mais de um milhão de dólares. O advogado de Molly escolhe defendê-la porque quer para a filha o modelo feminino que ela mesma já carrega do pai.

Contudo, há tempos não parece mais ser possível Hollywood contar qualquer história que escape da batida estrutura narrativa do herói que passa por percalços e se salva ao final. É esse o traço previsível que deixa Molly’s Game no lugar comum, embora tenhamos um filme bem apresentado. GG ao diretor.

 

Imagem: Martijn Smeets/Shutterstock.com (editada)

Campeão na canhota

Depois de uma década fazendo viagens para Las Vegas na mesma época do ano, você começa a reencontrar com certa frequência alguns personagens, gente que visita os cassinos e aproveita as atrações da cidade, e claro, aqueles que trabalham para que tudo isso aconteça. Assim, o ambiente começa a se tornar familiar, a cada ano pode-se testemunhar os dealers envelhecendo, o costumeiro jeito das garçonetes (e o mau humor de uma ou duas), e ser reconhecido pelo diretor de torneio, que foi de dealer à floorman e agora comanda a sala.

Mas, jogadores são sempre mais interessantes, prato cheio para boas histórias, afinal, os que se envolvem em jogar, de certa maneira têm um tipo de predisposição a serem conduzidos pelo jogo, pois se colocam precisamente “em jogo”. Embora pareça algo abstrato demais, creio que essa abertura, esse deixar-se levar pelo jogo, faz com que o jogador deixe escapar algo de singular sobre si afora a própria maneira de jogar.

Essa característica não fica tão estranha se apresentada assim: num jogo como o poker, onde todos estão tentando não transparecer nervosismos e emoções variadas, deixar escapar no comportamento algo assim pode significar um tell e um bocado de fichas a menos.

Pois bem, numa dessas viagens para Vegas conheci um sujeito dos mais peculiares, que reencontrei algumas vezes, e ele deixava escapar de tudo. Cabelos grisalhos quase brancos e sempre desarrumados; um relógio de pulso todo colorido que parecia de brinquedo, daqueles que a criançada ganha em quermesse; dois pares de óculos, ora um no rosto e um dependurado; e maneirismos dos mais diferentes, do jeito de arrumar as fichas até a forma de apostá-las. Sem falar nas anotações constantes que fazia num bloco de papel amassado.

Esse velhote me chamou a atenção, conversava com todos da mesa, seu sorriso fácil tinha um dente pra cada lado e alguns faltando, e tinha a mania de mordiscar a própria língua enquanto pensava nas jogadas. O conjunto ajudava a construir uma imagem das mais interessantes que já vi ao longo dos anos no poker, jogador tem de tudo quanto é jeito, mas esse sujeito era entusiasmado e estava se divertindo como ninguém na mesa, totalmente oposto ao estereótipo do jovem jogador online que mete o fone de ouvido e joga poker como se estivesse apostando a própria vida.

Em certo momento o velhote se envolveu em raises e reraises e chumbou tudo com um par de duques, de um jeito meio estabanado, pois entrou na onda do adversário que lhe puxou todas as fichas numa mesa $1/$2 cheia de bêbados, incluindo-me, claro. Perdeu a mão, disse “quack, quack!” e levantou-se. A maior parte da parceirada debochou um pouco da jogada, mas um deles avisou: esse senhor é um gênio, escreveu até livro.

Vou partir do seguinte pressuposto, gente interessante normalmente é interessada, e isso não é clichê nenhum. Noutro ano, época de WSOP, encontrei numa tarde o mesmo velhote, fincado numa mesa $1/$2 do Bally’s. Sentei ao seu lado, ele me cumprimentou e lembrei dele no ato. Jogamos algumas mãos, ele continuava repetindo o mantra “quack, quack!”, e dessa vez me ouviu conversando com um amigo em português e ficou intrigado:

– Que língua vocês estão falando? Romeno?
– Não, falamos em português.
– Mas soa tão diferente de português!
– É que somos brasileiros.
Awesome!

Por horas, conversamos sobre algumas mãos e línguas originárias do latim. Quando saí da mesa, ele me avisou que estaria ali no dia seguinte no mesmo horário, e poderíamos continuar o bom papo. Nunca imaginei que o campeão mundial de gamão de 1978 tinha jogado poker na minha canhota por uma tarde toda. Paul Magriel faleceu no começo desse mês, nos deixou o conceito de M do poker, e mudou o jogo de gamão com seu livro. Pena mesmo vai ser não revê-lo nesses encontros casuais para continuar o bom papo.

 

Imagem: Kajura/Shutterstock.com. Fontes: PokerPT.com, Pokernews, CardPlayer.

Mitos e paradoxos no acordo entre Mike Leah e Ryan Yu no WPT

Acordos como o de Mike Leah no HU final do evento principal do WPT se tornam polêmica de tempos em tempos no poker, pois embora recorrentes, são indesejáveis por parte da indústria e da comunidade, uma vez que ferem o ideal da competição. É também recorrente notarmos dois discursos, quem é contra acordos não quer um jogo de cartas marcadas e vê nas regras garantias de que o jogo seja jogado e a competição não seja corrompida. Já, jogadores que fazem os acordos tomam decisões sob seus interesses em comum, justificando suas escolhas para além do jogo. O que vale mais? Vamos à mitologia.

O mito mais famoso sobre Antígona foi escrito pelo dramaturgo grego Sófocles, há mais de 2.400 anos. Na obra, dois irmãos brigam pelo trono da cidade-estado de Tebas e acabam por se matarem. O novo rei local decide aplicar uma punição para um dos irmãos, e ordena que seu corpo permaneça ao relento, impedindo que seja enterrado, de forma a passar um recado aos que dali em diante pretendessem algo contra seu recente reinado.

Antígona, irmã de ambos, não aceita que um deles não seja sepultado, e aplica sobre o corpo do irmão Polinices uma camada de pó em respeito ao cerimonial tradicional aos mortos, representando o sepultamento. Ao saber do ocorrido, o rei chama Antígona em sua presença e um debate fervoroso acontece. O soberano a condena à morte por ter desobedecido as regras do Estado, ela, por outro lado, defende sua posição dizendo que há valores maiores (valores dos deuses) que são superiores às leis dos homens, e portanto ela teria direito de infringir a lei e enterrar Polinices.

Uma leitura possível do mito de Antígona está no confronto entre valores e regras, ou na indagação se uma lei é sempre justa. Enfim, fica sob olhar do leitor se Mike Leah agiu em nome de um valor maior ao defender sua posição ou se este valor maior repousa somente no ideal de competição. O fato é que sua vitória no WPT surgiu de um conluio, mas o valor de algo acordado entre duas pessoas é superior a uma regra? É igualmente possível entender que o conluio foi a opção possível encontrada pelos finalistas para efetivar o deal, visto que a organização não oferece outra maneira qualquer de ser estabelecido um acordo, apenas o considera no caso da pontuação (ambos levam a mesma quantidade de pontos). A publicação dos resultados dos torneios mostrando as premiações conforme estabelecidas no anúncio dos payouts, e não o valor real acordado entre os jogadores, é um exemplo de que acordos são um aspecto velado no jogo.

Há portanto, certo papel de cumplicidade da organização do WPT no ocorrido, que poderia aplicar punições previstas em casos de conluio, ou até mesmo chegar a retirar os pontos e o título de Leah após as declarações dos últimos dias se esse ideal de competição fosse inabalável. Mas, é pouco provável que isso aconteça, o WPT tem uma boa noção da atividade que exerce e vai continuar divulgando os resultados de seus torneios da mesma forma, e igualmente acordos no poker continuarão sendo feitos, pois o poker da propaganda é diferente do poker de fato. Imaginemos que a mesa final tivesse sido televisionada, haveria chance de acordo ou conluio?

O que é paradoxal na escolha de Mike Leah é que em nome do recorde de títulos, seu propósito estava diretamente ligado ao ideal da competição, conquistar algo para além da grana envolvida, algo para deixar eternizado no WPT. Ele deu mais valor ao troféu do que ao montante de premiação, algo incomum quando se fala em acordos.

Por isso, a realidade é sempre mais complexa do que conseguimos alcançar com o olhar, principalmente por esse motivo o debate público é importante para ampliar os horizontes de entendimento. Mas, o que parece ser determinante nessa situação é a constatação de que o poker é um mercado, tal qual inúmeras atividades humanas. Jogadores bancados, acordos, negociações de patrocínio, repasse de porcentagens de premiação aos times, marketing, coachings etc., revelam a economia paralela às mesas que é condição do jogo, e tão estruturante da atividade como em qualquer negócio.

Nesse ponto, uma negociação envolvendo prestígio, legitimação, recordes dentro do universo do poker e premiações de seis dígitos, parecem ser valores mais fortes que o ideal de competição, embora a própria competição seja característica dos mercados. Quanto a Antígona, ela foi condenada à morte sendo presa numa caverna para morrer lentamente, e suicidou-se em seu cativeiro. Mas, como sempre, o jogo segue.

 

Imagem: Antígona em frente ao morto Polinices. Óleo sobre tela de Nikiforos Lytras, 1865. Domínio público. Fontes: MaisEV e Pokernews.com

Poker viciante e vício no poker

Aparentemente idênticos, o poker viciante, aquela vontade de estar a beira do feltro, é ligeiramente diferente do vício no jogo, a ludopatia. Vários aspectos sobre essa questão do vício forçosamente esbarram em como a sociedade o entende, claro que partimos do indivíduo e de como ele se afeta com o objeto do vício, mas o que me refiro é o padrão social para definirmos o que é vício e quem é o viciado. Em certa medida algumas convenções nos ensinam o que é um viciado.

Se um indivíduo é viciado em trabalho, por mais que haja um contraponto para que ele invista mais tempo com a família e em outras atividades, esse tipo de viciado nunca é inteiramente mal visto socialmente, ser workaholic é por vezes algo bem aceito ou até charmoso (biografias de conhecidos empreendedores e suas obsessões confirmam essa premissa). Outros exemplos deixam mais evidente como essa relação é entendida na sociedade, o tabagista é um viciado cujo incômodo social é até certo ponto tolerável, pois o fumante é mal visto quando “fuma ao meu lado” ou no geral quando se torna um prejuízo à saúde dos outros. Já o alcoólatra, nos casos mais extremos, causa com seu comportamento um dano social maior, derrapando para violência com os familiares, perigo de vida ao volante, brigas, etc., embora o estímulo ao consumo frequentemente se apresente. O jogador viciado nunca é bem visto, digo aqueles que colocam dinheiro na mesa e não a usual fézinha na loteria, pra eles o peso moral é muito maior.

A tentativa aqui não é colocar tudo num mesmo balaio, já vamos chegar ao ponto, mas o que é um atleta de alto nível senão um obstinado, um viciado pela sua atividade? E por conta disso e por força da competição, quantos deles deixam de lado o ideal esportivo por algum estimulante que o coloque em condições de vencer. O velocista Ben Johnson foi uma dessas exceções que ainda recorrem nos dias de hoje, daí a burocracia do antidoping, uma tentativa de controle. Há de se mencionar igualmente a questão do equilíbrio na vida, inúmeros atletas passam anos de privação, desde o convívio com a família até dietas. Por vezes o esporte também se torna campo de privações e impacta a vida social do atleta, e também do workaholic, de maneira similar.

Mas, temos uma grande diferença entre tudo isso, os vícios em substâncias químicas seriam passivos, quero dizer, o viciado tem uma relação de espectador com o objeto do vício e a anestesia que ele oferece. De certa forma o workaholic ou o esportista de alto nível ao menos atuam por meio dos seus vícios, o que é uma diferença notável. Mas, o que quero dizer com tudo isso é que tanto o esporte quanto o trabalho higienizam nosso olhar para o vício. Não estou exatamente falando do dano que determinado viciado causa socialmente, mas de como, como indivíduos sociais entendemos o fenômeno do vício, e é essa forma de entender que nos é pautada.

O ponto, ao final, é que o problema em si do vício passa consideravelmente pela sociedade, mas afeta o indivíduo o despossuindo de si mesmo, no sentido de retirar sua autonomia e torná-lo refém somente dos próprios impulsos. Nesse caso, a condição para o viciado ser feliz é o objeto, para o viciado em jogos é a química gerada pelo jogo, não o jogo como tal. Quando essa disposição do indivíduo chega na intensidade de tirá-lo de si, temos o mesmo quadro passivo do viciado em substâncias químicas. Digamos que o poker viciante se torna uma patologia quando coisas que têm mais valor para o indivíduo foram corrompidas pela experiência do jogo, quando ele se tornou objeto, como se o jogo ficasse menos atrativo do que a descarga emocional que ele provoca.

A diferença apareceria quando a possibilidade sensível do jogo (fascinante e por isso viciante) perde espaço para a anestesia que ele causa (o vício). Considerar este critério, que é muito pessoal, parece ser mais potente do que os alertas, mesmo sendo um caminho difícil. As mensagens fortes da propaganda negativa do tabagismo no verso dos maços de cigarro não provocam nos jovens identificação, pois o fumante não se vê naquela situação precisamente. O garoto que começa com drogas também, dizem tanto que faz mal, mas ele vai lá, experimenta e acha bom. Temos então um problemão!

Ainda que toda mensagem possa ter um efeito, pois entendemos e damos sentido ao mundo por narrativas, o impacto dos alertas podem ser pequenos quando seu teor não sensibiliza mais. Numa sociedade fissurada perdemos a capacidade de sensibilização, por isso nosso vício só pode ser a anestesia.

 

 

Imagem: Placa fixada no cashier do cassino Caesars Palace, em Las Vegas (Naccarato)

O rush de Las Vegas

O painel do elevador do hotel não mostra o décimo terceiro andar, a superstição norte-americana torna a falta, presença. É a deixa, 13 é o palpite para uma passada rápida na roleta, 60 dólares na mesa pela mesma quantidade em fichas, uma pilha com dez delas no preto, outras dez distribuídas em pares sobre cinco números. Basta repetir por três vezes, esse é o método de aposta consagrado pela experiência, acertando um dos escolhidos com a aposta no número, o prêmio é de $70, que melhora para $90 se coincidir com a cor. São 13% de chance nos números e 48% na cor. Três tentativas depois, sessenta pratas a menos.

Em qualquer cassino de Vegas há um mostrador em cima da roleta com as estatísticas das últimas rodadas, o jogador desavisado vê uma sequência de números pretos e logo aposta no vermelho. Besteira, cada rodada da roleta é um evento único, uma sequência de 20 vezes seguidas na mesma cor não diz nada, não é à toa que o próprio cassino exibe toda a série de números e cores. A aposta combinada acima tampouco, mas jogamos cada um de nós um sistema próprio, um método que privilegia um número favorito, uma conta um pouco mais a favor ou até superstição. Com um pouco de bebida na cabeça e alguns amigos, a coragem coloca vinte dólares no 10, e começa o coro: Pelé, Pelé… Um casal argentino embala, e a senhorinha grita “Pelê”. Embriagados na outra ponta do pit embalam “Pelew, Pelew”. Deu 19, vermelho.

As caça-níqueis deveriam chamar-se “slut machines”, e não slot. A slut seria aquela que por uns poucos minutos te dá um enorme prazer e ao final leva todo seu dinheiro. Depois de torrar $80 na roleta, não custa tentar, mas novamente procuramos por um método, garimpar as máquinas com maior valor acumulado e bater aposta máxima até soltar o prêmio. Slots com o tema peixes/mar não, elas te afundam. Slots com 777’s, essas sim. Slots com tema oriental, sim. Slots com búfalos ou monstros, não. Achamos a Quick Hit, que é uma daquelas que reúne muitas atrações, bebidas de graça (que nunca são de graça), setes flamejantes, cerejas, sinos, e um bônus que faz a slot trabalhar sozinha… Depois de atolar 50 trumps pinta o tal bônus, vinte rodadas pagando três vezes o que você acertar, e depois de cinco minutos a “slut” te devolve trinta e poucos dólares.

O jeito é engatar no último torneio de poker da noite, ou como diz a turma do meio copo cheio, o primeiro torneio diário da Strip de Las Vegas, o torneio da meia-noite do Flamingo, cassino do famigerado Bugsy Siegel, gângster que impulsionou a empreitada mafiosa do jogo em Vegas, mas que hoje é apenas uma estátua no Madame Tussauds e um pouco de marketing. Sobre o torneio de poker? Ah, deixo contigo, você sabe exatamente com que espírito estamos depois dessa sequência, provavelmente agora, tentando nos convencer de que é melhor por dinheiro onde “sabemos”.

Vegas trata seus impulsos com carinho, espera de você somente aquilo que você pode dar e uma racionalização qualquer que te coloque na frente de uma roleta, slot ou feltro. O rush na cidade formada pelo pecado é ao contrário, pois só há pecado quando se acredita.

 

Imagem: Slots do Casino Royale, em Las Vegas (Naccarato)

WSOP 2017 e o November Nada

Começa hoje a 48.a edição da série de torneios mais conhecida e cultuada do poker, a World Series of Poker, marca registrada tida no Brasil como o “mundial de poker”, inicia nesta terça sua jornada de 49 dias com seus quatro deepstacks diários e dois satélites para a terceira edição do Colossus, torneio com buy in mais modesto em comparação aos outros eventos, “apenas” 565 dólares. Não há lugar melhor para acompanhar os chipcounts e visualizar cada evento do que o próprio site da WSOP, nesta página há a lista de todos os torneios e cada uma das estruturas, e também um link para baixar o calendário completo em formato PDF.

Como é sabido, o verão de Las Vegas reserva inúmeras séries de poker além da World Series, uma vez que muitos cassinos possuem seus próprios campeonatos de poker, que já são tradição como é o caso de The Grand, a Série de torneios do Golden Nugget; ou o recente e consolidado Goliath, do Planet Hollywood. Para facilitar a vida dos jogadores que vão passar os próximos meses por lá, o Pokernews fez uma agenda completa com apenas esses torneios, listando buy ins, horários, prêmios garantidos e fees, tudo separado por dia, uma mamata.

Outra tradição recente desta época fica por conta do ex-november niner Kenny Hallaert, jogador belga que todos os anos disponibiliza em drop box uma planilha monstrenga com todos os torneios de verão da cidade, com informações gerais de todas as séries, calendário, separação por modalidade de jogo e até cálculo de rake de cada torneio.

E falando em November Nine, um dos mais marcantes anúncios da WSOP para esse ano foi a descontinuidade do formato de mesa final que reservava uma data em novembro para a definição do campeão do evento principal. Quando o November Nine surgiu, muito se falou sobre os benefícios em adiar a disputa em três meses, como forma de preparar melhor os jogadores e com isso também promover o jogo e seus ídolos.

Hoje sabe-se que o poker dificilmente ganha espaço no mercado tendo que disputar em novembro a atenção do público norte-americano, preocupado com as semifinais do beisebol ou as disputas da NBA. Os custos são altos, e dando prosseguimento nas transmissões em julho mesmo, é muito mais provável ganhar espaço na mídia pelo engajamento do público via redes sociais, por exemplo. Recomendo a entrevista com Ty Stewart, diretor executivo da WSOP.

Há sempre uma disposição de discurso em dizer que é tudo feito pensando nos jogadores ou no público, mas mercados são especialistas em nos ver como consumidores. Quando uma rodada do campeonato brasileiro de futebol passa depois da novela, fica mais clara a falta de realidade dessa disposição. Na World Shows of Poker quem dá as cartas não é o dealer, mas quem comanda o espetáculo. Adeus, November Nada… ou até a próxima.

 

Fontes: Pokernews, Kenny Hallaert (@spaceyFCB) e wsop.com. Imagem: Salão vazio da WSOP em 2015 (Naccarato)

A imagem no poker e na novela

Qualquer obra de ficção é fruto do imaginário ou é um reflexo dos nossos tempos? Trata-se de ambos? Será que estamos presos a imaginar somente o que está ao alcance de nossas visões de mundo fincadas no agora? Parecem boas questões, mas o fato é que um tema abordado na trama de uma novela se amplia não exatamente em qualidade como nessas perguntas apresentadas, senão precisamente em quantidade.

O termo quantidade diz muito sobre os objetivos de uma novela quando a consideramos como um produto, afinal, embora seja um tipo de atividade artística (que em potencial poderia provocar experiências estéticas interessantes), as novelas se orientam à audiência, e para tanto precisam estar de acordo com uma visão de mundo já aceita pela sociedade, com o que já está naturalizado. Ou seja, a precaução ao apresentar os temas e as mudanças que acontecem na trama em função dessa aceitação são baseadas no apelo que a experiência artística provoca e igualmente na manutenção deste público, que precisa se ver refletido nesse espelho que chamamos de televisão.

Nesse sentido, as novelas são reflexo da própria sociedade que legitima algumas narrativas com as quais se identifica, e num processo cíclico alimenta a trama ao mesmo tempo que é alimentada por ela, quer dizer, vemos nossos ideais na novela da mesma forma que ela nos municia de ideais. O possível problema com isso é que na falta de outras opções, esse tipo de entretenimento massificado passa a pautar os assuntos da sociedade, em parte porque tem uma penetração grande na vida social, mas fundamentalmente porque consagra o que esta mesma população já tem como “normal”.

Grosso modo, duas reações básicas acontecem, quem fica horrorizado ao ver um beijo gay na novela está projetando seu ideal conservador. Aqueles que entendem que é um avanço em relação à aceitação das diferenças comemora igualmente sua visão ideal. De forma alguma estou minimizando o ganho social que a tensão entre conservar e avançar provoca, mas podemos dizer que ambas visões não podem perder de vista que o beijo gay existe e vai se repetir enquanto a humanidade existir. O “susto” ao presenciar essa imagem vem da negação da realidade, como quando um viciado em jogo aparece na tela. Ou seja, o inconformismo provocado pela aparição da jogadora viciada na novela é o indicador de que mexeram num ideal, neste ideal do novo poker esportivo. O medo de que a imagem estigmatizada do poker se confirme pela imagem da novela revela o quanto este susto é concreto, é daí que partem os ataques.

Aparentemente aconteceu uma inversão, a verdade (use o termo com quantas aspas quiser) está na imagem simulada, enquanto que a realidade deixou de ter graça, no sentido que não mais favorece uma experiência estética considerada interessante. Vemos deflagrado algo do nosso tempo, a imagem por vezes toma o lugar da realidade, e é assim com a novela e seu potencial para pautar a sociedade.

A personagem é parte do nosso imaginário sobre o jogador viciado, o estereótipo consagrado. Vale lembrar que é daí também que saíram vários filmes sobre poker que atraíram muitos praticantes para o jogo. O herói de Rounders vive a mesma experiência devastadora do jogo, perde suas economias, a oportunidade de carreira na faculdade e também a namorada, só pra citar um dos filmes mais cultuados pelos jogadores. Se ao final da novela a jogadora viciada conseguir largar o vício, o que é bastante provável visto o arco dramático dessa personagem, o poker estará redimido?

É possível defender a novela levantando a bandeira da liberdade artística, de forma que qualquer intervenção ou imposição do que deve ou não aparecer na trama beira um tipo de censura, mas vejam, não é a própria busca pela audiência que censura a novela? Quer dizer, o que vai aparecer depende do que vai ser mais aceito. Além disso, atacar a novela porque ela mostra o lado ruim do jogo e querer que ela mostre o lado bom é de algum jeito ingênuo. Alguns ataques afirmam que o folhetim televisivo deveria ter o compromisso em também mostrar o lado positivo da atividade, o que é uma justificativa pobre, afinal novelas são consagradas porque a preocupação em tratar qualquer assunto com profundidade e complexidade não é parte principal de seus objetivos. No fundo, esperar que a novela, o programa de auditório, o reality show ou qualquer coisa do gênero apresente uma visão mais elaborada e profunda sobre um assunto é igual a comprometer todas as suas fichas pagando uma aposta pra acertar a broca no river, quer dizer, às vezes bate, mas trata-se de uma exceção.

Ademais, a face positiva do poker não é o assunto da novela, que pelo seu título nos demanda algumas interpretações. “A Força do Querer” nos diz sobre o impulso por vezes incontrolável (a força) do desejo (o querer), o que exprime com certa exatidão o vício. Ao mesmo tempo, a vontade de querer mudar de situação, ou seja, a força de querer largar o vício, fecharia o arco dramático da personagem, como acontece recorrentemente nas tramas. A jogadora perderia tudo no jogo e ao final se recuperaria, curiosamente uma estrutura narrativa idêntica ao aclamado Cartas na Mesa (Rounders, 1998).

Se você gosta de novelas, espero, não é pelo que ela pode produzir de reflexão, mas pelo que resta de expressão artística em sua dinâmica. Se você gosta de poker, espero, não seja pelo apelo de imagem que ele possui, pois com um curto período praticando já dá pra notar que esse apelo se desmancha como a fumaça de um cachimbo. Magritte diria (ou melhor, pintaria) em sua “Traição das imagens” que a imagem do cachimbo não é um cachimbo, para questionar o quão estamos presos à imagem.

A saída presente no imbróglio poker e novela é a oportunidade de perceber as estruturas por trás da superfície onde está a imagem, como fizemos quando deixamos de considerar o poker como jogo de azar. Na medida em que relacionamos mais conhecimentos abraçamos menos definições prontas e podemos tentar mais perguntas no lugar de aceitar a pauta.

 

Imagem: “La trahison des images” (1929) de René Magritte