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As duas pontas do poker: Libratus e William Kassouf

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O termo duas pontas, no poker brasileiro, é o apelido para o open-ended straight draw, a chamada para completar uma sequência que precisa de uma carta por qualquer um dos lados. Numa abordagem mais abstrata, também podemos imaginar uma linha ou régua onde num extremo está o jogo puramente matemático e do outro lado estão os aspectos psicológicos presentes no poker. Diametralmente opostos, a forma matemática seria representada pelo computador Libratus, a inteligência artificial que “aprendeu” e venceu os humanos, e em oposição, o controverso jogador britânico William Kassouf representaria as estratégias de ordem emocional.

O computador Libratus, batizado com uma expressão do latim que significa equilibrado, desequilibrou a disputa humanidade versus inteligência artificial, (ou Brain vs. AI como ficou denominado), levando a melhor de lavada no desafio contra quatro jogadores profissionais durante o mês de Janeiro deste ano, onde jogaram 120 mil mãos. A máquina foi desenvolvida sobre algoritmos capazes de interpretar situações e criar estratégias para sair delas, e por isso “aprendeu” com os jogadores humanos como consertar seus próprios erros.

No vídeo abaixo, do canal do profissional Doug Polk, os quatro jogadores falam sobre suas experiências ao enfrentar Libratus, e levantam questões como a melhora do computador durante a disputa, algumas mãos muito estranhas, o fato de terem subestimado a máquina e a impossibilidade de parar o jogo quando não estão praticando seu A-game. É interessante e vale a pena conferir, além de estar legendado (embora um trecho do vídeo parece se repetir ao longo dos 20 minutos):

O jogador catarinense Alexandre Santos, do blog Um Out no River, discorreu sobre o assunto respaldando a opinião de Sean Chaffin, do Pokernews: o computador não tem medo do risco, enquanto que os humanos ponderam sobre isso. Contudo, o risco evidente nessa disputa em específico não parece ser exatamente a perda financeira (o dinheiro em jogo era fictício, os stacks reestabelecidos a cada mão etc.), senão a honra ou qualquer outro aspecto moral. Portanto, o que parece sobrepor a questão do risco é o fato de que Libratus não se abala como os outros jogadores durante a disputa, e isso pode ser determinante para o desfecho, afinal o computador não oscila emocionalmente.

E falando em jogo emocional, na outra ponta dessa linha imaginária estão as estratégias de base psicológica que são o diferencial de William Kassouf, que obteve seu melhor desempenho na WSOP em seu deep run no Main Event do último ano, sendo eliminado na 17.a posição e embolsando pouco mais de 338 mil dólares pelo feito. A caixa de ferramentas de Kassouf é uma mistura de falatório e longas pausas de tempo, que desestabilizavam seus oponentes e traziam como resultado algum tipo de vantagem para o britânico. Contudo, nem por isso podemos considerá-lo um dos melhores jogadores do mundo. O que é certo é que contra determinadas pessoas, seu estilo falastrão cria condições favoráveis de jogo pra si.

O paradoxo interessante dessa linha imaginária se apresenta justamente na oposição entre humanos e máquinas, psicologia e matemática, emoção e razão. O pokerbot calcula num nível inalcançável para humanos, e jogadores de pele e osso perdem porque tentam imitar o robô, pois buscam a matemática perfeita e inexplorável para vencer a calculadora no longo prazo (um verdadeiro trabalho de Sísifo). Enquanto o humano que tenta não imitar os humanos, pois cria uma maneira própria de jogo, vence justamente porque apresenta a si mesmo, e contudo, vai perder na maioria das vezes, pois o jogo se trata de muitas derrotas e algumas vitórias, e seu repertório pode ou não ter efeito.

Uma conclusão possível é a de que o eixo entre Libratus e Kassouf não exista, pois há inúmeras outras formas de aprendizado possíveis além das duas pontas, um combo-draw cheio de variantes e com menos definições. Não há nada mais sólido do que a boa matemática aplicada e o nervosismo ao blefar, elementos que são facetas entrelaçadas de um todo, e não o inverso.

É certo que Kassouf seria derrotado pelo computador, também de lavada, mas não é esse o ponto se necessariamente jogamos apenas contra humanos. Ademais, as realizações matemáticas alcançadas por Libratus podem abrir novas possibilidades de saber, ampliar o conhecimento sobre o jogo, e até descrever o que há de lógico numa jogada maluca e carregada de impulso do seu adversário. Nesses termos há um caminho potencialmente mais proveitoso do que tentar derrotar o computador.

 

Imagem: Shutterstock.com (editada)

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About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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