Crônicas

A última rua na última street de um poker imaginado

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A noite de jogatina já era um passado recente, e na memória restava a lembrança de algumas apostas mal feitas nas últimas oito ininterruptas horas. No trajeto entre o clube e sua não muito confortável cama, a mente permanecia remoendo cada carta que não virou grana, cada flop desconexo, o par de folds com par na mão que dariam um bom pote. Como consolo, a mente trabalhava num mundo imaginado em que cada aposta dava certo.

A única coisa que o trazia para realidade era a lua, grande e encardida no final da madrugada, que parecia pesada demais e ameaçava tocar a linha do horizonte, insistindo em aparecer bem em frente ao carro a cada virada do volante. Uma surpresa não surpreendente, afinal, ele sabia que ela estaria lá, mas nunca de onde viria. A lua era sua ligação com o real, lembrando-o sobre o mundo ao redor.

Sem a visão da lua, a mente retornava ao poker imaginado, mas na longa via expressa, a velocidade constante e o sono o deixaram em transe, até que em determinado momento, real e imaginado tornaram-se uma coisa só, a lua no horizonte se parecia com um ás, o asfalto era verde como o feltro, as placas de sinalização eram fichas, cada qual com cor e valor diferentes. A aposta não feita era uma brecada, piscar o farol era um tell, uma buzinada informava a mudança de blinds.

Na nova realidade, um tipo de ilusão consciente, cada uma das vielas que sucediam a via expressa se tornavam uma mão jogada, em cada esquina dobrada um novo flop, a cada lua, um ás no turn. Numa dessas esquinas, um homem alto, terno preto e sorriso branco, chapéu e mala, desce a rua sem perceber o carro. A visão impactante e incomum confunde a cabeça, mas se tratava da mão final, era o dealer, que acenou segurando a ponta do chapéu.

Ele foi all in com velocidade, o bet foi maior do que a placa indicava, o feltro já era escuro como asfalto, e o impacto do river transformou o bordo de espadas, em copas, tudo vermelho e cruel. Foi assim, frente a chance de recuperar tudo que havia perdido, a aposta na ilusão foi sua última, o jogo havia acabado pra ele.

 

Imagem: Shutterstock/Pan Xunbin

About the author / 

Marco Naccarato

Marco Naccarato é designer, escritor, jogador de poker e autor dos livros Floating in Vegas e Floating in Miami, que relatam com humor a dinâmica do small stakes dessas cidades. Tem textos publicados nos sites Aprendendo Poker, Pokerdicas, PokerGirls e Queens of Poker, e é idealizador do site Metapoker, além de organizar o torneio semanal ADT Poker, no bairro da Mooca, em São Paulo

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